Quase dois meses após roubo, obras da Mário de Andrade estão cada vez mais perdidas
PublishNews, Beatriz Sardinha, 29/01/2026
As 13 gravuras levadas da exposição temporária possuem grande valor histórico; Brasil tem baixo índice de recuperação de obras

Gravuras de Portinari, Matisse e fachada da Biblioteca Mário de Andrade | © Secretaria de Cultura e Walter Martelo
Gravuras de Portinari, Matisse e fachada da Biblioteca Mário de Andrade | © Secretaria de Cultura e Walter Martelo
Quase dois meses depois de terem sido roubadas, as 13 obras do acervo da Biblioteca Mário de Andrade seguem desaparecidas. O crime aconteceu no apagar das luzes de 2025. No dia 7 de dezembro, dois homens invadiram a biblioteca e fugiram pela porta da frente com gravuras de Candido Portinari e Henri Matisse, que pertenciam à exposição Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade, realizada em parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Segundo relatório do Conselho Internacional de Museus (Icom), o Brasil se destaca em uma lista de países com maior número de objetos culturais roubados, e apresenta uma taxa de recuperação extremamente baixa.

Aquele domingo era o último dia que as obras estariam expostas e havia 24 vigilantes trabalhando no plantão da manhã quando um dos assaltantes rendeu uma das vigilantes. Ele e um comparsa chegaram até a exposição, pisaram em vidros expositórios e arrancaram quadros das paredes com as mãos.

Arte representando espaço da Mário de Andrade com móveis da ',ovo' | © Reprodução site ',ovo'
Arte representando espaço da Mário de Andrade com móveis da ',ovo' | © Reprodução site ',ovo'
Em 2025, ano do centenário da biblioteca, a Mário de Andrade passou por um período de mudanças de gestão com a chegada e saída de Guilherme Borba e Rodrigo Massi do cargo de diretores. Neste janeiro de 2026, o cargo foi assumido por Luiza Helena Thesin, que trabalhava como supervisora da ação cultural da casa.

O caso do roubo

Contatada pelo PublishNews, a equipe da Biblioteca Mário de Andrade disse, em nota, que a "Prefeitura de São Paulo comunicou o caso à Interpol, por meio da Polícia Federal, que segue atuando na recuperação das obras. Também foram notificados o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o Iphan e a Associação Brasileira de Galerias de Arte (Agab). Imagens do programa Smart Sampa estão sendo utilizadas para auxiliar as investigações". A instituição disse ainda que a exposição estava integralmente coberta por seguro do tipo All Risks — aquele que cobre todos os riscos para coleções corporativas ou privadas e exposições — e a instituição conta com equipe de vigilância, sistema de câmeras e dispositivos de proteção física das obras.

O primeiro suspeito foi preso no dia seguinte ao roubo, 8 de dezembro, e o segundo suspeito foi encarcerado no dia 18. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou ao PN que dois homens e uma mulher — detida temporariamente no dia 19 de dezembro — seguem presos. A investigação segue em andamento sob sigilo pela 1ª Central Especializada de Repressão a Crimes e Ocorrências Diversas (Cerco) e uma das três pessoas identificadas como responsáveis pelo roubo continua foragida.

O equipamento cultural é a maior biblioteca pública de São Paulo e uma das maiores do país — e já tinha sido roubada em 2006, quando assaltantes levaram gravuras raras do século XIX. O vistoso prédio na Rua da Consolação ganhou o nome do escritor modernista na década de 1960. Antes disso, chamava-se apenas Biblioteca Municipal.

A escritora e jornalista Joselia Aguiar, diretora da Mário de Andrade entre 2019 e 2021, observa uma "irresponsabilidade em não considerar um esquema especial de segurança para a exposição". Ela relata que, atualmente, o fluxo de pessoas e esquema de segurança não são compatíveis com o que seria necessário para guardar obras do valor — material e histórico — que estava exposto.

"Existem equipes de exposição e de segurança museológica especializadas nisso, que a biblioteca não tem", afirma. A ex-diretora enxerga muitas brechas de segurança por conta da localidade da Mário no centro de São Paulo, da alta circulação de pessoas e das várias saídas que o prédio apresenta e diz que, quanto mais tempo se passa do sumiço das obras, a recuperação destas — em qualquer condição — torna-se cada vez mais improvável.

Em conversa com o PN, a equipe da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) detalhou alguns procedimentos de segurança e conservação que adotam em seu cotidiano. Suely Dias, diretora-executiva da FNB, afirma que o espaço destinado às exposições fica em uma sala de 207m², acessada a partir do jardim do prédio, e que faz parte da área de visitantes, completamente separada do setor de pesquisa.

A relação entre as obras e as bibliotecas

Foram subtraídas do acervo da Mário de Andrade o conjunto de oito gravuras produzido por Henri Matisse em 1947 denominado Jazz. Elas fazem parte da tiragem limitada nº 102 de 270 exemplares, e contam com assinatura manuscrita do autor.

Gravuras de Matisse roubadas no dia 7 de dezembro | © Prefeitura Municipal de São PauloGravuras de Henri Matisse da coleção 'Jazz' | © Secretaria de Cultura
Gravuras de Matisse roubadas no dia 7 de dezembro | © Prefeitura Municipal de São PauloGravuras de Henri Matisse da coleção 'Jazz' | © Secretaria de Cultura

Além das peças do francês, foram roubadas cinco gravuras e ilustrações de Candido Portinari datadas de 1959 e que compunham edição de Menino de engenho, obra escrita por José Lins do Rego, parte da Coleção Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil.

Ilustrações de Candido Portinari presentes no exemplar 'Menino de engenho' | © Secretaria de Cultura
Ilustrações de Candido Portinari presentes no exemplar 'Menino de engenho' | © Secretaria de Cultura

O paradeiro das obras de arte é desconhecido. E é improvável que alguma das peças apareça em vendas validadas por profissionais ou instituições do mercado. Algumas bibliotecas guardam os documentos usados na localização de obras de arte no país, como a próprioa Biblioteca Nacional e também a Biblioteca do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM Rio). Ambas relatam pedidos da Polícia Federal para realizar consultas no acervo por conta de investigações.

Reinando Bruno, bibliotecário do MAM Rio, explica que é possível identificar o trânsito de obras de arte a partir da análise de catálogos de feiras, já que esses documentos contêm um histórico do percurso dessas obras. Isso confere também validade a elas, uma vez que são produzidos por instituições, feiras e galerias para divulgação de seus trabalhos.

“Após a utilização destes materiais em feiras e leilões, muitas vezes não há a necessidade das galerias guardarem esses objetos. Nesse momento, a Biblioteca MAM Rio se posiciona como guardiã destes materiais, pensando na memória da arte moderna e contemporânea, bem como no trânsito destas obras”, afirma.

Ilustrações de Candido Portinari presentes no exemplar 'Menino de engenho' | © Secretaria de Cultura
Ilustrações de Candido Portinari presentes no exemplar 'Menino de engenho' | © Secretaria de Cultura

Além de fonte primária para pesquisadores de arte, as publicações servem como referências para textos de curadoria e como conteúdo de base para profissionais de museus: “No futuro, museólogos e conservadores verão como foi o ambiente em que aquela obra foi exposta, onde um pesquisador que não esteve in loco na exposição poderá ter as informações, as imagens da expografia, do design utilizado e do pensamento curatorial”, afirma. Em abril de 2025, a Biblioteca do MAM passou por uma reforma e começou a receber público sem a obrigatoriedade de agendamento prévio para consulta do acervo.

Reconhecimento do valor histórico e cultura de preservação

Para além do valor pecuniário envolvido nas obras, é importante — e às vezes abstrato — ter noção de obras como essas como elementos constituintes do patrimônio e da memória nacional. Coordenadora-geral e uma das responsáveis pelas exposições da FBN, Maria José da Silva Fernandes comenta que essas gravuras e desenhos, apontados como exemplares únicos, compõem coleções que pertencem aos cidadãos. "Isso tudo é computado no valor do seguro dessas obras quando recebemos pedido para exposição", afirma a coordenadora. A equipe salienta que, quando esses materiais são roubados, são "indivíduos que estão privando uma coletividade de usufruir desse conteúdo como potencial de transformação e de aquisição de conhecimento".

Na FBN, o acervo não é corrente, ou seja, não é possível realizar empréstimos e as obras não deixam o prédio. A própria consulta e o manuseio de materiais é realizada com protocolos — apenas colaboradores credenciados de cada um dos setores é autorizado a retirar uma obra da estante. Atualmente, a Fundação possui 14 coleções denominadas como patrimônio da humanidade pela Unesco.

Em fevereiro de 2023, o Conselho Internacional de Museus (Icom), organização não-governamental museológica com sede em 123 países, publicou uma red list que elenca bens culturais brasileiros sob maior risco de tráfico. A divulgação desses objetos torna público o conhecimento e permite que funcionários que trabalhem em setores chaves no combate ao comércio ilícito de obras de arte possam prestar atenção em movimentações consideradas suspeitas. A criação da lista se justificava pela 26º posição do Brasil entre os países com maior número de objetos culturais roubados, com uma taxa de recuperação extremamente baixa.

Edição de 'Memórias póstumas de Brás Cubas' está entre os objetos citados na lista | © Reprodução 'Red list' do ICOM
Edição de 'Memórias póstumas de Brás Cubas' está entre os objetos citados na lista | © Reprodução 'Red list' do ICOM

Suely Dias, diretora-executiva da Fundação Biblioteca Nacional, destaca a importância de iniciativas como a red list como ferramenta educacional para quem trabalha em locais onde há a potencial identificação de obras de arte roubadas: "É importante realizar um processo de formação das pessoas que trabalham nos aeroportos, nas rotas de saída, nas próprias bibliotecas, para essas pessoas olharem esses materiais com atenção, já sabendo que são coisas importantes", diz.

A diretora se coloca totalmente favorável da transparência quanto a dados de obras perdidas e argumenta que essa postura favorece que elas possam ser recuperadas. A FBN sofreu um furto em 2004 que, segundo Suely, "marcou a história da instituição". No acervo online da biblioteca é possível buscar por todas as obras perdidas.

Um dos grandes aliados na preservação de acervos é a digitalização de originais. Gabriela Ayres Ferreira Terrada, coordenadora do Centro de Processamento e Preservação, explica que a Hemeroteca é a porta de entrada para os quase 100 milhões de acessos anuais da plataforma. Atualmente, o acervo da instituição bicentenária conta com aproximadamente 9,5 milhões de peças e tem 40 milhões de páginas digitalizadas.

"Com a digitalização, a gente consegue provar que aquele livro é patrimônio da Biblioteca Nacional. E essa conscientização de preservação deve começar desde as pessoas que recebem os visitantes na portaria, quanto todos nós aqui que estamos em cargo de gestão", explica. Controlar e restringir o manuseio dos materiais originais não apenas favorece a segurança contra crimes, mas preserva contra 'marcas naturais' do tempo desses materiais e documentos, que datam desde o século XI.

Confira alguns dos critérios de avaliação quando obras são requisitadas para compor exposições:

  • Qual será o espaço em que a obra será exposta?
  • A curadoria da exposição interessada está de fato de acordo com o que a obra/material requisitado representa?
  • Qual a quantidade de obras que está sendo requisitada?
  • Quais são as condições ambientais em que as obras ficarão expostas?
  • Quem realizará o manejo das obras? (No caso da FBN, a instituição autoriza o manejo das obras apenas por empresas credenciadas pela própria biblioteca).

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