
Em uma conversa solta de quem apresenta conceitos estruturados de teoria literária como se fossem observações rápidas e bem-humoradas sobre alguns livros, Silviano Santiago conquistou a plateia d’A Feira do Livro neste sábado (6) com tiradas sobre Machado de Assis, vida em família e literatura francesa. Prestes a completar 90 anos, o crítico literário e escritor vem divulgando — ao lado do jornalista João Barile — Presente do acaso (Autêntica), espécie de biografia particular que documenta sua vida ao mesmo tempo em que discute o próprio formato biográfico.
O sábado foi ensolarado em São Paulo (SP), o que brindou o evento realizado na Praça Charles Miller com um calor incomum nesta semana. O clima bom trouxe muitos visitantes para a Feira — uma estimativa é que no primeiro fim de semana, 25 mil pessoas visitaram o evento: a esperança é superar esses números e ultrapassar a marca de 100 mil ao fim do domingo (7), último dia do evento.
Na mesa mediada pelo jornalista Paulo Roberto Pires, Silviano ainda explicou como sua vida pessoal e profissional foi uma vida de mudanças e transformações: não é por acaso, portanto, que em sua biografia ele se defina como um “cobaia”. “Essa experiência de ser cobaia no próprio livro não é apenas uma metáfora engraçada, e sim um tipo de experimento de vida. Nasci numa cidade muito pequena, de família de classe média, e ao mudar para Belo Horizonte, com 11 irmãos, houve uma desclassificação social muito grande. O que me levou a entender que seria uma vida de experimentos. Fui me organizando de tal maneira que todas as vezes em que tentei dar um certo planejamento à vida, acontecia alguma evento inesperado”, comentou o vencedor do Prêmio Camões. “Eu descobri o Brasil na Sorbonne”, disse, parafraseando Oswald de Andrade.
Questionado sobre a onda autoficcional que tomou de assalto a literatura contemporânea, Silviano alegou que ela não é nenhuma grande novidade. “O uso da primeira pessoa na literatura brasileira vem de Machado de Assis: era uma discórdia em relação a Eça de Queiroz, que tinha um estilo realista e naturalista de terceira pessoa. Machado decide escrever em primeira pessoa, com toda subjetividade posta à luz, inclusive com discurso sexual. A grande questão de Memórias Póstumas é o preconceito, que é sentido de maneira diferente por cada pessoa. É uma questão subjetiva, porque se for lida objetivamente, perde-se o sofrimento pessoal”, explicou. “A beleza do livro só pode ser compreendida nos dias atuais, porque antigamente a sociedade o enxergava pelos olhos de Eça de Queiroz.”
Ele contou que se surpreendeu com descobertas do jornalista João Barile sobre sua família durante a realização do livro, e que “biografia, no fundo, no fundo, é um verbete de enciclopédia aumentado”.
Fernando Morais, Lula e política
Mais tarde, o jornalista Fernando Morais encerrou a programação oficial do sábado no Palco da Praça, falando sobre o segundo volume da sua biografia sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Confiante diante do cenário político neste ano de eleições, Morais disse que Lula tem grandes chances de vencer o pleito em outubro — no primeiro turno.
“Eu acho que ele vai ganhar a eleição. Estou fazendo caravanas pelo Brasil para divulgar o livro, e vim ontem de Goiânia. Discuti esse assunto com um sujeito da produção do evento, indígena, e eu dizia que mesmo antes de todas as besteiras que os bolsonaristas fizeram nas últimas semanas, já tinha convicção sobre a vitória. Ele disse que também tinha. ‘Se a gente descalço ganhou a última, imagina agora de sapato no pé’, me falou.”

Morais contou que, depois de anos de insistência, Lula aceitou falar com ele para a biografia quando um jornalista estadunidense foi até a África encontrá-lo numa viagem com uma proposta de uma editora norte-americana para fazer um livro parecido. Mas o brasileiro era o primeiro da fila.
Eles começaram então a trabalhar em 2011, processo interrompido quando Lula descobriu o câncer na garganta. “Para sorte do biógrafo, Lula dorme pouco e fala muito”, contou Morais. “Mas com a doença não podíamos mais passar horas com o gravador. Voltamos no final de 2012, quando ele voltou aos comícios, num dia em Fortaleza. Foi uma multidão. Aí comecei a acompanhá-lo em muitos lugares. O melhor lugar para entrevistar o Lula eram os aviões. Fomos a quatro continentes, 18 países. Essa proximidade acabou criando uma vantagem que ao mesmo tempo se transformou quase que num conflito ético: ele falava tudo.”
O jornalista contou que um dia lembrou a Lula que ele era seu biógrafo, e não um companheiro de partido: “ele me disse: ‘cuide do seu livro, que eu cuido da minha vida’ (risos)”.
O autor vai completar o terceiro volume (o primeiro foi lançado em 2021), espera, justamente com o suposto quarto mandato de Lula: “nesse período, Lula vai escolher por qual porta ele vai entrar na história”, concluiu Morais.
O jogo das estrelas
O dia começou com o Jogo dos Autores e Autoras, realizado no gramado sintético do novo Pacaembu, agora chamado Arena Mercado Livre. Pelo segundo ano consecutivo, a Feira convidou autores, editores, jornalistas e outros parceiros para dois jogos de futebol no estádio histórico. Foram montados dois times femininos e dois masculinos para as disputas.

O jogo masculino deste ano foi mais “pegado” do que a versão do ano passado: pelo que parece, o pessoal se preparou para a oportunidade única de jogar no Pacaembu. A partida acabou empatada em 1x1 (com gols dos jornalista Marcio Garoni, da EBC, e Uirá Machado, da Folha de S. Paulo).
Já na partida feminina, os destaques foram atuações individuais. O time azul venceu por dois a zero, com um gol cuja autoria não foi identificada nem pelas jogadoras, e outro da jornalista Anna Virginia Balloussier.

Com um público mais alto do que no passado nas beiradas do gramado, fica a torcida para que o jogo se mantenha nas próximas edições!







