O estado das livrarias no Brasil: executivos discutem novo panorama do mercado
PublishNews, Guilherme Sobota, 20/05/2026
Executivos de Amazon, Mercado Livre e Livraria Leitura debateram concorrência, preço do livro e outros assuntos no Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos

Marcus Teles, da Leitura, é entrevistado no 5º EELDG | © Rodrigo Mequelazzo
Marcus Teles, da Leitura, é entrevistado no 5º EELDG | © Rodrigo Mequelazzo

O estado atual das livrarias foi discutido minuciosamente na semana passada, durante a 5ª edição do Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos, promovido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) no Guarujá (SP). Três encontros intitulados "Frente a frente” reuniram, em diferentes ocasiões, três executivos de algumas das principais redes do Brasil: Ricardo Perez, diretor do negócio de livros da Amazon Brasil, Marcus Teles, presidente da Livraria Leitura, e Arthur Bonamini, head de 1P (Toys, Baby and Books) do Mercado Livre. Eles foram entrevistados pelos jornalistas Walter Porto, da Folha de S. Paulo, Ruan de Sousa Gabriel, de O Globo, e Guilherme Sobota, do PublishNews.

Entre os principais assuntos tratados, alguns destaques foram o novo panorama de concorrência entre lojas virtuais e o modelo das livrarias físicas. Com a chegada do Mercado Livre ao mercado 1P (ou seja, livraria que compra diretamente das editoras e distribuidoras), há uma expectativa de que o domínio da Amazon na categoria seja pelo menos contestado — essa nova dinâmica poderia interferir inclusive na concorrência entre o varejo físico e digital. De acordo com a recente pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil, 55% dos consumidores preferem comprar no virtual (atraídos pelo bom preço e pela facilidade de encontrar seus títulos preferidos); e 39% escolhem as livrarias físicas, atraídos pela possibilidade ver os livros antes de adquiri-los e pela praticidade de levar o volume debaixo do braço já no momento da compra.

Os executivos não puderam compartilhar números oficiais — o que tornaria as conversas ainda mais interessantes —, e algumas das respostas levantaram comentários controversos entre o público especializado do evento ("se não podia falar nada, por que topou?"). Mesmo assim, os encontros foram raras oportunidades de ouvir lideranças que não costumam falar nos eventos literários e editoriais com tanta frequência.

A exceção talvez seja justamente Marcus Teles, à frente da maior rede de livrarias físicas do Brasil que, segundo reportagem recente da revista Exame, faturou R$ 1 bilhão em 2025.

Baseado em cálculos próprios, a partir do cruzamento com os dados das pesquisas de mercado, Teles estima que a Leitura tenha hoje de 15% a 20% de share no mercado trade, e o marketplace (3P) do Mercado Livre (que inclui as vendas da Livraria Leitura por ali) vem chegando perto desse número. A Amazon, nas contas do executivo, deteria cerca de 35% do share de livros físicos no Brasil. “Claro, são dados aproximados, pode ser algo a mais ou a menos”, ressaltou.

Teles informou também que o faturamento dos livros na Leitura é atualmente cerca de 62% a 63% do total. O restante é complementado por papelaria, materiais escolares e fenômenos sazonais de grande apelo de público (como livros de colorir e álbuns de figurinhas da Copa do Mundo), que funcionam como ferramentas de atração de fluxo de clientes para as lojas.

Sobre a concorrência entre canais de vendas digitais e físicos, ele considera que a Leitura encontrou um caminho viável de integração. “Cada uma de nossas lojas físicas possui um acervo médio que varia de 18 mil a 40 mil títulos nas lojas de médio porte, podendo chegar a 80 mil ou 100 mil títulos nas megastores. No estoque pulverizado da rede, temos milhares de livros que já estão esgotados nas editoras e que nenhum outro player tem disponível. Monitoramos mais de 100 mil títulos que sumiram do mercado geral. Com essa força de catálogo descentralizado, vendemos diariamente dentro de grandes marketplaces, incluindo a própria Amazon, o Mercado Livre e a Shopee. Nós não somos o player que oferece o maior desconto, e mesmo assim vendemos muito bem. Atualmente, mais de 20% de todas as vendas da nossa rede ocorrem no canal online. Nossos descontos na internet existem, mas são comedidos, variando entre 5%, 10% e, no máximo, 20%. Afinal, em qual outro setor econômico um comerciante pega um produto recém-lançado — como um modelo novo de celular — e o vende mais barato do que os modelos antigos? Isso não faz sentido comercial. Nós somos competitivos, mas nos recusamos a vender com margem negativa.”

Preço do livro

A política de preços também foi debatida nas outras duas mesas. Bonamini, do Mercado Livre, pontuou que os preços na plataforma são ditados pelos movimentos orgânicos de oferta e demanda do mercado, e afirmou que o posicionamento institucional da empresa prevê não operar categorias que não sejam rentáveis no longo prazo, para toda a cadeia, demonstrando, nas palavras dele, preocupação em não sufocar as margens de editoras e gráficas.

Arthur Bonamini, do Mercado Livre, falou pela primeira vez em um evento de mercado | © Rodrigo Mequelazzo
Arthur Bonamini, do Mercado Livre, falou pela primeira vez em um evento de mercado | © Rodrigo Mequelazzo

O Mercado Livre passou por uma reestruturação profunda nos últimos 12 meses, um "relançamento" da categoria de livros. “Identificamos que o mercado editorial sofria com uma escassez de canais de escoamento robustos, e entendemos que o Mercado Livre poderia cumprir um papel de extrema relevância, conectando a indústria aos consumidores com a nossa infraestrutura. Esse projeto de expansão não se limita ao modelo de venda direta da plataforma. Nós trouxemos a operação própria (1P) para nos aproximarmos institucionalmente da indústria do livro, entender suas tendências e participar de encontros como este. Contudo, o DNA da nossa plataforma é essencialmente o 3P (marketplace com vendedores terceiros). Unindo a capilaridade dos parceiros à nossa logística de entrega rápida via modalidade Full (Fulfillment), conseguimos entregar uma experiência de compra superior.”

O executivo comentou que quer consolidar uma "livraria" dentro do Mercado Livre, e não apenas uma seção de livros. “Há uma diferença crucial de conceito: a categoria tradicional de e-commerce muitas vezes se assemelha a um corredor de supermercado onde os produtos são apenas empilhados; uma livraria real exige profundidade de catálogo, curadoria especializada, organização intuitiva e cuidado com o produto. É exatamente esse ambiente de livraria que estamos construindo”, garantiu.

Um dos pontos abordados na conversa com a Amazon foi a centralidade do negócio de livros para a empresa atualmente no Brasil. Perez disse que o livro continua sendo o "coração e o DNA" da Amazon, tanto no Brasil quanto globalmente. A empresa possui uma vertical global exclusiva para livros e conta com uma equipe dedicada de mais de 70 pessoas no Brasil, inserida em uma operação nacional de 36 mil funcionários.

“Não posso abrir o percentual exato [do share da categoria Livros dentro da Amazon Brasil], mas posso afirmar com total segurança: a representatividade da categoria dentro do faturamento da Amazon no Brasil é significativamente maior do que a representatividade do mercado de livros perante o produto interno bruto ou o consumo geral do comércio brasileiro. O nosso fair share nessa categoria é altamente relevante. Se compararmos o tamanho do mercado editorial com tudo o que a população brasileira consome e fizermos essa mesma proporção dentro do portfólio da Amazon, o livro possui uma relevância estatística muito expressiva para nós.”

Ele também respondeu a uma pergunta sobre concorrência sugerindo desvincular o fechamento de livrarias físicas e de rua na última década à chegada da Amazon, atribuindo o fenômeno a crises internas do setor editorial e macroeconômicas. Como contrapartida e estratégia de integração, ele defendeu o crescimento do marketplace da empresa, atraindo livrarias físicas (grandes e pequenas) e sebos para utilizarem sua infraestrutura logística, por meio de programas internos.

Ricardo Perez, da Amazon, explicou algumas das posições da empresa | © Rodrigo Mequelazzo
Ricardo Perez, da Amazon, explicou algumas das posições da empresa | © Rodrigo Mequelazzo

“A estrutura global exclusiva para livros precisa funcionar de maneira independente do restante da companhia”, disse o executivo. “A nossa vertical é cobrada para gerar lucro. Trata-se de um negócio gerido de forma independente de qualquer outra categoria que a empresa opere. A questão do preço é um tema recorrente. Entendemos que o preço é uma alavanca importante para atrair consumidores, mas o negócio vai muito além disso. Todo o investimento que fazemos na operação de livros — que precisa ser rentável e sustentável por si só — envolve construir uma cadeia de serviços completa. Isso engloba garantir ao consumidor a segurança de seus dados cadastrais e bancários, oferecer um processo eficiente de devolução caso haja algum problema com a compra, e assegurar que ele encontre o título desejado no formato de sua preferência.”

Dados recentes Panorama do Consumo de Livros no Brasil:

Canal de compras preferido entre consumidores de livros:

  • Online: 55%
  • Físico: 39%
  • Não sei dizer: 6%.

Principais motivos para quem compra no online:

  • Acho melhores preços / promoções: 45,7%
  • É prático: 35,6%
  • É fácil encontrar os livros que quero: 30,2%
  • Não preciso sair de casa: 26,7%
  • Encontro maior variedade: 25,0%.

O nordeste é a região que concentra o maior percentual da população que prefere comprar on-line (61%).

A Classe A concentra o maior percentual da população que prefere comprar on-line (63%, contra 50% das classes C/D/E).

Principais motivos para quem compra nas lojas físicas:

  • Gosto de ver/abrir o livro na loja antes de efetuar a compra: 52,2%
  • Gosto de já sair da loja com o livro em mãos, sem aguardar a entrega: 44,3%
  • Encontro maior variedade: 24,2%
  • É prático: 23,5%
  • Não preciso pagar frete: 22,1%.

A preferência por loja física tem uma forte relação faixa etária (32% entre 18-24 anos, e vai subindo até 69% entre os 65+).

Clique aqui para saber mais sobre a pesquisa.

[20/05/2026 10:17:29]