
Oito livros, duas editoras e uma autora que está no centro da literatura brasileira contemporânea. Conceição Evaristo furou a bolha literária: aos 79 anos, atrai multidões, provoca filas de horas e vê leitores se acotovelarem para chegar perto dela, pedir um autógrafo, uma fotografia ou simplesmente tocá-la. No ano em que completa 80 anos, parte dessa obra será reunida pela primeira vez em um box criado pela Malê e pela Pallas, editoras que, desde 2014, vêm se revezando em colocar os seus escritos no mundo. O box custa R$ 375.
“O box concebido pela Malê e pela Pallas oferece ao público leitor uma oportunidade rara de acessar a maior parte de meu fazer literário, que vem sendo publicado desde os anos 90. Estou muito grata e feliz. Creio que o meu público leitor também”, diz Conceição. A seleção reúne romances, contos, poesia e um volume de entrevistas e leitura crítica da obra de Conceição e terá distribuição da Catavento.
Com projeto gráfico da designer Letícia Quintilhano, a coleção será lançada essa semana na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. A iniciativa marca a primeira parceria entre as duas casas editoriais cariocas em torno de Conceição. Os escritos da autora mineira começaram a circular nos anos 1990, quando viu os seus contos e poemas ganharem as páginas dos Cadernos Negros, publicação criada em 1978 e posteriormente assumida pelo coletivo paulistano Quilombhoje. Os romances chegaram na década seguinte: Ponciá Vicêncio (2003), pela Mazza, e Becos da memória (2006), pela Editora Mulheres.

O box é formado pelos títulos Olhos d'Água (Pallas, 2014), Histórias de leves enganos e parecenças (Malê, 2016), Insubmissas lágrimas de mulheres (Malê, 2016), Ponciá Vicêncio (Pallas, 2017), Becos da memória (Pallas, 2017), Poemas da recordação e outros movimentos (Malê, 2017), Canção para ninar menino grande (Pallas, 2022) e Quando eu morder a palavra: entrevistas com Conceição Evaristo e guia de leitura das suas obras (Malê, 2023), o único dos oito livros que não é da autora mineira, mas foi escrito a partir de conversas com ela por Vagner Amaro e Henrique Marques Samyn.
Para Cristina Fernandes Warth, editora da Pallas, a coleção permite também olhar para o caminho percorrido pela obra de Conceição e para a relação construída entre autora, editoras e leitores. “Sinto uma emoção especial em ver os livros de Conceição reunidos neste momento. São obras que ganharam o mundo, chegaram às escolas, às universidades e, principalmente, às mãos de muitos leitores”, afirma no release.
Já o editor Vagner Amaro, da Malê, vê na parceria uma dimensão que dialoga com a própria trajetória de Conceição. “A fé no coletivo sempre guiou Conceição: sua articulação com outras escritoras negras, a participação em coletivos literários, a presença em escolas, em associações dos movimentos negros, a certeza de que ‘uma sobe e puxa a outra’ e de que ‘nossos passos vêm de longe’.”
Reunir os livros em uma única coleção também ajuda a tornar visível a dimensão alcançada pela produção da escritora, considera Vagner. “O box torna mais incontornável, explícito, o que tantos já sabem: Conceição Evaristo, ao lado de grandes nomes como Toni Morrison, Paulina Chiziane, Maryse Condé e Octavia E. Butler, é uma das maiores escritoras da literatura mundial.”
O desenvolvimento da coleção envolveu um trabalho conjunto das equipes das duas editoras e ganhou projeto gráfico criado especialmente para a edição. “Há muito afeto nesse projeto, desde a alegria de revisitar sua obra até o cuidado de pensar cada detalhe do box”, afirma Mariana Warth, editora da Pallas. Para Francisco Jorge, sócio da Malê, entregar a coleção no ano em que Conceição completa 80 anos é “uma honra única”.






