Três perguntas do PN para Lis Vilas Boas
PublishNews, Beatriz Sardinha, 23/01/2026
Escritora foi uma das vencedoras do Prêmio Argos de 2025 com o romance 'Garras', publicado pela Rocco

Destinado a homenagear a produção de literatura fantástica original em português, o Prêmio Argos premia obras em três categorias: Melhor Antologia/Coletânea, Melhor Conto e Melhor Romance. Nesta última categoria, a carioca Lis Vilas Boas e o seu livro Garras, lançado em 2024 pela editora Rocco, foi a vencedora. No ano passado, Lis trouxe para o mercado o romance Feras, que continua a história iniciada em 2024. Atualmente, Lis ainda não pode se dedicar profissionalmente somente à escrita, e divide seu tempo entre a literatura e a oceanografica. Ela atua como pesquisadora e investiga ambientes acústicos marinhos e a comunicação de golfinhos e baleias. Recentemente se tornou mãe, adicionando uma terceira jornada em seu dia.

"Escrevo o máximo que consigo, mas em momentos roubados do cotidiano", diz, ao PublishNews. Afirma que isso muitas vezes significa se sentar ao computador para escrever de noite ou de manhã bem cedo, e outras vezes escrever no bloco de notas do celular enquanto sua filha dorme em seu colo. Ela complementa que já escreveu cenas grandes dos meus livros também no celular em trajetos de metrô, em cadernos tomando café na rua, em e-mails para si mesma. "Não recomendo fazer isso, mas a escrita brota no meu dia-a-dia como flores teimosas nas rachaduras do asfalto", brinca.

PublishNews — Lis, de que lugar vem uma vontade sua de escrever sobre o Rio de Janeiro nos anos 1920? É uma espécie de mistura entre estética dessa época, com o conteúdo da obra?

Lis Vilas Boas — O Rio de Janeiro exerce um fascínio sobre mim desde que vim morar aqui e fui aos poucos conhecendo mais dessa cidade cheia de contradições. A mistura de novo e velho na arquitetura, os problemas urbanos e sociais que vivemos hoje por decisões tomadas lá atrás, a natureza ainda muito presente na vida urbana… Essa mistura vem há anos fermentando na minha cabeça, junto de algumas referências fictícias que tenho de novelas e séries de TV que retratam os anos 1920. Histórias de fantasia tipicamente retratam um cenário medievalesco ou o completo oposto: o nosso urbano contemporâneo. E eu queria muito trabalhar com um período de tempo que fosse próximo o suficiente de nós para ser palpável em seus elementos, como carros e telefones fixos, mas ao mesmo tempo distante o bastante para que parecesse outro mundo, para que tivesse o verniz da magia do que nos é pouco familiar. E também queria um lugar que ecoasse para o leitor como algo que ele viveu ou poderia viver. O Rio de Janeiro dos anos 1920 atende a todas essas características com o bônus de ser um lugar lindo e perigoso, perfeito para ser cenário fantástico.

PN — Desde quando você se interessa por literatura de fantasia? Como você enxerga a tendência da romantasia, acredita que seja uma certa renovação do gênero? Existe alguma autora ou autor que te inspire?

Lis Vilas Boas — A literatura fantástica é a minha preferida desde minha formação enquanto leitora na infância e adolescência. De Bruxa Onilda a Tolkien, as histórias de fantasia sempre me acompanharam. Hoje, já adulta, é com grande satisfação que acompanho a romantasia se fixando enquanto um subgênero tanto da fantasia quanto do romance. Não diria que seja uma renovação do gênero porque histórias fantásticas com forte enredo romântico sempre existiram, só não era tão fácil encontrá-las. Acho que essa tendência nos mostra muito mais a força do público leitor feminino, que é a maior fatia dos leitores de ficção. Embora a romantasia não seja um espaço exclusivamente feminino (e nem deveria ser!), se tornou um espaço literário seguro para que leitoras possam explorar a fantasia através de temas que dialogam diretamente com elas sem cair nos clichês misóginos que são tão comuns na fantasia clássica, como, por exemplo, a mocinha que existe apenas como motivação e prêmio para o herói. Hoje em dia minhas grandes inspirações estão em autoras como a brasileira Fernanda Castro, que chegou a final do prêmio Jabuti com uma romantasia, e autoras estrangeiras como Maggie Stiefvater e Naomi Novik.

PN — De que forma você enxerga as possibilidades da fantasia na expressão de sentimentos e personagens "mais reais"?

Lis Vilas Boas — Apesar de ser normalmente tratada como um espaço de escapismo, algo que é muito válido e tão importante quanto qualquer outro objetivo da leitura, a fantasia é também um caminho muito bom de tratar de assuntos difíceis e perigosos de forma segura. As histórias fantásticas permitem aos leitores não apenas viver suas fantasias, como também enfrentar medos e exorcizar traumas, tudo dentro da segurança das páginas. Não é à toa que muitas das primeiras lições vem para as crianças por meio dos contos de fadas, que sempre nos perguntam qual é a moral da história. Também não à toa as atuais romantasias e fantasias para adultos refletem questões do nosso tempo, desde emancipação feminina até os problemas causados pelo imperialismo de nações ricas. Desde sempre usamos os monstros e reinos distantes para representar nosso melhor e nosso pior, tanto a nível de sociedade quanto a nível individual. Por isso também o sucesso de muitas histórias fantásticas está justamente nos sentimentos que elas evocam, e não necessariamente na presença dos elementos fantásticos. As pessoas querem se sentir mais corajosas junto de personagens que encontram forças para se libertar de opressões, querem a catarse da mocinha que aprende ser digna do melhor amor possível e não se contenta com migalhas, querem sentir a complexidade do mocinho que deseja justiça a qualquer custo mesmo que isso o empurre por um caminho sombrio… As fantasias permitem que as pessoas sejam o mais verdadeiras possíveis dentro da privacidade da leitura.

[23/01/2026 10:02:12]