Prêmio Rio de Contos revela nova geração de escritores fluminenses
PublishNews, Monica Ramalho, 22/07/2026
Resultado confirma uma característica da premiação: revelar escritores que dificilmente chegariam ao mercado editorial apenas pelos caminhos tradicionais

Na ordem, da esquerda para a direita: Luiz Antônio Cavalheiro, Patricia Daltro, Tiago J. Ribeiro e Roberta Mendonça © Divulgação
Na ordem, da esquerda para a direita: Luiz Antônio Cavalheiro, Patricia Daltro, Tiago J. Ribeiro e Roberta Mendonça © Divulgação

Vinte e seis autores e autoras de diferentes regiões do estado foram selecionados para a quarta edição do Prêmio Rio de Contos. Nos próximos meses, eles participarão de um percurso gratuito de formação literária que inclui cursos, mentorias, reescrita dos textos e, por fim, a publicação de uma antologia. Juntos, os contos escolhidos desenham um retrato múltiplo do Rio de Janeiro contemporâneo.

Ao todo, a premiação recebeu 503 inscrições, das quais 489 foram validadas. Depois da escolha de 40 finalistas, os textos revelaram uma cidade muito além dos cartões-postais e ganharam contornos sociais, afetivos e políticos. O Centro, a Lapa, os morros, as praias, os bairros da capital e municípios do interior apareceram como territórios onde se desenrolam histórias sobre ancestralidade, racismo, violência de gênero, relações familiares, identidade, migração, envelhecimento, espiritualidade e memória.

"Estou muito feliz! Essa é uma oportunidade ímpar, pois Atlântico de saudade é uma história baseada nas vivências de um amigo congolês. Nele, compartilho um olhar sobre o refúgio e a imigração, que ainda passa despercebida diante de nós. Não falo apenas de mim, mas consigo mostrar a vida de outras pessoas que vêm de um lugar distante", conta a roteirista e produtora Roberta Mendonça, 36 anos, moradora do Rio Comprido, na Zona Norte carioca. Ela bota fé que o prêmio trará um outro movimento ao tom da sua escrita.

Para Bárbara Cortesi, idealizadora e coordenadora do prêmio, muitas histórias revelam uma cidade que deixa de servir apenas como pano de fundo. "Quando o território interfere no conflito, na atmosfera e no destino dos personagens, ele deixa de ser apenas cenário. A cidade também se transforma em personagem e, em alguns casos, assume o protagonismo da narrativa", explica.

Um dos jurados, o escritor carioca Marcelo Moutinho, diz: "Os contos escolhidos pelo júri espelham a variedade que o Prêmio Rio tem buscado desde a primeira edição. A lista reúne autores de vários pontos do estado, de diferentes idades, raças, gêneros, e essa multiplicidade se dá também no âmbito da narrativa — tanto sob o viés temático quanto com relação ao aspecto formal. É o Rio de Janeiro falando de si mesmo por meio da literatura".

Os contos transitam entre diferentes experiências da cidade. O Rio que aparece cheio de bossa nas novelas convive com territórios aterrorizados pela violência urbana, pela gentrificação, pela ausência do poder público (que acarreta graves problemas de segurança e educação, por exemplo) e, sim, pelas heranças da escravidão. Em muitas narrativas, o sobrenatural surge como ferramenta para revisitar essas memórias, enquanto as tradições de matriz africana se firmam como parte constitutiva da identidade e da vivência dos personagens.

Entre os autores selecionados, 65% vivem na cidade do Rio de Janeiro, distribuídos por bairros das zonas Norte, Sul, Oeste e Centro. Os demais vêm de municípios como Niterói, Angra dos Reis, Maricá, Petrópolis, Cordeiro, Paraty e Nova Iguaçu, ampliando o mapa literário da edição para diferentes regiões do estado. O resultado confirma uma característica do prêmio: revelar escritores que dificilmente chegariam ao mercado editorial apenas pelos caminhos tradicionais.

"Como escritor do interior fluminense, esse prêmio é um importante reconhecimento. Ele mostra que a literatura produzida fora dos grandes centros também encontra espaço e leitores", pontua Luiz Antônio Cavalheiro, 57 anos, professor de Cordeiro, na Região Serrana do Rio.

Quem escreve

O grupo reúne 13 mulheres cis, 12 homens cis e uma pessoa não binária, com idades entre 25 e 67 anos. Do total, 46% são autores negros. Professores, jornalistas, roteiristas e escritores dividem espaço com profissionais da engenharia, administração, tecnologia e serviço público, revelando a diversidade de trajetórias de quem produz literatura e nem sempre aparece nas festas literárias.

A renovação também é uma marca desta edição. Dos selecionados, 69% participam do Prêmio Rio de Contos pela primeira vez, enquanto 23% chegaram à segunda tentativa e 8% foram escolhidos após três tentativas. Embora voltado a escritores fluminenses, o prêmio não limita o espaço da ficção. Entre os contos selecionados há histórias ambientadas no Paraná e na costa da Irlanda.

"Fui selecionada na terceira tentativa e cheguei a ser finalista suplente na edição anterior. Para muita gente, suplente tem gostinho de 'deixa para lá'. Em mim, veio com gosto de 'quase'. E uma certeza de que era só uma questão de acertar o ritmo, melhorar a respiração e deixar que minha voz soasse mais alto. Ver o meu nome entre os selecionados do Prêmio Rio de Contos demonstrou que 'quase' pode ser 'quando'", revela Patricia Daltro, 54 anos, escritora de Irajá, na Zona Norte do Rio.

Leonardo de Lima, Cecilia Rogers, Rodrigo Azonsi e Letícia Fonseca também foram selecionados © Divulgação
Leonardo de Lima, Cecilia Rogers, Rodrigo Azonsi e Letícia Fonseca também foram selecionados © Divulgação

A seleção representa apenas a primeira etapa do projeto. Nos próximos meses, os autores participarão de um percurso de formação voltado ao desenvolvimento das narrativas antes de vê-las publicadas em livro.

O programa começa com cursos ministrados por Cláudia Chigres, professora da PUC-Rio, e Leonardo Tônus, professor da Sorbonne, sobre escrita literária, construção narrativa, linguagem e repertório crítico. Em seguida, cada participante passará por um processo de mentoria individual e reescrita conduzido por Bárbara Cortesi.

"É importante deixar claro que o texto selecionado não é necessariamente o texto final. Ele passa por um processo de amadurecimento, reescrita e escuta. O conto que chega à publicação é resultado desse percurso, de uma construção conjunta que respeita a voz do autor, mas também provoca novas possibilidades literárias", afirma Bárbara.

A programação inclui ainda uma aula da especialista em marketing literário Dany Sakugawa e um encontro com um escritor convidado, ainda em aberto.

Entre os contistas selecionados está o professor Tiago J. Ribeiro, 51 anos, pessoa transmasculina não binária, que começou um diário para registrar as mudanças radicais provocadas pela hormonização e, a partir dessa experiência, passou a escrever ficção voltada às vivências de homens trans, pessoas transmasculinas e pessoas não binárias designadas como do sexo feminino no nascimento.

"Passei a escrever histórias de ficção inspiradas em vivências de homens trans, pessoas transmasculinas e NB designadas no nascimento como do sexo feminino, que é o meu caso". Tiago conta que já havia se inscrito na edição anterior e não esperava ser selecionado pelo teor de seus contos, que abordam tabus relacionados à tensão entre nojo e desejo.

"A formação oferecida pelo Prêmio me ajudará a lapidar projetos atuais e futuros que aspiram evidenciar experiências transmasculinas e NB, sem a pretensão de representá-las em toda a sua variedade. A maioria das pessoas cisgênero associa corpos e vidas trans apenas às mulheres trans e a nossa população é mais ampla", diz Tiago.

Realizado pela Mater Produções e pela Leia Brasil, em parceria com o Ministério da Cultura, o Prêmio Rio de Contos é dedicado à descoberta e formação de escritores do estado do Rio de Janeiro ainda não inseridos no mercado editorial nacional. Nesta edição, conta também com o apoio da Academia Brasileira de Letras, por meio da participação do escritor e imortal Geraldo Carneiro.

Ao final do percurso, os 26 contos serão publicados em uma antologia reunindo autores de diferentes gerações, profissões e regiões do estado. Desde a sua criação, a premiação recebeu mais de 1.500 inscrições habilitadas, alcançou 61% dos municípios fluminenses e selecionou 76 autores e autoras de 18 cidades do estado. Vem aí uma nova safra de contistas.

[22/07/2026 10:06:57]