
Após temporada no Rio de Janeiro, o trabalho chega à capital paulista tendo como eixo a obra de Marina Colasanti, referência central na construção dramatúrgica. Com classificação indicativa a partir dos 14 anos, o espetáculo parte ainda de textos de Giorgio Manganelli e Nelson Coelho, configurando um universo poético atravessado pelo realismo fantástico.
“Marina Colasanti é uma presença fundadora na minha formação como leitora e artista. Foi meu pai quem me apresentou sua obra ainda na infância, e desde então seus livros me acompanharam como uma espécie de bússola íntima, sempre na mesa de cabeceira. A precisão poética, o realismo fantástico e a forma como Marina escreve o feminino — entre delicadeza e crueldade, silêncio e ruptura — atravessam profundamente a dramaturgia de Como todos os atos humanos, não como citação, mas como herança viva”, diz Fani ao PublishNews.
Na encenação, um gesto extremo — um parricídio metafórico, simbolizado por “furar o olho do pai” — emerge como ato de ruptura e insubmissão. A narrativa estabelece um diálogo invertido com o mito de Electra e expõe, por meio de imagens arquetípicas, mecanismos de vigilância, dominação e silenciamento impostos ao corpo e ao destino das mulheres.
O espetáculo integra o trabalho continuado da Companhia do Sopro, desenvolvido a partir do Laboratório Dramático do Ator, método pesquisado há mais de três décadas por Antonio Januzelli. A montagem dialoga ainda com referências visuais de artistas como Francis Bacon e Edvard Munch, explorando a deformação e a potência expressiva da figura humana.
Densidade simbólica contra o patriarcado
A crítica especializada ressalta a força da atuação solo e a densidade simbólica da encenação. Para Furio Lonza, do Teatro Hoje, trata-se de “uma obra em que a atriz conduz o público por uma viagem de imagens e símbolos”, destacando a capacidade de Fani Feldman de realizar “metamorfoses vertiginosas” em cena e de dar voz a mulheres submetidas a estruturas patriarcais opressivas.
Em texto publicado no Caderno de Críticas do CCBB-SP, Welington Andrade aponta o rigor formal da montagem e define a dramaturgia como uma experiência que transforma o corpo da intérprete em “catalisador de ideias, sensações e imagens”, operando na fronteira entre o fantástico e o grotesco.
Em um contexto marcado por altos índices de feminicídio, a nova temporada de Como todos os atos humanos reafirma a atualidade do espetáculo e convida o público à reflexão sobre um gesto simbólico, arquetípico e catártico que sugere o aniquilamento do patriarcado e da vigilância imposta sobre o corpo e o destino das mulheres tão bem retratados pela literatura.






