'Quirinas' mapeia 165 anos de invisibilidade das domésticas na literatura brasileira
PublishNews, Monica Ramalho, 10/04/2026
Livro da jornalista e escritora Mariana Filgueiras pode ser baixado de graça no site da Editora Pangeia e é resultado de pesquisa premiada pela Capes em 2025

Um país com quase 7 milhões de trabalhadoras domésticas — a maioria formada por mulheres negras, chefes de família e historicamente precarizadas — levou mais de um século para colocá-las no centro de uma narrativa literária. É esse descompasso que o livro Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Editora Pangeia), escrito pela jornalista Mariana Filgueiras, escancara agora, quando muito se fala sobre o racismo e a desigualdade social.

Resultado de uma tese de doutorado defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF) e vencedora do Prêmio Capes de Tese 2025, o estudo mapeia 37 personagens de contos e romances publicados entre 1859 e 2024 — e revela que a primeira protagonista trabalhadora doméstica na ficção brasileira só aparece em 2018.

Com bela capa de Mariana Navas, o livro será lançado na quinta-feira, 16 de abril, às 18h, em encontro online no canal Estudos de Literatura, no YouTube. Mariana vai conversar com a orientadora da pesquisa, a professora Eurídice Figueiredo, e a professora Eliza Araújo.

E se você quiser ler antes, o livro está disponível para download gratuito aqui, no site da Editora Pangeia.

A pesquisa parte de uma pergunta direta: se essas mulheres estão no cotidiano de milhões de brasileiros desde o século XIX, por que permanecem à margem da literatura? Ao percorrer o cânone, Filgueiras encontrou um padrão persistente de apagamento e estereotipia. O livro foi nomeado por causa da personagem Mãe Quirina, do conto "Babá", escrito por Lima Barreto em 1904.

“Este conto é uma das raras exceções na forma como a trabalhadora doméstica aparece na literatura brasileira. O narrador de Lima se interessa pela personagem, conta a história da sua vida, o que a gente não vê quando examina o cânone. No levantamento que fiz, o mais recorrente é que essas personagens apareçam sempre de forma muito estereotipada, sem nome, apanhando, estupradas, sempre associadas à ignorância. São usadas como escada, alívio cômico, pouco falam. É desolador pensar que a maioria dos nossos escritores não teve qualquer interesse na subjetividade dessas mulheres, em desenvolver alguma trama, dar a elas um nome, nada. Personagens com imenso potencial dramático, que testemunham as entranhas da elite, são desprezadas”, observa Mariana no release de divulgação.

“Há críticos literários que defendem que a estereotipia ou a invisibilização das empregadas domésticas sejam recursos estéticos da denúncia social, ouvi muito isso em congressos. Depois desse levantamento, não tem como concordar com isso. É uma prática muito recorrente, um padrão, um sintoma da neurose cultural brasileira, como diria Lélia González”, sentencia a autora.

A virada, segundo a pesquisadora, começa a se desenhar a partir de 2015, quando surgem narrativas em que essas personagens ganham voz mais ativa. Três anos depois, aparecem as primeiras protagonistas.

“Não tenho dúvidas de que este é um efeito simbólico da Lei de Cotas, da Lei das Domésticas, por exemplo, e de outras políticas públicas que resultaram na mobilidade social dessas mulheres. Seus filhos e netos entraram na universidade, começaram a escrever as histórias das mães e avós, tanto que muitos romances são dedicados a elas. É um momento especial e que não tem volta. Desde 2018, já foram lançados mais de 10 romances com domésticas como protagonistas. Em 2024, um deles, o romance Louças de família, de Eliane Marques, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura”, compara Mariana.

Entre os títulos analisados com mais profundidade estão Perifobia (Todavia, 2018), de Lilia Guerra; Com armas sonolentas (Companhia das Letras, 2019), de Carola Saavedra; Suíte Tóquio (Todavia, 2020), de Giovana Madalosso; e Solitária (Companhia das Letras, 2022), de Eliana Alves Cruz — obras que, segundo Mariana Filgueiras, puxam a trabalhadora doméstica para o centro da narrativa e exploram com mais liberdade a sua subjetividade.

“O trabalho doméstico passa a ser um tema da narrativa, uma ação no enredo, criando cenas muito originais, e isso desperta conversas, questionamentos, de forma orgânica, não necessariamente panfletária ou didática”, analisa, no texto que ela mesma escreveu para divulgar a chegada de Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea. E quem gostar do novo livro, pode ler mais um da Marina Filgueiras, nascida em Volta Redonda, em 1981. Ela é autora de O avesso do bordado: uma biografia de Marco Nanini (Companhia das Letras, 2023).

[10/04/2026 10:16:29]