
Em abril, já começaram a incidir PIS/Cofins também sobre livros: a maneira de incidência varia muito de empresa a empresa, e envolve fatores como regime tributário em que cada uma está inserida, valores de faturamento e outras características. As entidades do livro entraram na Justiça com mandados de segurança para tentar impedir a cobrança — mas os processos judiciais, apresentados em São Paulo e no Rio de Janeiro, ainda não tiveram decisões. A recomendação, por ora, é que as empresas conversem com seus advogados e contadores para verificar como agir neste momento. Em janeiro, quando a Reforma Tributária entrar em vigor, o livro volta a ter imunidade tributária.
Uma das estimativas é que a alíquota sobre o setor gere uma arrecadação de R$ 270 milhões. Neste momento, as taxas devem incidir mais sobre grandes empresas, que trabalham nos regime de lucro presumido e lucro real. Estão nesse grupo empresas com faturamento superior a R$ 4,8 milhões anuais. As informações foram discutidas na mesa de abertura do 5º Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos (EELDG), realizado pela CBL e que começou nesta quarta-feira (13), no Guarujá (SP). O evento vai até a sexta-feira (15) e reúne cerca de 400 profissionais e lideranças do setor, em mesas de debate, apresentações e espaços de networking.
Além de um impacto financeiro, editoras e outras empresas do setor precisarão se adaptar com os seus sistemas internos e financeiros — muitos deles sequer têm campos para inserir alíquotas de PIS/Cofins.
Para o presidente da Abrelivros — associação que representa as editoras de livros didáticos —, Ângelo Xavier, o impacto será significativo, mas o principal problema foi a falta de previsibilidade da medida: aprovada no final de dezembro de 2025, a Lei Complementar passou a valer em abril, com os impostos recolhidos agora em maio. “Nenhuma editora fez planejamento do ano pensando que teria incidência nessa contribuição, que era de alíquota zero”, disse, referindo-se ao período de agosto e setembro de 2025, quando as grandes empresas planejam seus próximos meses. “Dentro do PNLD há um impacto direto. O Governo também vai ter que encontrar mecanismos compensatórios dentro desse modelo. Há uma promessa de MEC/FNDE de que eles vão compensar o imposto no preço. O problema é que não vem discriminado, não tem como encontrar essa compensação. O momento marca também uma quebra do ciclo de isenção de impostos sobre o livro”, analisou. Desde 2004, era consolidada a alíquota zero de PIS/Cofins para o setor.

Xavier destacou a participação das demais entidades do livro nas discussões com o Governo sobre o PNLD. “Isso melhora bastante nossa relação com o Ministério, fortalecendo também toda a cadeia do livro”, disse. Para a presidente da CBL, Sevani Matos, a contínua união das organizações é importante também para mostrar força no setor. “Já trabalhamos com margem espremida, sabemos que uma alíquota qualquer pode prejudicar ainda mais”, comentou. O trabalho das entidades, garantiu, é também acompanhar a discussão e seguir pressionando autoridades em Brasília.
Quem também participou do debate foi o diretor da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Marcus Teles, proprietário da rede de livrarias Leitura. “Quando governo fez a Lei, não pensou separadamente em cada área. O trabalho do setor do livro conseguiu isenção há muitas décadas, mas até agora era diferente de imunidade, porque isenção o governo pode tirar. Agora, a isenção foi reduzida”, explicou. Para ele, a chance é grande de o setor não conseguir reverter essa previsão na Justiça.
“De toda forma, isso vai contra a ideia dos legisladores e do Governo de não cobrar impostos no setor do livro”, comentou. Para ele, o melhor caminho é cada empresa estudar melhor como seguir, “Quem preferir não recolher, deve entrar com ação e talvez fazer depósito em juízo, para garantir se precisar mesmo pagar; se as ações na Justiça forem bem sucedidas, será possível recuperar esses recursos mais para frente.” Ele explicou que a Leitura vai pagar os impostos devidos, e se as ações do setor avançarem, os recursos podem ser recuperados no futuro.
Também estiveram na mesa João Scortecci, presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica SP (Abigraf SP); Lizandra Magon, presidente da Liga Brasileira de Editoras (Libre); Patrícia Amorim, presidente da Associação Brasileira Difusão Livro (ABDL); Cristiane de Mütus, diretora do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL); e Fernanda Garcia, diretora executiva da CBL.
Tendências que já estão moldando o futuro do livro
No horário seguinte, Rejane Dias (fundadora e gestora do Grupo Autêntica) e Daniel Lameira (fundador da Seiva) conversaram com a jornalista Talita Facchini sobre tendências do mercado do livro em 2025. Entre outras, o tom da mesa foi ditado pela necessidade de o setor — e as editoras em especial — se conectar diretamente com os leitores. Num mercado acostumado com a relação linear editoras-livrarias-imprensa-leitor, o ambiente hiperconectado e digital oferece múltiplas possibilidades — que algumas casas já estão aproveitando.
Citando uma troca de ideias com o colega Frederico Indiani, diretor comercial do Grupo (cuja ausência foi notada e comentada nos corredores e no happy hour do evento), Rejane afirmou que o livro deixou de ser apenas um produto cultural, mas passou a ser também um objeto de identidade e uma experiência compartilhável. Essa lógica, segundo a executiva, precisa entrar nas editoras na própria relação de catálogos, comunicação, comercial, marketing e canais de venda. “Não temos [no setor] clareza de como está a comunicação com o nosso publico”, constatou.

Para Daniel Lameira, hoje em dia, para se ter uma marca coerente, é preciso tomar decisões e, às vezes, até abrir mão de oportunidades. “Essa nova lógica afeta a aquisição de livros. Antes, o marketing tinha que vender o que vinha do editorial e da produção. Hoje esse percurso pode ser inverso. Um exemplo do qual gostei muito recentemente foi da editora Ubu. Eles preparam uma edição de O capital, de Marx, e disponibilizaram o PDF gratuito do Livro 1, já que era sabido que haveria pirataria e compartilhamento em massa. Isso permitiu a captação de leads, que é algo no qual o setor editorial está muito atrasado”, comentou.
Rejane disse que o ritmo de produção do selo Autêntica, voltado para livros universitários de ciências humanas e sociais, diminuiu muito justamente por conta da pirataria. “Os livros que as pessoas precisam ler, elas encontram em PDF pirata, compram cursos sobre o conteúdo, ou usam IA para resumir. O desafio agora é como encontrar as pessoas que são os alvos dos nossos livros, bem como publicar os livros que elas querem ter”, disse. A criação de comunidades, concluíram os dois editores, por meio de produção de conteúdo e novas formas de relacionamento direto com o leitor, são alguns dos caminhos possíveis, olhando em frente.
Veja a programação dos próximos dias do 5º EELDG:
14 de maio
Sala Imperial
9h30 - “Do achismo ao algoritmo: como dados estão definindo decisões editoriais”, com a participação de Julia Barreto, editora dos selos Harlequin e Pitaya na HarperCollins Brasil; e Nana Vaz de Castro, diretora de aquisições da Sextante; e mediação de Leonardo Neto, jornalista e coordenador da programação do 5º EELDG.
Sala Skeelo
9h30 - “Oficina IA para departamentos de marketing”, com Hanna Oliveira, especialista digital na editora Sextante; e Natália Alexandre, gerente de marketing das editoras Arqueiro e Sextante.
Sala Imperial
11h - “Frente a frente com Mercado Livre”, com Arthur Bonamini, líder da categoria Livros no Mercado Livre. A mesa terá como entrevistadores Guilherme Sobota, editor-chefe do PublishNews; Ruan Gabriel, repórter do jornal O Globo; e Walter Porto, editor de Livros da Folha de S.Paulo.
12h - “Best-seller não acontece sozinho: O papel do autor na construção do sucesso de um livro”, com Michel Alcoforado, autor do livro “Coisa de Rico”; e mediação de Lulie Macedo, diretora de Marketing da Editora Todavia.
14h30 - “Apresentação do "Manual de Uso Ético e Responsável de Inteligência Artificial”, com Cinthya Müller, coordenadora da Comissão de Inovação e Tecnologia da CBL, e gerente comercial das editoras, Todavia e Baião; e José Fernando Tavares, CEO e fundador da Booknando.
14h50 - “IA no mercado editorial, um exercício de futurologia para o agora”, com Thad McIlory, colaborador da Publishers Weekly e fundador do site The Future of Publishing
17h30 – “Frente a frente com Amazon”, com Ricardo Perez, líder de negócios de livros na Amazon Brasil. A mesa terá Guilherme Sobota, editor-chefe do PublishNews; Ruan Gabriel, repórter do jornal O Globo; e Walter Porto, editor de Livros da Folha de S.Paulo como entrevistadores.
18h30 – “Do feed ao carrinho: Como o TikTok está encurtando o caminho até a compra”, com Lais Villaboy, E-commerce manager no TikTok e Victor Jun Kaneko Vitorelli, digital commerce manager no Tiktok shop.
Sala Skeelo
18h30 - “Oficina de IA para departamentos editoriais”, com Verônica Marques Pirani, responsável pela Produção Editorial da Editora Senac São Paulo.
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15 de maio
Sala Imperial
9h30 – “Mercado no Espelho: Brasil diante do mundo, do México e de si mesmo”, com Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas econômicas e setoriais da Nielsen BookData; e Jacira Silva, coordenadora na NielsenIQ BookData.
Sala Skeelo
9h30 - "Ler junto, vender mais: O papel dos clubes na construção de público e mercado", Luciana Gerbovic, autora, mediadora de clubes de leitura e sócia da Escrevedeira; Rodrigo Vilela, sócio e gerente da Drummond Livraria. Com mediação de Gerson Ramos, diretor comercial da Editora Planeta do Brasil.
11h – “Ler escutando: Tendências, oportunidades e desafios do audiolivro no Brasil”, com Camila Leme, diretora de conteúdo no Skeelo; Adriana Alcântara, Diretora - geral da Audible no Brasil e Tarcísio Filho, ator, diretor e sócio da Mythago. A mediação será de Jonatas Eliakim, Head de Customer Experience na Bookwire Brasil.
Sala Imperial
11h – “Livraria: Lugar de curadoria e pertencimento”, com a participação on-line de Shannon DeVito, diretora sênior de livros da Barnes & Noble; e mediação de Samuel Seibel, proprietário da Livraria da Vila.
12h – “Frente a frente com Livraria Leitura”, com Marcus Teles, CEO da Livraria Leitura. As perguntas serão feitas pelos jornalistas Guilherme Sobota, editor-chefe do PublishNews; Ruan Gabriel, repórter do jornal O Globo; e Walter Porto, editor de Livros da Folha de S.Paulo.
13h - Almoço de encerramento.
* A programação pode sofrer alterações.







