
Para Blat, espetáculo é fruto de uma longa maturação, que busca dialogar com o presente, ao tornar a obra de Dostoiévski acessível e relevante para o Brasil contemporâneo: “Esse espetáculo nasce de mais de dez anos de estudo e amadurecimento. Esse tempo permitiu que a gente não fizesse uma adaptação reverente, mas uma adaptação viva, crítica e contemporânea. A gente não quis transformar Dostoiévski numa peça monumental ou excessivamente respeitosa. A escolha foi condensar, assumir risco e tornar essa obra popular, intensa e direta. O interesse nunca foi reconstruir o século XIX, mas entender o que Dostoiévski plantou ali e como isso ressoa no Brasil de hoje, num país politicamente rachado e atravessado por disputas de poder”, afirma.
Os membros do coletivo de artistas que se revezam para contar essa história, ora em coro, ora individualmente, com seus corpos e funções diversos, com nomes como Nina Tomsic, Pedro Henrique Muller, Catharina Caiado, Sol Miranda, Priscilla Rozenbaum, Lucas Oranmian, Arthur Braganti, Thiago Rebello, Juliete Viana, Maria Luiza Aquino, Sheila Martins, Sofia Badim, além do diretor Caio Blat, que também atua.
A encenação concentra a narrativa nos três dias em que antecedem e sucedem o crime central da trama, imprimindo intensidade, urgência e proximidade à experiência do público, bem como aos temas que assolam a sociedade brasileira. Embora hoje seja considerado erudito, Dostoiévski foi um escritor popular, Os Irmãos Karamazov foi publicado originalmente como folhetim, uma novela em capítulos no jornal da época.
A adaptação é um resultado de 10 anos de estudo e pesquisa de Caio Blat e Manoel Candeias sobre o romance de Dostoiévski, além de quatro meses de processo criativo com o elenco e o grupo de artistas envolvidos para a realização do espetáculo. A montagem leva aos palcos a polifonia característica do romance de Dostoiévski, conceito desenvolvido por Mikhail Bakhtin, em que múltiplas vozes, perspectivas e conflitos buscam uma coexistência sem hierarquia moral.
Segundo Maria Duarte, para se produzir um espetáculo para o grande público, além da proposta artística da encenação, é preciso pensar na acessibilidade de fato. “É isto o que me move nesse projeto desde o primeiro dia: realizar um espetáculo realmente acessível. Isso implica olhar para a acessibilidade não como uma contrapartida, um problema a ser resolvido, um recurso a ser inserido depois da criação. E sim uma lente a mais para os criadores, que inspira e amplia possibilidades. Essa foi a minha proposta para a direção e toda a equipe envolvida. Quis trazer intérpretes atrizes para a cena com o elenco, e não tradutores de Libras numa lateral do palco. E o que parecia no início um problema, abriu uma explosão de ideias nesse processo, emocionante de ver", completa a diretora de produção.
Desde sua concepção, a montagem incorpora ainda a acessibilidade como linguagem dramatúrgica e estética. Artistas-intérpretes de Libras integram o elenco em cena, compondo a narrativa e a construção do espetáculo. Iniciativas como essas foram pensadas desde o início do processo criativo, amplificando o alcance da peça e reforçando o compromisso com o público por um teatro que seja verdadeiramente inclusivo.
Já o figurino e a direção de arte, assinado por Isabela Capeto, dialogam com a ideia de coletividade e atemporalidade, por meio de peças artesanais, sustentáveis e predominantemente brancas, que funcionam como suporte simbólico para a multiplicidade de vozes em cena. O trabalho foi reconhecido pelo Prêmio Bibi Ferreira, no qual o espetáculo venceu na categoria Melhor Figurino, e está indicado na mesma categoria pelo Prêmio Shell. Além disso, o espetáculo foi ainda premiado pela performance de Babu Santana, vencedor como Melhor Ator Coadjuvante.
A produção conta ainda com direção de movimento de Amália Lima, desenho de luz de Gustavo Hadba e Sarah Salgado, cenografia de Moa Batsow e direção de produção de Maria Duarte, que propôs a acessibilidade criativa do espetáculo, coordenada por Raíssa Couto. A volta ao Rio de Janeiro se dá após uma trajetória de circulação nacional, com passagens por teatros em São Paulo (capital e interior) e Minas Gerais, com todas as sessões esgotadas.






