Mapa das Livrarias de Rua é registro físico do movimento do livro em São Paulo
PublishNews, Beatriz Sardinha, 13/11/2025
Primeira tiragem de iniciativa promovida por 37 livrarias começa a circular a partir do final de novembro em diversos endereços

Um coletivo 37 de livrarias de rua em São Paulo anunciou em novembro o projeto do Mapa das Livrarias de Rua. Com endereços, informações e fachadas desenhadas das livrarias que participam da ação, o Mapa terá impressa e digital, com tiragem inicial de 40 mil exemplares, distribuídos a partir de 24 de novembro. Produtores do mapa destacam a força do impresso como ferramenta para driblar algoritmos, como potencial turístico e como ferramenta para o registro da história das livrarias de rua em São Paulo, que vivem um boom no país — Belo Horizonte e Rio de Janeiro também estão com muitas novas livrarias de rua — nos anos pós-pandemia. Os desenhos das fachadas são da ilustradora Isadora Ferraz e o projeto gráfico do mapa é do artista visual MZK.

Mônica Carvalho, da Livraria da Tarde, fala da importância do Mapa como um "documento histórico que apresenta uma cena que as pessoas pensam, erroneamente, estar acabando". Ela diz que o projeto mostra uma cena viva e pulsante no livro da cidade, que abrange livrarias diversas, algumas tradicionais e algumas específicas.

Livraria das Perdizes | © Divulgação
Livraria das Perdizes | © Divulgação

Ao colocar diversos endereços do livro literalmente 'no mapa', a publicação funciona também como um registro da história da cidade. No caso da Livraria das Perdizes, localizada ao lado de um dos campus da PUC SP, o espaço é local de convivência próximo a um berço acadêmico nacional. "Queremos a nossa livraria como espaço de convivência e muitos eventos, possibilitando a troca de ideias e discussões. Hoje, fazemos parte de um grupo de livrarias independentes que se reuniram para fortalecer o setor e lembrar a importância das livrarias nos bairros, que formam novos leitores. Essa união beneficia toda a categoria e estreita os laços com a comunidade", afirma Mara Cortez, sócia da Perdizes.

Leitora assídua, a ilustradora do projeto Isadora Ferraz comenta ao PN que ter o mapa impresso contribui para estreitar a relação das pessoas com os livros e com as livrarias físicas. "Da mesma forma que um livro promove curiosidade no manuseio das páginas, o mapa também o faz, no manuseio das dobras. Um mapa torna mais estimulante conhecer a cidade a partir das livrarias", comenta. Em conversas com MZK, Isadora diz que escolheu um estilo de desenho que promovesse uma atmosfera aconchegante, que comunicasse as características próprias de cada uma das 37 livrarias.

Entre os objetivos do grupo com o Mapa estão fortalecer e promover as livrarias de rua como espaços fundamentais para o debate cultural e a preservação da bibliodiversidade, incentivar o turismo literário e conectar leitores. A iniciativa tem apoio de entidades ligadas ao livro e de mais de 30 editoras e distribuidoras.

"Quando uma livraria fecha, há comoção. O que muita gente não sabe é que há várias livrarias próximas de fechar. De fato, manter uma livraria aberta hoje é uma batalha diária". A coordenação do mapa reforça a importância da publicação, capaz de chamar a atenção para a riqueza desses espaços em São Paulo, com propostas, seleções e programações diversas. A organização destaca a importância da versão física do mapa, que "escapa dos algoritmos" e é uma peça que pode ser carregada na bolsa e revisitada todas as vezes que aquele leitor desejar.

O livreiro Leo Wojdyslawski, da Livraria Eiffel, lembra que o mapa leva leitores para livrarias e, por consequência, leva esses leitores a ter novas ideias e interações com livreiros e leitores."O fato de você ter tantas livrarias faz com que essa questão não seja apenas uma questão de política cultural, mas é também uma questão de turismo, de fazer pessoas circularem pela cidade. Tem pessoas circulando pelas livrarias e gastando dinheiro. Isso é algo que a Prefeitura precisa promover porque a cidade está se tornando a cidade das livrarias", comenta.

Pontapé do projeto

A equipe de coordenação do mapa afirma que, desde o início, a ideia era de distribuir os exemplares na Festa do Livro da USP, um evento formado por um público volumoso, que compra livros diretamente das editoras com um desconto maior, de 50%. A mensagem que o Mapa quer passar é de valorizar as livrarias o ano todo.

O prazo apertado entre o pontapé inicial e a data da festa — prevista para ser realizada entre os dias 26 e 30 de novembro — obrigou o coletivo a criar o mapa em menos de três meses, incluindo os convites, a produção gráfica, os desenhos e a diagramação.

Quando começaram a escolher as livrarias, os profissionais envolvidos partiram de um grupo que já se reunia e tinha, inclusive, promovido outras ações de 2023 para cá. As próprias livrarias foram chamando outras para se juntar e um dos critérios definidores para estar na seleção foi de o local vender livros novos – ou seja, sebos e livrarias mistas (que comercializam livros novos e usados) ficaram de fora.

A independência da produção do Mapa era um desejo da organização, que agitou uma vaquinha, na qual cada livraria fez uma contribuição de R$ 600. Depois vieram quatro patrocínios e 30 apoios de editoras e distribuidoras. Um lado negativo dos prazos mais urgentes foi que algumas livrarias ficaram de fora. A coordenação do mapa disse que livrarias que possuem interesse em participar da iniciativa podem contatá-los diretamente nas redes sociais para estabelecer diálogos e estar nas próximas edições.

Há cerca de dois anos as livrarias de rua começaram a se unir para enfrentar desafios em comum, em especial a concorrência das plataformas digitais e as feiras universitárias de livros. Enquanto as grandes plataformas combinam descontos agressivos sobre os preços de capa com logística de entrega rápida, as feiras universitárias seduzem pela disponibilidade imediata de uma miríade de títulos a “preços de fábrica”, nas palavras de Adalberto Ribeiro, o Beto, da Livraria Simples, na Bela Vista, uma das que integram o Mapa. Ele e João Varela foram os convidados do Podcast do PublishNews dessa semana, que trouxe o mapa como tema.

Na visão do livreiro, uma proposta de política pública que poderia trazer mais equilíbrio ao mercado é a Lei Cortez (PLS 49/2015), apoiada por livrarias, entidades do livro e a maior parte das editoras. Aprovada no Senado e em tramitação na Câmara, a lei estabelece limite de 10% para descontos em lançamentos durante 12 meses, com objetivo de evitar a desvalorização precoce dos livros. A lei inspira-se em legislação vigente em países como França, Espanha e a vizinha Argentina.

Nem todos, porém, acreditam em mudança significativa após a sua aprovação, já que a Lei Cortez afetaria apenas cerca de 5% dos livros disponíveis. Para Beto, no entanto, a lei pode, sim, contribuir para o fortalecimento das livrarias porque se refere à melhor fatia do mercado: os lançamentos.

Veja imagens do Mapa


Confira a lista de todas as livrarias participantes da primeira edição:

  • A Banca de Livros
  • Banca Stardust
  • Banca Tatuí
  • Tapera Tapera
  • Bibla
  • Casa Cosmos
  • Cidade de Papel
  • Livraria da Tarde
  • La Librería
  • Livraria Bandolim
  • Livraria Simples
  • Faz de Conta Livraria
  • Livraria Barrilete
  • Livraria Eiffel
  • Livraria Martins Fontes
  • Livraria Gato sem Rabo
  • Livraria Gráfica
  • Livraria Caraíbas
  • Livraria das Perdizes
  • Livraria Miúda
  • Livraria Ponta de Lança
  • Livraria Simples
  • Mundos Infinitos
  • PanaPana Livraria Infantil
  • Livraria Casa de Livros
  • Livraria Diálogos
  • Faz de Conta Livraria
  • Livraria Barrilete
  • Livraria Tutear
  • TOLC
  • Livraria Eiffel
  • Livraria Megafauna
  • Lovely House
  • Livraria da Travessa
  • Livraria da Vila
  • Livraria Cabeceira
  • Livraria NoveSete
  • Espaço Sophia
  • Selecta Livros
  • AIGO Livros
  • Entretempo
[13/11/2025 10:40:10]