Três Perguntas do PN para Cidinha da Silva
PublishNews, Monica Ramalho, 13/02/2026
"Tive a percepção da existência de um método Sueli Carneiro ao ler a biografia do Tim Maia, do Nelson Motta. A cada página lida, eu pensava em Sueli e em todas as singularidades dela", recorda

Há mestres que ensinam por livros e outros, pelo jeito de viver a própria existência. No recente Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior – 81 Lições do Método Sue (Rosa dos Tempos, 2025), Cidinha da Silva transforma décadas de convivência com Sueli Carneiro em reflexão organizada, propondo uma leitura encarnada de um pensamento que moldou gerações.

A ideia de que existiria um “método Sueli Carneiro” nasce como percepção prática: uma forma singular de pensar, agir, enfrentar e formar. Ao reunir 81 lições estruturadas em três movimentos, Cidinha constrói um percurso que tensiona o lugar da tradição intelectual negra no Brasil e a maneira como ela é lida, enquadrada ou, muitas vezes, reduzida no debate público. E mais: com a responsabilidade de escrever um livro à altura da mestra, aos 75 anos, ainda em plena atuação pública.

"Sueli sempre me disse que eu era disciplinada e é verdade, meus caminhos tendem a ser mais retos, embora eu dance, ou procure dançar com o tempo", reflete a escritora para, logo adiante, confirmar: "Minhas estratégias de vida passam sempre por saber de onde eu vim, quem sou e onde quero chegar; por saber quem é a minha gente, com quem eu conto de verdade e, acima de tudo, por não alimentar ilusões". Sábia Cidinha.

Nesta entrevista ao PublishNews, a autora fala sobre o momento em que decidiu transformar a convivência em legado compartilhável, comenta sobre os próprios medos nessa escrita e reflete sobre epistemologias negras e a disputa por novos imaginários. Leia na íntegra:

PUBLISHNEWSSó bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior – 81 Lições do Método Sue (Rosa dos Tempos) nasce como uma leitura encarnada, política e literária do que você chama de ‘método Sueli Carneiro’. Em que momento você percebeu que essa convivência, antes vivida, precisava ganhar livro e legado compartilhável? O que foi mais difícil no processo de selecionar e organizar as 81 lições em três movimentos?

CIDINHA DA SILVA — Tive a percepção da existência de um método Sueli Carneiro ao ler a biografia do Tim Maia, em algum momento de 2011 ou 2012. Nelson Motta, o biógrafo, caracterizava como método Tim Maia, a maneira muito peculiar do Tim pensar o mundo e relacionar-se com ele, de resolver questões. A cada página lida, eu pensava em Sueli e em todas as singularidades dela. Num livro que publiquei em 2014, o Baú de miudezas, sol e chuva, pela primeira vez mencionei o método. Isso ficava orbitando minha cabeça, mas ainda não pensava em escrever um livro, propriamente. Em 2018 fui convidada a participar de um projeto literário e falei sobre a ideia do método. A coordenadora gostou e me incentivou a escrever. Num exercício imediato, então, escrevi 25 lições sem tirar a caneta do papel e naquele momento compreendi que havia um livro ali. Desde então passei a fazer anotações com vistas ao livro e avisei a Sueli que estava escrevendo sobre ela. Sueli passou a me cobrar o livro pronto e eu nunca me dedicava a ele, sempre colocava outros projetos na frente. Talvez por medo de não conseguir produzir um livro que estivesse à altura de Sueli Carneiro, no qual ela pudesse se reconhecer, e lógico, que pudesse gostar também.

Até que vi o estrondo causado pela entrevista de Sueli no Mano a Mano — podcast do músico Mano Brown. Assisti curiosa para ver o que havia causado tanto assombro às pessoas. E não havia nada de novo: Tivemos ali uma versão paz e amor de Sueli Carneiro. Aquilo me sacudiu, para mim era inaceitável que tanta gente só tivesse se dado conta de quem era Sueli Carneiro depois do programa, passando a chamá-la de “a mulher que enquadrou o Mano Brown”. Algo parecido com a Renata Sorrah que fez tanta coisa fundamental na arte brasileira, mas ficou imortalizada por uma vilã de novela, na qual as pessoas insistem em querer aprisioná-la. Eu disse a mim mesma que não podia mais adiar a feitura do livro e o escrevi em 39 dias do início de 2024.

Quanto à segunda parte da pergunta, não tive dificuldades para selecionar e organizar as 81 lições que foram anotadas em um caderno específico desde 2018. As lições que ficaram de fora foi porque ainda não estavam bem trabalhadas até o momento que precisei enviar o original para a editora, é provável que componham futuras edições. A decisão de organizá-las em três movimentos foi uma tentativa de construir um caminho narrativo que fomentasse a produção de sentidos para leitoras e leitores, ao tempo que me ajudavam a compreender o que havia sido dito diretamente pela mestra, o que tinha sido exemplar naquela convivência e a ação poderosa do tempo no meu próprio amadurecimento. A grande dificuldade que me paralisou algumas vezes antes de realizar o projeto, talvez tenha sido o medo de não ser capaz de realizar algo consistente e digno de nota.

PN — Olhando pra sua carreira, há um fio claro que conecta a jovem Cidinha que chega a São Paulo, passa pelo Geledés e constrói uma obra literária sólida à autora que hoje publica esse livro? Ou você prefere pensar sua trajetória como feita de desvios e encruzilhadas? Que estratégias de permanência, confronto ou reinvenção foram decisivas para que você seguisse com a caneta na mão, Cidinha?

CS — Sim, esse fio existe. Sueli sempre me disse que eu era disciplinada e é verdade, meus caminhos tendem a ser mais retos, embora eu dance, ou procure dançar com o tempo. São retos no sentido de terem foco e seta, não tem muitos desvios, mas tem encruzilhadas que são lidas por mim como momentos preciosos de tomada de decisão. Minhas estratégias de vida passam sempre por saber de onde eu vim, quem sou e onde quero chegar; por saber quem é a minha gente, com quem eu conto de verdade e, acima de tudo, por não alimentar ilusões. Esta, a lição mais importante que Sueli Carneiro me ensinou.

PN — Você escreve a partir de uma tradição negra que articula pensamento, oralidade, memória e corpo. O que ainda falta ao campo literário brasileiro para reconhecer plenamente essas epistemologias como centrais, e não marginais? Que papel a literatura cumpre hoje num país em que o debate público parece cada vez mais empobrecido?

CS — Falta construir ferramentas analíticas que não sejam engessadas e coloniais, para usar um conceito do momento. Falta reconhecer a alteridade de autoras e autores não-hegemônicos, quase sempre organizados em blocos monolíticos de autorias (negra, indígena, LGBT) porque é mais fácil ler por chavões interpretativos do que reconhecer e respaldar vozes singulares que, sim, podem e devem ser criticadas, mas exigem um ferramental analítico que não seja preguiçoso, e/ou presunçoso, e/ou preconceituoso e discriminatório, e/ou, na melhor das hipóteses, desinformado. É preciso superar a preguiça de nos ler do mesmo modo, como se fôssemos uma coisa única.

Quanto ao papel da literatura num país em que o debate público está cada vez mais empobrecido, me parece que seja o papel de cada vez mais disputar espaço na construção de novos imaginários, para usar uma expressão de Geni Nuñez, às vezes atribuída a Ailton Krenak, no reflorestamento de imaginários. Esses novos imaginários podem, inclusive, contribuir para enriquecer o debate público à medida que propõem novos fundamentos epistemológicos, novas percepções, prospecções e desenhos de futuro.


Cidinha da Silva (MG) tem 24 livros publicados, dentre eles, os premiados, Um Exu em Nova York (Biblioteca Nacional, 2019), O mar de Manu (APCA 2022, melhor livro infantil). Em 2025, o seu livro Vamos falar de relações raciais? Crônicas para debater o antirracismo foi semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico e finalista do Jabuti. A voz de Cidinha é fundamental na cena literária contemporânea.

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