
A Book City, maior rede de livrarias do Irã, teve ao menos seis de suas unidades em Teerã danificadas ou destruídas após ataques militares conjuntos dos Estados Unidos e de Israel nas últimas semanas. A informação foi confirmada por seu CEO, Ali Jafarabadi, em entrevista via WhatsApp ao Publishing Perspectives.
Fundada há cerca de 30 anos como uma organização sem fins lucrativos e de caráter apolítico, a Book City nasceu a partir de uma iniciativa da prefeitura de Teerã para facilitar o acesso ao livro e criar espaços de convivência cultural. Desde então, consolidou uma rede de quase 100 livrarias espalhadas por cidades como Isfahan, Mashad, Tabriz e Kermanshah — muitas delas combinando livraria, café e eventos literários.
De acordo com Ali Jafarabadi, que assumiu como terceiro CEO da organização em 2025, os ataques recentes atingiram tanto estruturas físicas quanto acervos e equipamentos. Uma das unidades foi completamente destruída, enquanto outras duas exigirão reconstrução extensa. As demais já foram reparadas e retomaram as suas atividades.
Apesar dos danos, o fluxo de leitores aumentou. “As pessoas vêm e compram livros, em alguns dias mais do que o habitual, por causa da atmosfera das nossas lojas e da sensação de leitura, especialmente acompanhada de uma xícara de café”, afirmou à editora Olivia Snaije. Para Ali, a busca por livrarias como espaços de acolhimento ganhou um novo significado durante a guerra.
O executivo relatou ainda ter compartilhado experiências com o livreiro ucraniano Oleksii Erinchak, que abriu a livraria Sens pouco antes da invasão russa e, diante da demanda do público, expandiu o negócio mesmo em meio ao conflito. “Ele estava sofrendo com a guerra, mas feliz por poder curar as feridas das pessoas em sua livraria”, disse Ali Jafarabadi.
No caso iraniano, a situação traz um contraste: “Nunca tínhamos visto pessoas frequentarem livrarias dessa forma durante uma guerra para se sentirem melhor”, observou.
Além da rede de lojas, a Book City mantém atuação editorial e musical por meio da Hermes Publications e da Hermes Records, e promove, há duas décadas, encontros e debates sobre literatura, patrimônio cultural e diálogo intercultural — muitas vezes em parceria com a Unesco.
Ali Jafarabadi informou ter comunicado formalmente os danos à representação da entidade no Irã, ressaltando que espaços culturais e civis deveriam ser protegidos pelo direito internacional. “Estamos realizando atividades diárias, mas às vezes é muito difícil quando você não tem noção dos próximos segundos e pode ser surpreendido por uma bomba”, disse.
Em meio ao cenário de destruição, ele recorre a uma imagem que condensa o momento vivido pela rede: os ataques ocorrem “justamente quando as árvores estão brotando e florescendo, e você deveria estar apreciando o canto dos rouxinóis”. No entanto, a missão permanece: “Nós nos esforçamos para sermos resilientes contra o inverno da humanidade”.






