Pequenas editoras lutam para preservar a bibliodiversidade
PublishNews, Monica Ramalho, 10/09/2025
Fundadores das editoras Interseção, Bloco Narrativo, Verve, Arpillera e Janela Amarela revelam como se sustentam com trabalho próximo a autores e outros profissionais

Livros costurados à mão da Editora Arpillera © Yara Fers
Livros costurados à mão da Editora Arpillera © Yara Fers
Elas encorpam o mercado editorial brasileiro, mas estão longe de atuar com prosperidade e visibilidade à altura de suas produções. Da mesma forma que a desigualdade social e a má distribuição de renda varrem o país desde tempos imemoriais, as pequenas editoras mordem fatias ínfimas de um um bolo que, motivado por outros fatores, vem encolhendo nos últimos anos, como indicam as pesquisas que norteiam o segmento, como a Retratos da Leitura no Brasil.

Curiosamente, as editoras miúdas, muitas artesanais mesmo, são responsáveis por apresentar promessas da literatura brasileira aos leitores – e, de tabela, às grandes casas editoriais, que puxam quem se destaca para os seus catálogos na primeira oportunidade. Como preservar a bibliodiversidade em um mercado que não estende a mão para o independente?

O PublishNews conversou com fundadores de cinco editoras tocadas por uma ou duas pessoas, sem grande capital de giro para investir, por exemplo, em um estande num evento literário de grande porte e, dessa forma, colocar em exposição os seus livros e autores. Há editoras que imprimem sob demanda e encontram portas fechadas nas livrarias – inclusive as de rua, que enfrentam tantos outros obstáculos para garantir o seu sustento. Dos entrevistados, um está prestes a inaugurar a sua própria mini livraria. E a imprensa nisso tudo?

Andrea Samico © Divulgação
Andrea Samico © Divulgação
“Publicamos porque acreditamos nas obras que escolhemos. Abrimos os espaços na gana e na unha. Ninguém convida os pequenos às mesas principais, nem mistura novos autores nos debates com os grandes autores. Não há oportunidades iguais. Outra coisa que vejo pouquíssimos veículos fazerem: resenha de títulos de autores iniciantes, escolhidos espontaneamente, sem indicações ou referendados por intelectuais”, desabafa Andrea Samico, sócia de Patrícia Farias na Interseção Design de História, fundada em 2001, inicialmente, com ênfase nos livros corporativos.

A Interseção é conhecida por fazer um corpo a corpo mais afetivo com os autores. “Atuamos com eles como sócios de seus projetos, também como psicólogos, consultores, amigos. Trazemos para perto. O nosso entendimento é que o autor não chega com um livro aqui: ele chega com um sonho – algo que muitas vezes ele deixou guardado numa gaveta por anos e, entre tantas editoras no mercado, escolheu vir publicar conosco”, explica a editora carioca.

O modelo de trabalho que ela acredita inclui decisões editoriais mais ágeis e personalizadas, apoio a obras que fogem do óbvio e têm potencial de abrir mais diálogos relevantes na sociedade. Lógico que o retorno vai muito além do financeiro. “É cultural, ampliando o alcance de histórias que provocam o aprofundamento do pensar e também dão uma chacoalhada no mercado literário que só aposta no tradicional", cutuca ela. Até dezembro devem sair pela Interseção um livro de poesia, um romance, uma história autobiográfica e um infantojuvenil. “Estamos a toda e não vamos parar!", afirma Samico, com brilho nos olhos.

Bloco Narrativo vai abrir mini livraria com café e galeria em Niterói

Bruno Drummond © Divulgação
Bruno Drummond © Divulgação
Brilho que também aparece na conversa com o artista gráfico, cartunista e editor Bruno Drummond. As notícias são boas! O criador da premiada coluna Gente Fina, que circulou por 15 anos no jornal O Globo, conta que abriu a Editora Bloco Narrativo em 2020 para publicar um livro próprio, Despedida. De repente, viu a sua graphic novel entre os finalistas do Prêmio Jabuti 2021 e, logo depois, foi procurado por outros autores que queriam editar as suas histórias.

Apesar de ser uma editora do “Bloco do eu sozinho”, como brinca, Drummond afirma que os dias são tranquilos e que adora estar à frente de uma casa de autopublicação, com ele jogando nas onze e chamando parceiros para fazer a revisão e a impressão finais da obra. “Em duas semanas, me faça essa pergunta novamente", brinca outra vez. Isso porque o Bloco vai ganhar um espaço físico com mini livraria, cafezinho e galeria de 10m2 em Icaraí, Niterói (RJ).

“Não disputamos os mesmos espaços com grandes editoras. Nosso foco é fazer autores independentes encontrarem o seu público com tiragens sustentáveis. Tudo é menor dimensionado", pondera o editor. Em média, a Bloco Narrativo coloca quatro livros por ano nas prateleiras, de múltiplas vozes e ritmos, desde quadrinhos até fotolivro. No momento, os esforços estão concentrados na inauguração da sua loja física e na produção do Vesúvio, com crônicas e poemas de Geísa Figueiredo.

Livros costurados à mão na Bahia

Arpillera era um bordado coletivo, criado por mulheres chilenas na Isla Negra, durante a ditadura militar (1973-1990), muitas vezes feito com retalhos das roupas de parentes desaparecidos políticos. Símbolo de resistência e trabalho feito a muitas mãos, o nome encaixou com a proposta do casal de paulistas Yara Fers e Thiago Gatti. Radicados há dez anos na Praia de Arembepe, na Bahia, fundaram a Editora Arpillera em outubro de 2022. Isso porque Yara queria repetir a experiência que tivera os seus Desmecanismos, com capa bordada e costura manual, e o Haicactos e mandacarus, uma encadernação em dobradura, com origamis na capa – finalista, justamente na categoria Capa, do Prêmio Candango de Literatura daquele ano.

“Queríamos trazer ao mercado editorial um tipo de livro diferente, mais sensorial e artístico, artesanal, costurado manualmente. Esse é nosso diferencial. Em um mundo tão veloz e digital, queremos resgatar as texturas, o fazer analógico. No lugar da produção em massa, queremos trazer o que é único", rebobina Yara. Todo ano, eles abrem uma chamada de originais em dezembro para selecionar os originais que serão publicados no ano seguinte – a prioridade, definiram juntos, é de mulheres, pessoas negras e com deficiência, LBGTQIA+ e indígenas.

Yara lê, escolhe, edita e revisa o texto, abastece as redes sociais e produz os releases jornalísticos de cada lançamento. Thiago atualiza o site, cuida das vendas online e dos envios dos títulos. O projeto gráfico é desenvolvido pelos dois, em diálogo com quem escreveu o texto. É o momento mais esperado da criação em conjunto. Depois, Thiago confecciona os livros nas cinco impressoras da Arpillera. Às vezes, quando a demanda exige, com ajuda de Yara e mais uma artesã.

Eles marcam presença nos principais eventos literários do país, o que consideram cansativo, mas uma experiência essencial. “Percebemos que o livro artesanal no presencial tem um poder maior. É muito mais encantador passar as mãos no livro, nos detalhes e costuras, do que ver uma foto dele na internet”, situa Yara. A grande novidade para o final do ano é costurar os primeiros três volumes da Coleção Agulhinha de livros para as infâncias, escritos por autoras baianas.

Rosana Caiado e Fernanda Mello © Divulgação
Rosana Caiado e Fernanda Mello © Divulgação
Dentro dessa diversidade, cabe uma pequena editora focada em biografias sob encomenda, no Rio de Janeiro. Sinônimo de entusiasmo e vivacidade, a Verve nasceu em 2024 através da sociedade das amigas Rosana Caiado e Fernanda Mello e já está com três livros publicados e outros dois escritos, em vias de encarar a gráfica. A ideia bateu na porta da Rosana, literalmente, com pessoas querendo ajuda para publicar a sua história de vida – um baita nicho, vamos combinar.

“Percebi que a demanda existia, então chamei a melhor designer e capista que conheço para entrar comigo nessa empreitada. Temos dois pontos que considero grandes diferenciais: a Verve oferece o serviço de escrita do livro, o que garante que, para ter a sua história contada em livro, não é necessário ser escritor; e o segundo é o produto final: capa dura, quatro cores, fotos, ou seja, um livro diferenciado, lindo, entregue dentro de um caixa de acrílico", defende Rosana, refinada com as palavras.

Elas são da teoria de que todo mundo tem uma história para contar. E, muitas vezes, familiares e amigos íntimos enriquecem as narrativas com depoimentos sobre o biografado. Aliás, Rosana conta que já fizeram livros às escondidas do biografado pois era o presente de um aniversário importante de 80 ou 90 anos. Também é possível escrever sobre quem já partiu, usando depoimentos, pesquisa de fotos e outros documentos. “Nos especializamos em biografias de gente (in)comum e queremos abrir mais esse leque", resume a editora.

As obras feitas pela Verve nunca ficam expostas na vitrine de uma livraria, o que elimina etapas trabalhosas de distribuição e custos para participar de eventos literários. Em geral, elas imprimem de cinco a dez exemplares, mas, antes de 2025 findar, a editora de Rosana e Fernanda vai ganhar uma novidade: Um livro em especial chegará ao mundo sob demanda, podendo imprimir quantas cópias forem vendidas. Outra editora pequena que optou pelo modelo ‘produção após a compra’ é a Janela Amarela, também do Rio de Janeiro, dedicada à produção de escritoras do século XIX e início do século XX e autores independentes ou que foram esquecidos – cujos livros já não estão mais disponíveis para compra.

Janela Amarela foca no resgate de autoras há muito esquecidas

“Como uma pequena editora, o trabalho acaba sendo quase artesanal, com dedicação total a cada etapa. Os autores independentes com os quais trabalhamos são sempre atualizados e podem acompanhar todas as fases do processo editorial. Já no caso dos resgates literários, mesclamos em nossas pesquisas o projeto que delineamos para o nosso catálogo", diz a editora Carol Engel, sócia da mãe, a comunicadora Ana Maria Leite Barbosa, no negócio desde 2020 – é curioso como existem, em quantidade, editoras familiares do país.

Os resgates literários já têm um fluxo de produção estabelecido, que geralmente envolve quatro ou cinco colaboradores no processo editorial. Para produção e distribuição, a dupla trabalha em parceria com a UmLivro, que faz a gestão das vendas online, efetivadas por meio de marketplaces, e disponibiliza também um atendimento direto para livrarias. Decisão inteligente para evitar gastar com aluguel de estoque e só usar o papel que for necessário para imprimir aquele livro.

Obra de Júlia Lopes de Almeida em edição primorosa da Janela Amarela © Reprodução
Obra de Júlia Lopes de Almeida em edição primorosa da Janela Amarela © Reprodução
O pulo do gato da Janela Amarela foi relançar boa parte da obra da escritora, cronista, teatróloga e abolicionista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL), numa época em que as mulheres não tinham vez nem podiam fazer ouvir a sua voz. Em seu lugar, quem aparecia era o seu marido, o também escritor português Filinto de Almeida (1857-1945). O primeiro título de Júlia que a Janela Amarela publicou foi Memórias de Martha, também o primeiro romance dela, escrito em 1888.

Carol Engel diz que começaram a diversificar as autoras no ritmo que o acesso aos originais permitiu. “Há inúmeras escritoras brasileiras que são absolutamente ignoradas, os leitores de hoje sequer ouviram falar de seus nomes e não tiveram nenhum acesso a essas obras", destaca. Em média, a editora lança de cinco a seis livros de resgate literário por ano, além das histórias produzidas por autores independentes. “Alguns títulos não entram em nosso catálogo, mas recebem a mesma dedicação e o mesmo cuidado editorial", garante.

Ter consciência do tamanho da Janela Amarela fez com que elas modelassem tudo de outra forma desde os primeiros passos. “Um bom exemplo foi a reação inicial das livrarias por não adotarmos o modelo de consignação, tradicional no mercado brasileiro. Algumas livrarias pareceram entender como um ataque pessoal e, mesmo podendo aceitar encomendas, se recusaram a atender pedidos”, recorda Carol. Na ocasião, pós isolamento social, nem as livrarias de bairro aderiram.

“Hoje já há livrarias que compram nossos livros para ter em estoque ou os vendem em seus sites. Fazemos questão de incluí-las como opção de canal de vendas em nosso site. Para uma microeditora é um grande presente saber que uma nova livraria está trabalhando com nossos títulos”, comemora a editora, feliz por ter concluído a dos 17 romances de Júlia Lopes de Almeida – entre eles, O funil do diabo, obra que estava no prelo quando a autora faleceu e acabou sendo publicada apenas em jornal.

Carol revela que ainda possui tesouros de Júlia, como livros de contos e ensaios, para publicar. E que, ainda este ano, além de lançar uma obra nova da autora carioca que ficou conhecida por escrever crônicas duramente atuais, mais de 120 anos depois, a Janela Amarela vai disponibilizar aos leitores um novo título de Chrysanthème, Mãe. E às duas escritoras de pena firme, juntará um novo nome no catálogo: Maria Clara da Cunha Santos, que, em seu diário de viagem “América e Europa” relata a experiência de viajar aos EUA e à Europa.

[10/09/2025 10:38:40]