O que estou lendo: Flávia Braz
PublishNews, Monica Ramalho, 07/01/2026
'Tudo em 'Afetos ferozes' é bem feito. As palavras não sobram. E acho que esse é um dos grandes méritos de um livro que se propõe a falar de outros excessos', diz a escritora

"Estou lendo Afetos ferozes (Todavia), uma autobiografia da Vívian Gornick. Há tempos flerto com ele, muito pela vontade de ler a Vivian. É um livro de quase quarenta anos que tem envelhecido lindamente. Não gosto da ideia de uma literatura feminina, acho equivocada. Penso em um olhar literário feminino e isso a Vivian executa brilhantemente, compartilhando a construção da sua formação intelectual, as dificuldades de ser uma mulher em meio à hostilidade de seus pares e o próprio pensamento feminista que opera numa crescente nesse contexto, dilatando sua visão sobre o mundo, seus afetos e sentidos, tudo com uma delicadeza admirável, uma violência impoluta, com uma precisão de palavras incrível. É um livraço.

Já estou nas páginas finais, enrolando para postergar o fim. Tem horas que sinto a necessidade de parar um pouco e deixar que algumas partes dele possam ganhar mais tempo em mim. Sua aspereza é cortante, mas a forma como a autora faz isso deixa tudo no lugar ao mesmo tempo em que vai demolindo um monte de coisas dentro da gente. Os excessos estão nos gestos, nos afetos, que transbordam o tempo todo, mesmo no silêncio. Mas a linguagem, tão bem arquitetada, faz com que a história aconteça numa espécie de emulação de contentamento, como se tudo estivesse em ordem, enquanto a gente sabe que nada nunca está exatamente bem. A relação dela com a mãe, uma espécie de fio condutor ao longo de toda história, opera como um corrimão para o leitor, mas não se engane. Quando você se firmar aí, Vívian vai tirar esse apoio fazendo você rolar alguns degraus escada abaixo para depois recomeçar esse movimento. Esse cadenciamento de ideias e sentimentos permite que a leitura aconteça sem tropeços e atropelos, enquanto uma pilha de angústias se forma ao seu lado em diversos momentos. Os afetos vão, de fato, devorando a gente de uma forma bonita e doída.

Tudo em Afetos ferozes é bem feito. As palavras não sobram. E acho que esse é um dos grandes méritos de um livro que se propõe a falar de outros excessos. Se a linguagem não fosse tão acertada, talvez o leitor tivesse menos oportunidade de lidar com o que realmente importa ali, o que acontece para além das caminhadas pelas ruas de Nova Iorque, pelas reminiscências da infância, pelas dores de todos os não ditos com essa mãe que em vários momentos caminha ao seu lado, mas de forma tão descompassada e ao mesmo tempo tão similar. Tudo isso dói, afeta, desorganiza. A verdade com que ela trata essa relação, a forma como rasga e aprofunda algumas cicatrizes, a coragem de dialogar sobre a sua subjetividade enquanto vai elaborando esses traumas, é tudo muito intempestivo e ao mesmo tempo perturbador. Mérito da autora, que sabe exatamente o que está fazendo e até onde levar a gente em cada trecho do livro, porque quando tudo parece prestes a se romper, Vivian nos coloca de volta na estrada, restabelecendo algum fôlego.

Gostaria de pensar que este livro dialoga com o meu trabalho. Sim, seria lindo verificar alguma convergência com essa autora. Do meu lugar de escrita, posso tentar algumas investidas presunçosas, talvez. Pensar que O que resta a partir daqui (Editora Aboio), meu primeiro romance, também perturba e inquieta, deixando o leitor sem esse corrimão e um pouco à deriva com seus restos. Acho que Afetos ferozes tem alguns protagonistas, mas talvez o excesso de afetos seja o principal deles. Em O que resta a partir daqui a linguagem ocupa a cena, conduzindo o leitor pela história de uma mulher cujo nome ela não revela, pela própria incapacidade de apropriação de si. Também estamos, afinal, falando de uma horda de sobras e do que é possível se fazer com tudo isso no final.

Há muitos motivos para se ler Afetos Ferozes, mas acho que o principal deles é lidar com essa experiência da autora que, apesar de singular, apesar de tratar de relações absolutamente pessoais, consegue universalizar essas vivências, nos colocando ao lado dela e da mãe em muitos momentos. Seja pela impossibilidade de fazer diferente, melhor. Ou simplesmente pela perda do que se foi em algum momento. É quando ela derruba verdades e nos coloca diante da imaterialidade das relações, dos amores, dos afetos, tão responsáveis por aquilo que nos tornamos, para o bem e para o mal. Eu adoro a ideia de o livro não pretender responder a nada e ao mesmo tempo remexer com tantas coisas o tempo todo. Tudo acontece quando nada parece de fato estar acontecendo. Acho que a vida é um pouco assim, né?".


*Flávia Braz é autora de O que resta a partir daqui, o seu romance de estreia, que chegou ao mundo pela Editora Aboio e já foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2025; e do livro de crônicas Quem você foi na fila da quarentena, publicado em 2022 pela Editora Reformatório. Preste atenção nesse nome!

[07/01/2026 11:03:05]