Três Perguntas do PN para Alberto Mussa
PublishNews, Monica Ramalho, 28/11/2025
“O crime me interessa, ou me fascina, porque é sempre uma atitude extrema. E porque as atitudes extremas são as que melhor revelam a essência da nossa humanidade", explica o autor. Leia a entrevista!

Autor de uma das arquiteturas literárias mais singulares do país, Alberto Mussa revisita agora o Compêndio Mítico do Rio de Janeiro em novas edições da Editora Record — cinco romances que atravessam os cinco séculos da cidade, cada um ancorado em um crime real, sempre reelaborado pela força do mito.

No volume A primeira história do mundo, Mussa propõe uma viagem ao Rio de Janeiro quinhentista. Em O trono da rainha Jinga, ele explora a paisagem do Rio seiscentista. Já a trama de A biblioteca elementar se passa na cidade do século XVIII. Ele avança ao Rio oitocentista na obra A hipótese humana, e fecha o compêndio na capital fluminense dos anos 1900, com O senhor do lado esquerdo.

Nesta conversa com o PublishNews, o escritor fala sobre a escolha do crime como uma espécie de chave de leitura do Rio, comenta a sua fusão radical entre erudição e cultura popular e reflete sobre como se reconhece — ou não, brincando com a velha máxima de Caetano Veloso, um baiano já bem acariocado — nos livros de duas ou três décadas atrás.

“O crime me interessa, ou me fascina, porque é sempre uma atitude extrema. E porque as atitudes extremas são as que melhor revelam a essência da nossa humanidade", explica o vencedor de prêmios como Casa de las Américas, Biblioteca Nacional, Jabuti e ABL, e mais alguns. Leia a entrevista completa:

PUBLISHNEWS — O Compêndio Mítico do Rio de Janeiro é uma das obras mais ambiciosas da literatura brasileira recente — cinco romances, cinco séculos, cinco crimes e um mesmo território simbólico. O que levou você a escolher o crime como fio condutor da história da cidade? E o que esses crimes revelaram?
ALBERTO MUSSA — A opção pela chamada literatura policial se baseia, primeiramente, num gosto pessoal: admiro autores como Borges, Bioy Casares, Dostoiévski, Simenon, Dürrenmatt, Poe, Faulkner, e uma quantidade enorme de grandes escritores considerados clássicos mas que não costumam ser denominados de "policiais" porque a crítica erudita e aristocrática considera o policial um gênero menor.

O crime me interessa, ou me fascina, porque é sempre uma atitude extrema. E porque as atitudes extremas são as que melhor revelam a essência da nossa humanidade.

A relação da cidade com o crime e com a morte é histórica e é mítica. A cidade nasceu durante uma guerra, por causa dessa guerra; seu primeiro caso de homicídio aconteceu no ano da própria fundação, quando não tinha ainda 100 habitantes; o genocídio foi uma de suas maiores características; e até hoje se destaca nos noticiários em função dos crimes e da violência do seu cotidiano.

Capas nova da coleção
Capas nova da coleção

PN — Em seus livros, o policial se mistura ao mítico, ao erudito e ao popular — da mitologia africana à linguística tupinambá. Como você constrói esse equilíbrio entre precisão histórica e invenção? Há um método que sustente essa fusão de vozes, ou ela nasce mesmo é da própria lógica poética da cidade?
AM — Há uma postura muito minha, mas não apenas minha, diante da cultura, que considero fundamental: a indistinção entre erudito e popular. Alguém que conheça Bach, mas não conheça Martinho da Vila, não é um erudito. É um mero conhecedor de Bach ou de música clássica. E isso é pouco. Erudição é algo enorme, inalcançável na prática, no espectro de uma vida humana.

O que eu conheço são as coisas que me interessam e que me emocionam: a literatura ocidental, a literatura árabe, a mitologia iorubá, a mitologia tupi, a mitologia popular brasileira, e mais uma ou outra coisa das outras literaturas e mitologias. Aliás, literatura e mitologia, pra mim, são a mesma coisa. Sou uma pessoa ignorante, de um modo geral.

Em relação às línguas, é uma outra paixão. Estudo muitas, sempre. Gosto de aprender. Gosto de jogar com sistemas.

A precisão histórica é mais aparente que real. Reproduzo apenas uma imagem daquilo que leio, nada muito rigoroso. Talvez consiga iludir quem lê, porque esse é o objetivo da ficção — fazer quem lê acreditar no que lê, por mais falso que seja. O romance fantástico, gênero que também exploro, é uma demonstração.

O texto sai naturalmente, acho eu. Não tenho um método consciente de fazer essa fusão.

PN — Essas novas edições reúnem, em ordem cronológica, uma obra escrita ao longo de mais de duas décadas. Como se sente ao revisitar esses textos hoje? O autor de 2025 reconhece o de A primeira história do mundo? E qual seria o sexto livro, se o seu editor implorasse por ele?
AM —
O autor reconhece os livros de duas ou três décadas atrás do mesmo modo como se reconhece numa fotografia da infância ou da adolescência. Embora já não seja o mesmo. Porque nunca se é o mesmo.

O sexto livro não existirá, apesar de eventuais apelos, porque o tempo mítico se esgotou em 1961, quando eu nasci. Tudo que existiu ou aconteceu antes de mim, é mítico. O que começou comigo, é histórico. Ou contemporâneo.

[28/11/2025 11:29:27]