Indústria do livro encolhe 39% em 16 anos, aponta Nielsen
PublishNews, Talita Facchini, 05/07/2022
Desde o início da série histórica, a queda real acumulada é de 39% e apesar da alta de 6% em 2021, o faturamento real do mercado editorial é decrescente

Na tarde desta terça (05), dentro da programação do Papo de Mercado da 26ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a Nielsen BookData apresentaram os números da série histórica da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro.

A pesquisa considera o comportamento das vendas nos últimos 16 anos em quatro subsetores: Obras Gerais, Didáticos, Religiosos e CTP (Científicos, Técnicos e Profissionais).

Se na apresentação de 2020 a indústria do livro encolheu 20%, e na de 2021, 30%, nos últimos 15 anos, na apresentação de 2022 (referente sempre ao ano anterior) o que se viu foi que as editoras registraram R$ 3,9 bilhões de faturamento nas vendas ao mercado, o que representa queda acumulada de 39%, em termos reais (descontada a inflação do período) desde 2006.

Segundo dados da pesquisa, é possível avaliar que a crise econômica foi fator determinante para o desempenho registrado a partir de 2015. Entre 2014 e 2021, as vendas reais das editoras ao mercado encolheram 37%. No pós-pandemia, a desaceleração nas vendas foi atenuada pela recuperação apresentada pelos subsetores Obras Gerais e Religiosos em 2021.

Em 2021, último ano da série histórica, o mercado editorial registrou retração real no faturamento de 4%, na comparação com 2020, quando considerada apenas as vendas ao mercado. E, resgatando a recente trajetória do mercado editorial, em 2010 a economia brasileira cresceu e o Brasil ganhou destaque internacional. Anos depois, em 2017 e 2018, veio a crise econômica e no mesmo período, o mercado sofreu também com a crise das grandes livrarias: Saraiva e Cultura. “A pesquisa nos mostra que quando o Produto Interno Bruto cresce, as vendas não sobem no mesmo ritmo; mas quando a economia tem uma queda, o faturamento do setor desaba. Entretanto, a desaceleração da queda no último ano nos traz algum alento.”, avaliou Dante Cid, presidente do SNEL.

Subsetores:

Em 2021, três subsetores registraram aumento no faturamento nas vendas ao mercado, sendo que o grande destaque do ano passado foi o subsetor de Obras Gerais, com acréscimo de 14%, ou seja, acima da variação da inflação e do Produto Interno Bruto (PIB). Descontada a inflação, o aumento foi de 3%.

Obras gerais: No total, nesses 16 anos, a redução desse subsetor foi de 35%. Mas apresentou um desempenho muito bom nos últimos três anos. Com isso, Obras gerais conseguiu voltar ao patamar pré-pandemia, com base na retomada de preço.

Didáticos: Foi o subsetor que apresentou o pior desempenho em 2021. A pandemia, a crise econômica que reduz os alunos da rede privada e a ampliação da adoção do sistema de ensino pela rede privada são algumas das razões elencadas por Mari Bueno para as quedas recentes nesse subsetor.

Didáticos vem tentando aumentar o preço médio, mas é muito difícil recuperar essa curva, por isso, apresentou a menor participação no mercado em 16 anos.

Religiosos é o subsetor com o melhor desempenho entre os quatro analisados, apresentando queda de somente 14%. Ao contrário de didáticos, o subsetor vem conseguindo uma recuperação com base no aumento de preço.

É um subsetor que conseguiu se recuperar e também voltar a patamares pré-pandemia. A partir de 2013, Religiosos consegue uma recuperação.

CTP: é o subsetor que mais sente a crise econômica. De 2006 a 2021, queda foi de 49%. Apesar da queda, em termos reais, o crescimento nominal pode indicar uma retomada. “É o melhor resultado dos últimos três anos e também uma tentativa de crescimento com base no índice de preços”, ressaltou Mari.

A queda expressiva dos últimos anos pode ser explicada, por exemplo, pela crise econômica que tira luz das universidades, o fim do Fies e Prouni e as pessoas não entrando nas universidades. “E tenho a desconfiança de que os canais de YouTube que explicam determinados conteúdos podem fazer com que os alunos vejam esses vídeos e deixem de comprar livros”, analisou Mari.

Conclusões

Mariana Bueno fez questão de ressaltar que a retomada de alguns subsetores com base no preço tem que ser vista como algo positivo.

Cid destacou mais uma vez a questão do PIB: quando ele sobe, as vendas permanecem. Mas quando o PIB cai, as vendas despencam. Segundo ele, “quando acontece essa primeira situação, se fazemos uma ligação com a pesquisa Retratos da Leitura, é possível ver que a metade da população se declara não leitora. E a outra metade leitora, é composta, principalmente por pessoas em idade escolar, ou seja, com leitura obrigatória”, explicou. “Então, o que temos que analisar é que não há o apetite espontâneo pela leitura e esse apetite espontâneo poderia fazer a diferença quando o PIB sobe”, analisou.

Para o presidente da CBL, Vitor Tavares, os resultados da série histórica refletem a necessidade de políticas que contribuam para a formação de leitores e que fortaleçam o hábito da leitura.

“A implementação de políticas destinadas à formação de público leitor é urgente. A leitura, além de ser um exercício de cidadania, é capaz de desenvolver economicamente um país. E não é com aplicação de contribuições ou impostos sobre o livro, como está ocorrendo no processo da reforma tributária, que trilharemos esse caminho”, afirmou.

[05/07/2022 14:00:00]