
PARATY (RJ) — Renovada, a Casa PublishNews na Flip 2026 celebrou os 10 anos de programação paralela do canal na Festa em Paraty, com nova identidade visual, distribuição da Revista PublishNews #3, 24 painéis com 71 profissionais do mercado editorial, escritores e especialistas, e um público atento que preencheu todos os espaços da Casa entre a quarta-feira (22) e o sábado (25). Temas como audiolivros, inteligência artificial, gestão de pessoas, criação literária, bibliotecas digitais, políticas públicas do livro, dados do setor editorial — e outros — marcaram as discussões de alto nível, consolidando a Casa como um ponto de encontros e de debates sobre o estado atual do livro no Brasil. Como diz o título do editorial da nova edição da Revista — que em breve terá distribuição digital —, uma das missões do PublishNews é "pensar o Brasil a partir dos livros".
Neste ano, a programação da Casa PublishNews foi coordenada pela equipe do PN em conjunto com Fábio Uehara e Maria Carolina Borin.
Na sexta-feira à tarde, os atores Gustavo Falcão e Maria Manoella conversaram com o músico e produtor Roberto Bürgel sobre a produção e narração de audiolivros — Falcão narrou e Bürgel produziu a nova Odisseia, feita pela Companhia das Letras e já disponível nas plataformas digitais.

"A gente sempre discute: até que ponto o narrador no audiolivro é um ator?", se questionou Gustavo Falcão. "Eu não me vejo ali exatamente como um ator tradicional de teatro ou cinema; para mim é uma outra experiência. É o papel do contador de histórias."
Maria Manoella contou que assistiu em Paraty a uma missa do Cardeal e poeta D. José Tolentino de Mendonça, convidado da programação oficial da Flip. Na missa dedicada aos escritores, ele comparou o ato de escrever ao ato do Criador. "Fiquei pensando que todos nós — atores, narradores, contadores de histórias, escritores — temos em comum a mesma vontade fundamental: contar muito bem uma história, seja ela escrita, falada, narrada ou interpretada. Estamos todos no mesmo barco, apenas dando nomes diferentes para a mesma arte."
Roberto Bürgel comentou que a narrativa oral é a forma de arte mais antiga que existe. "Aprendemos a ouvir histórias desde crianças, quando nossos pais e parentes contavam histórias para nós. Essa tradição vem de muito longe, desde os povos originários. Todos nós, seres humanos, somos ouvintes por natureza. Algumas pessoas ainda estranham a ideia do audiolivro porque veem a leitura apenas como uma experiência individual, visual e de decodificação de letras na página. Mas a verdade é que a última coisa que um audiolivro pode soar é como 'alguém lendo um texto'. A literatura é escrita com ritmo, com pausas, com a forma como os parágrafos e os pontos se organizam. Se você narrar de forma puramente 'lida', fica insuportável e mecânico. O autor não aparece. O trabalho do narrador é dar voz e vida àquela escrita", recomendou.
A atriz compartilhou uma recomendação a partir da sua experiência de narrar Vozes de Tchernóbil, da escritora Svetlana Aleksiévitch (que está em fase de edição). "Se eu pudesse dar um conselho para quem quer começar a narrar audiolivros ou pensa em entrar nessa área, seria: o bom leitor é quem tem o potencial para ser um bom narrador. A pessoa que lê bastante, que tem intimidade com o texto e ama histórias já tem metade do caminho andado para encontrar o tom e a sensibilidade que a narração exige", apontou.
Meu Livro, Meu Estilo
Ainda na sexta-feira (24), integrantes da Câmara Brasileira do Livro (CBL) compartiharam com o público algumas das ideias por trás da campanha Meu Livro, Meu Estilo.

"Esse projeto nasceu do entendimento de que cada pessoa se conecta com a leitura de uma forma muito particular e tem o seu próprio estilo. A leitura se adapta à realidade e aos momentos de vida de cada um: para uns, o livro traz desenvolvimento profissional e qualidade de vida; para outros, traz entretenimento, adrenalina e o prazer do suspense ou do terror", explicou a diretora comercial do Grupo Companhia das Letras, Luciana Borges.
"O objetivo central é mostrar que, independentemente do gênero ou da razão pela qual se lê, a leitura transforma a forma de pensar, expande o repertório e melhora a vida das pessoas. Além das ações no ambiente digital e nas redes sociais, estamos promovendo intervenções presenciais em eventos como a Flip e a Bienal de São Paulo. Garantimos também uma governança e sustentabilidade financeira próprias dentro da CBL para transformar esse movimento em uma iniciativa permanente de valorização do livro no Brasil."
Para Daniel Pinsky — também integrante da Comissão da CBL que elaborou a campanha —, as políticas públicas desempenham um papel decisivo na democratização do livro. "No campo das políticas públicas estatais, o maior destaque é o PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático). Trata-se do 'SUS dos livros' e de uma das políticas culturais e educacionais mais bem-sucedidas do Brasil, garantindo por décadas o acesso gratuito a milhões de livros para os alunos da rede pública de ensino. A inclusão de obras de literatura no PNLD foi um marco fundamental, pois garantiu que livros de literatura cheguem às salas de aula e às mãos das crianças de todo o país de forma contínua, dando previsibilidade financeira e sustentabilidade a editoras pequenas, médias e grandes, além de movimentar toda a cadeia produtiva do livro."
Bibliotecas digitais
Já no sábado (25), um painel reuniu especialistas em bibliotecas e no setor digital para discutir a intersecção entre eles e as possibilidades que se abrem perante o crescimento consistente do modelo dentro do conteúdo digital brasileiro.
O executivo Rafael Lunes falou pela primeira vez em público sobre o novo Instituto para a Democratização da Leitura Digital, que terá mais detalhes divulgados em breve. "O papel do Instituto é transformar a tela digital de uma ameaça em uma aliada na formação de leitores, abrindo novas perspectivas. Vimos isso no setor privado com a plataforma Skeelo, e agora trazemos essa experiência para um modelo inovador — uma espécie de 'jabuticaba brasileira' de distribuição que já estamos exportando para outros países. Em um país com as dimensões do Brasil, onde cerca de 50% da população vive fora dos grandes centros urbanos, o celular acaba sendo a ferramenta mais viável e democrática de acesso do que a infraestrutura física de uma biblioteca tradicional. As ferramentas digitais e os audiolivros chegaram para encurtar essas distâncias e democratizar o conteúdo. Projetos como o MEC Livros mostram que o país está entrando em uma nova fase de digitalização. O brasileiro é extremamente receptivo ao ambiente digital, e precisamos usar essa propensão para levar o livro a todas as pessoas", compartilhou.
Para Marcelo Gioia, country manager da Bookwire Brasil, a visão sobre as bibliotecas passa por uma transformação. "Na sociedade digital, essa visão mudou: a biblioteca passa a ser, antes de tudo, um espaço de convivência e de acesso, onde a cultura acontece. A tecnologia e o livro digital permitem alcançar comunidades distantes que de outra forma não teriam acesso aos acervos. No ambiente digital, surgem novos modelos de negócios e novos arranjos de direitos autorais e licenças que flexibilizam e expandem o alcance dessas bibliotecas."
Rafael detalhou outra metamorfose no pensamento sobre o livro no país — a passagem de uma ideia de que o brasileiro não gosta de ler, para 'o brasileiro gosta de ler Dostoievski': "Quando o poder público e as empresas de telecomunicações investem em conectividade (seja via satélite na Amazônia ou projetos como o Escolas Conectadas), essa infraestrutura pavimenta a via de acesso a direitos universais — da medicina à cultura. Ao disponibilizar uma interface web com um acervo digital do MEC ou de uma rede estadual, você entrega uma biblioteca completa na palma da mão do estudante.
Outro ponto crucial é desmistificar a ideia de que o brasileiro não gosta de ler. Nos dados de bibliotecas digitais, vemos que títulos populares como Harry Potter e ficções pop estão constantemente no topo dos empréstimos. E o grande diferencial do digital legalizado é oferecer uma alternativa acessível e democrática no combate à pirataria. Quando você derruba as barreiras de acesso e entrega uma plataforma simples e acessível, o leitor opta pelo caminho oficial em vez de buscar arquivos ilegais em repositórios da internet."
Entrevista de mão dupla
Um dos formatos de maior sucesso da Casa PublishNews é o que chamamos de "Entrevista de mão dupla": dois jornalistas e escritores sentam no sofá da Casa para conversar sobre seus livros mais recentes, suas trajetórias e assuntos do Brasil, sem um mediador conduzindo o debate. Já em seu terceiro ano no espaço, o modelo neste ano recebeu Miriam Leitão e Uirá Machado.

"Como você, eu queria ser escritor desde pequeno", disse Uirá, que é editor da CasaFolha e trabalha no jornal desde 2004. "No entanto, precisei de um tempo de amadurecimento para pensar que já teria acumulado vivências suficientes para transformar isso em histórias e conhecimento — que já teria amadurecido o meu jeito de enxergar o mundo para poder transmiti-lo às outras pessoas. Antes disso, achava que seria algo muito frágil, fraco e superficial. Para mim, não funcionaria ter feito isso mais cedo. Fiz quando achei que estava pronto. Eu era um pretenso escritor à procura de um tema, sem a menor ideia do que faria: não sabia se seria ficção ou não ficção. A não ficção faz mais sentido para as minhas pretensões acadêmicas, mas a ficção também está no horizonte. Naquele momento, o que apareceu na minha frente foi a história do Mequinho [Henrique Mecking, enxadrista brasileiro — Uirá lançou recentemente Entre bispos e reis (Todavia)].
"Você propõe uma comparação entre o enxadrista e o ser humano, o que já é algo complexo", comentou Miria sobre o livro do colega. "O regime militar tratou o Mequinho como um trunfo, e ele se deixou usar. Imagino que, por estar tão focado no xadrez, ele talvez não tenha percebido o entorno, mas ele foi usado contra nós. Por isso, a nossa geração, ao mesmo tempo que queria comemorar os feitos do Mequinho, não conseguia deixar de ver o lado da ditadura — o governo que mais torturou e matou."
Uirá respondeu: "Ele era um prodígio do xadrez desde os sete anos, derrotava adultos e era comparado a prodígios mundiais como Bobby Fischer e Kasparov. Havia um paralelo com a Seleção Brasileira dos anos 70 — na época, o slogan era 'seremos campeões da cabeça aos pés': os pés eram a Seleção, e o Mequinho representava a cabeça, o esporte intelectual. Depois, o Mequinho adoece e abandona o xadrez. Para muita gente, ele contribuiu para divulgar o estereótipo do enxadrista 'louco', e as pessoas torcem o nariz para ele mais por esse motivo do que por ter sido popular. Nos anos 70, o xadrez acabou se separando daquele efervescente movimento cultural que tivemos no país, com os estudantes universitários resistindo em 1977."
E depois perguntou: "Quando se escreve um romance de ficção, existem vários caminhos criativos. Alguns autores defendem que o processo deve ser muito livre a partir de um acontecimento. No seu caso [Miriam], é bastante evidente que você tem dois temas extremamente importantes para a história da formação do nosso país, que é o que você fez a vida inteira como estudante e jornalista. Como foi a sua transição para ficcionista e romancista? Foi um cálculo racional tratar desses extremos?"
Miriam contou que, em um sábado à tarde qualquer, lhe apareceu um frase de total separação de personalidades. "Quando escrevi A história do futuro (Intrínseca, 2015), atuei como analista, reunindo economia, sociedade e demografia para projetar tendências. Tentei esconder de mim mesma que estava escrevendo um livro de ficção (em Tempos extremos, lançado pela mesma editora em 2024) sobre dois passados e um de não ficção sobre o futuro — o que é muito maluco. Achei que era uma loucura além do que eu mesma entendia. Falei com o Sérgio (Abranches) e me dediquei a essas duas dores: usei o tempo da escravidão e o tempo da ditadura, fazendo um diálogo entre essas épocas, sem comparações diretas. No meio do debate das cotas raciais, fui a primeira jornalista a defendê-las na grande imprensa. Foi um debate muito áspero: de repente, editoriais de jornais e intelectuais de esquerda eram contra, enquanto eu conversava com lideranças como Abdias do Nascimento. Mergulhei no universo da dor da escravidão e do racismo que persiste até hoje. No romance, queria conversar sobre esses dois passados: há um momento em que uma moça do presente conversa com um escravizado que viu a mãe ser levada para o Cemitério dos Pretos Novos, sem poder enterrar o corpo; e depois ela encontra a filha de um desaparecido político da ditadura, que tampouco pôde enterrar o pai. Por mais que fossem contextos diferentes, tinham um ponto de encontro nas dores extremas do Brasil."
Mais tarde, ela concluiu que jornalismo e literatura se alimentam mutuamente. "Enquanto faço uma pesquisa pessoal para um livro, estou produzindo reportagens para a televisão, e vice-versa. Quando fiz a reportagem com o Sebastião Salgado, estava preparando terreno para meus escritos sem saber. Uma atividade informa a outra. Escolher entre os livros é como escolher entre filhos. Minha mãe teve muitos filhos, e quando entrevistei meus irmãos para escrever sobre ela, descobri que todos se sentiam o filho especial. Achei isso lindo. Não quero que nenhum dos meus livros 'se sinta' preterido, pois todos foram marcantes."
Miriam também contou uma novidade: "Atualmente, dedico-me a A dança de Elisa, uma ficção que venho escrevendo devagar nos últimos oito anos. É uma história sobre mulheres sendo encurraladas e a maneira como reagem, abordando a força intrínseca entre as gerações."
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A Casa PublishNews é uma realização do PublishNews, com Patrocínio Master de Câmara Brasileira do Livro (CBL), MVB América Latina e Transpo Express; Patrocínio Ouro de Bookwire Brasil, Carreira Literária, UmLivro e Via Lúdica; Patrocínio Prata de Alta Books, Intrínseca, Labrador Editora, Sextante e Skeelo; e Apoio de Abrelivros, Edições Sesc, Gráfica Viena, Great People Books, Nielsen BookData, Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL), Suzano e Wave Studios. A Livraria Parceira foi a Livraria Muvuca.







