
Apesar de a inteligência artificial ter sido um tema recorrente da Feira do Livro de Londres — realizada entre os dias 10 e 12 de março no Olympia, na capital britânica —, um tema que chamou a atenção da mídia internacional no evento foi a responsabilidade do mercado em formar novos leitores.
A CEO da Pan Macmillan, Joanna Prior, usou sua apresentação na quarta-feira (11) para argumentar que a indústria do livro está priorizando a crise errada, segundo o Publishers' Weekly. "A queda no número de leitores é um desafio muito maior para o nosso setor do que a inteligência artificial jamais será", disse, no palco principal da Feira. "A IA muda a forma como trabalhamos. Mas a crise de leitura muda o fato de termos um negócio ou não".
Para ela, o fenômeno ultrapassa o setor editorial, e, em um mundo em que a IA e o deepfake se infiltram em várias áreas, os livros se tornam uma das últimas barreiras de defesa coletiva para o intelecto e a liberdade de pensamento.
Em outra apresentação, o CEO da Penguin Random House UK, Tom Weldon, disse que o setor em si não é "anti-IA, mas estamos buscando formas de usá-la de maneira responsável, para remover algumas tarefas repetitivas". Como exemplo, ele citou o uso da tecnologia para traduzir livros ao árabe e transformá-los em audiolivros: em um mercado potencial de 300 milhões de pessoas, hoje há apenas sete mil audiolivros disponíveis.
Ele também tocou no assunto da crise de leitura, com nuances: "Não acredito que temos uma crise de leitura; as vendas de livros infantis crescem anualmente há 20 anos". Ele também afirmou que é verdade há muito tempo que metade da população nunca comprou um livro na vida. "Como amamos muito os livros, às vezes ficamos dando muito sermão".
Um dos programas desenvolvido pela Feira de Londres, em parceria com a Feira de Frankfurt e a PEN International, é voltado para a formação de novos profissionais do setor editorial. "Networking é tudo aqui", disse a diretora da agência Serendipity, Regina Brooks. Ela comentou que esse projeto, desenvolvido desde outubro do ano passado, está conjugado à necessidade de o mercado atrair e formar novos leitores.
O Publishers' Weekly também entrevistou uma estudante brasileira, Yanni Carneiro, que faz um mestrado na Oxford Brookes focado em direitos internacionais. Após visitar o estande do Brasil e conversar com a organização — liderada pelo Brazilian Publishers, projeto da Câmara Brasileira do Livro (CBL) com a ApexBrasil —, ela foi convidada para compor a delegação da Feira do Livro de Bolonha, a ser realizada no início de abril. "Eu entendi nesse momento que entrei não apenas em uma profissão, mas em uma comunidade", disse.
Geopolítica e setor editorial
A Feira começou na terça-feira (10) em meio à tensão da guerra entre Israel, EUA e Irã, com alguns cancelamentos e atrasos de editores e outros profissionais do Oriente Médio — ou de quem faria escala em Dubai para chegar a Londres.
Ao PW, Steve Jones, gerente geral da rede de livrarias Kinokuniya em Dubai e Abu Dhabi, disse que estava na Polônia de férias e que não conseguiu voltar para casa. "Há mísseis e bombas explodindo nos Emirados e estamos muito preocupados com a segurança das nossas equipes nas lojas", disse. "Mas os shoppings estão abertos, e ter acesso a livros é agora mais importante do que nunca."
A guerra levou ao cancelamento do Sharjah Animation & Comics Festival, que seria realizado entre 26 e 29 de março, e a Feira Internacional do Livro de Abu Dhabi foi adiada. Por enquanto, não há mudança prevista para a Sharjah Booksellers Conference, marcada para os dias 2 e 3 de maio.
Mesmo com as discussões sobre o lugar dos EUA na nova geopolítica global, os livros norte-americanos dominaram as listas de mais vendidos em nove dos 19 territórios monitorados pela NielsenIQ BookData, de acordo com dados apresentados na Feira pela empresa. De maneira geral, a Nielsen informou que 15 dos 19 territórios viram as vendas crescerem em gêneros como ficção adulta, livros sobre crimes e thrillers. Ainda do lado norte-americano, o CEO da Audible, Bob Carrigan, anunciou que a empresa vai expandir sua atuação para 11 novos países, incluindo Bélgica, Suécia, Singapura, África do Sul, Arábia Saudita e Egito.
Em 2027, a Feira do Livro de Londres será realizada entre os dias 16 e 18 de março.






