
A notícia de sua partida mobilizou escritores, professores, pesquisadores e ex-orientandos nas redes sociais, que passaram o fim de semana compartilhando relatos sobre a sua generosidade intelectual, rigor acadêmico e capacidade para o riso e o acolhimento.
“Brilhante. Generosa. Ética. Acolhedora. Prática. Sensível. Justa. Simples. Perspicaz. Lúcida. Inspiradora. Eu poderia relacionar centenas de outras palavras que dariam uma ideia do que foi Eurídice Figueiredo, minha mestra e de tantas gerações, mas talvez a que melhor a definiria é coerência. Eurídice foi uma das pessoas mais coerentes que conheci, em tudo, e até o fim de sua vida. Uma fortaleza. Com ela, aprendemos não apenas sobre literatura e os conceitos teóricos mais sofisticados, mas também a jamais abrirmos mão de quem realmente somos, em qualquer lugar, com quem quer que seja, no tempo que for necessário. Não tem como esquecer alguém assim", escreveu ao PublishNews o professor de Literatura Brasileira da UFF, Rodrigo Jorge Neves, que muito aprendeu sob a sua orientação.
Mestre em Língua e Literatura Francesa e doutora em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eurídice também realizou pós-doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A sua produção acadêmica se debruçou atentamente sobre temas como exílio, memória, ditadura, representações da alteridade, escritas de si e literatura de autoria feminina, ajudando a consolidar no Brasil debates sobre pós-colonialismo e narrativas marginalizadas.
Para a escritora e professora Claudia Lage, “Eurídice deixa um legado importantíssimo com seus livros, as suas pesquisas, os anos de ensino e de orientação acadêmica na UFF. Deixa também o calor do seu afeto, conhecimento e generosidade em cada conversa, cada livro lido, cada mesa e mediação que participou. As risadas eram constantes em meio aos debates. Foi uma delícia descobrir que a Eurídice era engraçada. O estudo, a reflexão, o conhecimento estavam sempre acompanhados de alegria e humor. Um ensinamento: profundidade e leveza”, escreveu em sua rede social.
No post, Lage citou a alegria que foi coorganizar os lançamentos do último livro de Eurídice. “Fizemos um mini tour inesquecível, ela, Claudia Lamego e eu, no lançamento do seu livro Mulheres contra a ditadura e logo depois elas participaram do relançamento do meu Mundos de Eufrásia. Brincamos que viajaríamos as três por aí conversando sobre mulheres e a escrita, a política e a escrita das mulheres, escrita como política, conversas infinitas”. Os dois livros são de 2024. O primeiro saiu pela Zouk e o segundo, pela Record.
Em mais de quatro décadas na UFF, Eurídice orientou dezenas de dissertações e teses que abordaram autores como Annie Ernaux, Conceição Evaristo, Milton Hatoum, Tatiana Salem Levy e Socorro Acioli, por exemplo. Também desempenhou papel importante em grupos de pesquisa ligados à Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras Linguística (Anpoll) e em publicações acadêmicas voltadas aos estudos literários contemporâneos.
Outra ex-orientanda sob o impacto da notícia é a jornalista, escritora e pesquisadora supracitada Claudia Lamego, que a conheceu em 2024, na UFF. “Voltávamos juntas de Niterói e descobrimos, nessas viagens pela Ponte até o Rio, que tínhamos muito em comum, além da paixão pela literatura. Ela me convidou para um café. Eu me ofereci pra marcar os lançamentos do então mais recente livro dela. Passei na prova do mestrado e perguntei se ela poderia me orientar. Ela não só aceitou como depois me mandou um e-mail dizendo: ‘se você quiser, pode desenvolver esse texto como dissertação’. Era um ensaio sobre Elena Ferrante. Embora viesse da área de literatura francesa, entendeu que eu só seguiria em frente subvertendo essa regra”, testemunha.

“Eu me sentia pronta para seguir o caminho que ela abriu. Agora me sinto à beira do abismo. Mas é por ela que todo mundo se dará as mãos para honrar a sua vida, a sua trajetória. Obrigada, Eurídice. Nós te amamos demais", emociona-se Lamego, em seu perfil no Instagram.
A jornalista e escritora Mariana Filgueiras, que teve pesquisas de mestrado e doutorado orientadas por Eurídice, lembrou da relação da professora com a leitura. As duas se conheceram em 2017, quando Mariana decidiu voltar à universidade em busca de novos rumos, após deixar as redações de jornal. Este ano, Filgueiras lançou esse ano o livro Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea, que pode ser baixado gratuitamente no site da Editora Pangueia.
“É um privilégio ter uma guru que nos oriente o pensamento, a leitura, que comente nossos textos, nos faça cobranças construtivas, nos organize em comunidades que pensem com autonomia. Eurídice passou por muita coisa na ditadura e nos ensina a não baixar a guarda pros desmandos do mundo. Que luxo contar com suas dicas de leituras em todo fim de ano. Meu Deus, como ela lia. Eurídice comia todos os livros de ficção que passavam na sua frente. Lia tudo: editoras pequenas e grandes, autores independentes, iniciantes. Ela lia velozmente, olhando a cidade de cima, da sua janela de Santa Teresa, de onde adorava postar fotos do horizonte”.
A notícia da morte da professora provocou manifestações de pesar em instituições acadêmicas e grupos de pesquisa. O Instituto de Letras da UFF destacou “a querida professora Eurídice Figueiredo” em nota publicada nas redes sociais. Já pesquisadores ligados à crítica feminista ressaltaram a sua atuação pioneira na consolidação desses estudos no Brasil.
“Sinto que ela deixa muitos grupos de estudo encaminhados e com uma caixa de ferramentas pra ler o mundo. Estamos todos seus alunos muito tristes, mas vai passar. A Eurídice é o nosso riso da Medusa", encerrou Mariana Filgueiras, fazendo referência ao ensaio Le rire de la Méduse, publicado em 1975 pela filósofa e escritora francesa Hélène Cixous, no qual ressignifica a Medusa mitológica. Em vez de um monstro assustador, Medusa seria uma mulher poderosa, viva, rindo, insubmissa aos medos comuns impostos às mulheres.







