
Vinte e seis autores e autoras de diferentes regiões do estado foram selecionados para a quarta edição do Prêmio Rio de Contos. Nos próximos meses, eles participarão de um percurso gratuito de formação literária que inclui cursos, mentorias, reescrita dos textos e, por fim, a publicação de uma antologia. Juntos, os contos escolhidos desenham um retrato múltiplo do Rio de Janeiro contemporâneo.
Ao todo, a premiação recebeu 503 inscrições, das quais 489 foram validadas. Depois da escolha de 40 finalistas, os textos revelaram uma cidade muito além dos cartões-postais e ganharam contornos sociais, afetivos e políticos. O Centro, a Lapa, os morros, as praias, os bairros da capital e municípios do interior apareceram como territórios onde se desenrolam histórias sobre ancestralidade, racismo, violência de gênero, relações familiares, identidade, migração, envelhecimento, espiritualidade e memória.
"Estou muito feliz! Essa é uma oportunidade ímpar, pois Atlântico de saudade é uma história baseada nas vivências de um amigo congolês. Nele, compartilho um olhar sobre o refúgio e a imigração, que ainda passa despercebida diante de nós. Não falo apenas de mim, mas consigo mostrar a vida de outras pessoas que vêm de um lugar distante", conta a roteirista e produtora Roberta Mendonça, 36 anos, moradora do Rio Comprido, na Zona Norte carioca. Ela bota fé que o prêmio trará um outro movimento ao tom da sua escrita.
Para Bárbara Cortesi, idealizadora e coordenadora do prêmio, muitas histórias revelam uma cidade que deixa de servir apenas como pano de fundo. "Quando o território interfere no conflito, na atmosfera e no destino dos personagens, ele deixa de ser apenas cenário. A cidade também se transforma em personagem e, em alguns casos, assume o protagonismo da narrativa", explica.
Um dos jurados, o escritor carioca Marcelo Moutinho, diz: "Os contos escolhidos pelo júri espelham a variedade que o Prêmio Rio tem buscado desde a primeira edição. A lista reúne autores de vários pontos do estado, de diferentes idades, raças, gêneros, e essa multiplicidade se dá também no âmbito da narrativa — tanto sob o viés temático quanto com relação ao aspecto formal. É o Rio de Janeiro falando de si mesmo por meio da literatura".
Os contos transitam entre diferentes experiências da cidade. O Rio que aparece cheio de bossa nas novelas convive com territórios aterrorizados pela violência urbana, pela gentrificação, pela ausência do poder público (que acarreta graves problemas de segurança e educação, por exemplo) e, sim, pelas heranças da escravidão. Em muitas narrativas, o sobrenatural surge como ferramenta para revisitar essas memórias, enquanto as tradições de matriz africana se firmam como parte constitutiva da identidade e da vivência dos personagens.
Entre os autores selecionados, 65% vivem na cidade do Rio de Janeiro, distribuídos por bairros das zonas Norte, Sul, Oeste e Centro. Os demais vêm de municípios como Niterói, Angra dos Reis, Maricá, Petrópolis, Cordeiro, Paraty e Nova Iguaçu, ampliando o mapa literário da edição para diferentes regiões do estado. O resultado confirma uma característica do prêmio: revelar escritores que dificilmente chegariam ao mercado editorial apenas pelos caminhos tradicionais.
"Como escritor do interior fluminense, esse prêmio é um importante reconhecimento. Ele mostra que a literatura produzida fora dos grandes centros também encontra espaço e leitores", pontua Luiz Antônio Cavalheiro, 57 anos, professor de Cordeiro, na Região Serrana do Rio.
Quem escreve
O grupo reúne 13 mulheres cis, 12 homens cis e uma pessoa não binária, com idades entre 25 e 67 anos. Do total, 46% são autores negros. Professores, jornalistas, roteiristas e escritores dividem espaço com profissionais da engenharia, administração, tecnologia e serviço público, revelando a diversidade de trajetórias de quem produz literatura e nem sempre aparece nas festas literárias.
A renovação também é uma marca desta edição. Dos selecionados, 69% participam do Prêmio Rio de Contos pela primeira vez, enquanto 23% chegaram à segunda tentativa e 8% foram escolhidos após três tentativas. Embora voltado a escritores fluminenses, o prêmio não limita o espaço da ficção. Entre os contos selecionados há histórias ambientadas no Paraná e na costa da Irlanda.
"Fui selecionada na terceira tentativa e cheguei a ser finalista suplente na edição anterior. Para muita gente, suplente tem gostinho de 'deixa para lá'. Em mim, veio com gosto de 'quase'. E uma certeza de que era só uma questão de acertar o ritmo, melhorar a respiração e deixar que minha voz soasse mais alto. Ver o meu nome entre os selecionados do Prêmio Rio de Contos demonstrou que 'quase' pode ser 'quando'", revela Patricia Daltro, 54 anos, escritora de Irajá, na Zona Norte do Rio.

A seleção representa apenas a primeira etapa do projeto. Nos próximos meses, os autores participarão de um percurso de formação voltado ao desenvolvimento das narrativas antes de vê-las publicadas em livro.
O programa começa com cursos ministrados por Cláudia Chigres, professora da PUC-Rio, e Leonardo Tônus, professor da Sorbonne, sobre escrita literária, construção narrativa, linguagem e repertório crítico. Em seguida, cada participante passará por um processo de mentoria individual e reescrita conduzido por Bárbara Cortesi.
"É importante deixar claro que o texto selecionado não é necessariamente o texto final. Ele passa por um processo de amadurecimento, reescrita e escuta. O conto que chega à publicação é resultado desse percurso, de uma construção conjunta que respeita a voz do autor, mas também provoca novas possibilidades literárias", afirma Bárbara.
A programação inclui ainda uma aula da especialista em marketing literário Dany Sakugawa e um encontro com um escritor convidado, ainda em aberto.
Entre os contistas selecionados está o professor Tiago J. Ribeiro, 51 anos, pessoa transmasculina não binária, que começou um diário para registrar as mudanças radicais provocadas pela hormonização e, a partir dessa experiência, passou a escrever ficção voltada às vivências de homens trans, pessoas transmasculinas e pessoas não binárias designadas como do sexo feminino no nascimento.
"Passei a escrever histórias de ficção inspiradas em vivências de homens trans, pessoas transmasculinas e NB designadas no nascimento como do sexo feminino, que é o meu caso". Tiago conta que já havia se inscrito na edição anterior e não esperava ser selecionado pelo teor de seus contos, que abordam tabus relacionados à tensão entre nojo e desejo.
"A formação oferecida pelo Prêmio me ajudará a lapidar projetos atuais e futuros que aspiram evidenciar experiências transmasculinas e NB, sem a pretensão de representá-las em toda a sua variedade. A maioria das pessoas cisgênero associa corpos e vidas trans apenas às mulheres trans e a nossa população é mais ampla", diz Tiago.
Realizado pela Mater Produções e pela Leia Brasil, em parceria com o Ministério da Cultura, o Prêmio Rio de Contos é dedicado à descoberta e formação de escritores do estado do Rio de Janeiro ainda não inseridos no mercado editorial nacional. Nesta edição, conta também com o apoio da Academia Brasileira de Letras, por meio da participação do escritor e imortal Geraldo Carneiro.
Ao final do percurso, os 26 contos serão publicados em uma antologia reunindo autores de diferentes gerações, profissões e regiões do estado. Desde a sua criação, a premiação recebeu mais de 1.500 inscrições habilitadas, alcançou 61% dos municípios fluminenses e selecionou 76 autores e autoras de 18 cidades do estado. Vem aí uma nova safra de contistas.






