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Com Gullar, ao telefone
PublishNews, Suzana Vargas, 10/06/2021
Em novo artigo-memória da série 'Escrever para Lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram', Suzana Vargas resgata a sua história com Ferreira Gullar

Ferreira Gullar e Suzana Vargas na festa de um ano da Estação das Letras | © Acervo pessoal
Ferreira Gullar e Suzana Vargas na festa de um ano da Estação das Letras | © Acervo pessoal

“O sofrimento não tem/ nenhum valor/não acende um halo/em volta de tua cabeça, não/ilumina trecho algum/da tua carne escura/ (nem mesmo o que iluminaria/a lembrança ou a ilusão/de uma alegria).”

Foi com esses versos de Ferreira Gullar na cabeça e, talvez, com uma taça de vinho a mais (não me recordo) que uma noite, nos inícios do século XXI tomei coragem de ligar para ele. Não éramos íntimos, nunca fomos, muito embora ele apoiasse absolutamente toda as minhas iniciativas intelectuais e de ordem, digamos, mais empresarial. Poucas vezes o visitei no seu amplo apartamento da rua Duvivier onde morava cercado de quadros, obras de arte, livros e o gato Gatinho que mais tarde virou livro infantil. Nas vezes em que lá fui para algumas entrevistas, pouco falávamos sobre assuntos de cunho mais pessoal. Gullar era reservado e eu ficava fascinada com sua figura humana. A algum desavisado, passaria a impressão de secura mas tratava-se de uma rápida ilusão. Tinha, sim, uma franqueza de meter medo com sua cara de indígena, amestiçada, cabelos lisos e fartos que frequentemente ele puxava para trás, evitando que caíssem sobre seu rosto anguloso, fortemente vincado dando-lhe uma aparência inconfundível.

Voltando ao início, foi a releitura de seu poema A alegria, escrito entre 1975 e 1980, que me levou a telefonar numa hora mais avançada para pessoas sem tanta intimidade. Liguei, receosa de sua reação pois já passava, e muito, da hora do jantar. Ele me atendeu com a cordialidade de sempre e, para meu alívio, não demonstrou muita surpresa, menos, ainda, enfado. Pedi desculpas pelo horário e fui logo dizendo que não se preocupasse, o assunto não era trabalho (nesta época ele pertencia ao Conselho Editorial da Revista Poesia Sempre da qual fui editora adjunta por 10 anos). Tratava-se, falei, de expressar minha emoção/admiração precisamente sobre aquele poema onde a alegria era a afirmação absoluta da nossa condição humana. Queria dizer sobre a singularidade daquele texto na sua obra marcada por uma aguda percepção das questões sociais mais urgentes, visíveis e invisíveis.

Assim que ouviu minha justificativa para o telefonema ele me agradeceu e num gesto raro de entusiasmo em ligações como essa resolveu falar sobre a gênese do poema. “Sabe como e por que escrevi esse poema, Suzana?”. À minha negativa, ele contou que escrevera sobre a alegria precisamente num dos momentos mais desesperadores vividos no exílio. Estava em Buenos Aires, perseguido, longe da família, com seu filho Paulo desaparecido, desamparado pela esquizofrenia e o outro longe com problemas psíquicos. Cansado de peregrinar e de fugir da Rússia ao Chile passando pelo Peru, a esperança de reunir a família tinha ruído e encontrava-se, segundo ele, num dos momentos de maior sofrimento em toda a sua trajetória que incluiria, no futuro, prisão e tortura, já em solo brasileiro.

Ouvi seu relato entre surpresa e comovida. Surpresa porque esperava uma explicação mais técnica, talvez, e ele me saía com uma explicação existencial/factual. Então A alegria havia paradoxalmente sido gestada num poço de tristezas? A esse pensamento me ocorreram outros. Alguns diziam respeito à forma como o poema havia me atingido enquanto leitora: repensar a função do sofrimento na minha vida pessoal, na nossa vida coletiva, sua valoração, sua exibição, muitas vezes como um troféu. E sua nulidade (sem negá-lo, claro está). Um elemento importante dizia respeito ao mito da inspiração, da espontaneidade ingênua e da alegria pueril e saltitante. Outros pensamentos diziam respeito às declarações públicas de Gullar sobre arte e seus conceitos sobre estética. Bem mais de uma vez eu havia presenciado suas palestras e relatos sobre poesia, havia lido seus livros onde falava sobre a arte como alquimia e seu poder de transfigurar o sofrimento em beleza, tornando o mundo mais compreensível e palatável. “Quando a Arte não consegue transcender a barbárie ou a dor, não está cumprindo sua função”, declarou certa vez. Guardei bem guardadas as palavras que ao telefone ecoavam. Sim, ali estava, de modo inequívoco, toda uma teoria posta em prática. E só conseguiria realizar essa façanha quem conhecesse o sofrimento e o sentisse na carne. A dor, transformada pela arte em alegria ética e estética voltava para mim como testemunha da nossa humanidade.

Voltei-me para meu passado entre livros e literatura que sempre me socorreriam e explicavam o inexplicável. Por esse caminho re-descobri um novo Gullar dentro do Gullar antigo que me motivara tantíssimas vezes nos tempos de faculdade, nas lutas sindicais e corporais. O Gullar da trajetória do Açúcar, dos campos às usinas e das usinas às mercearias. O Gullar do preço do feijão, das bananas podres, de carne e de memória. Um poeta cujos aspectos críticos e contraditórios da realidade brasileira transcendiam, à luz da sua poesia e a iluminavam tornando palpáveis os elementos ao nosso alcance, como a guerra e os galos.

Nessa noite, ele se estendeu ao telefone bem mais do que de costume ou do que costumávamos fazer entre uma palestra e outra ou nas aulas a que generosamente concorreu para a alegria dos alunos.

Desliguei pensando no artista como fazedor de alegrias ou como muitas vezes escutei-o dizer “Porque a vida não basta”. E tudo começou a fazer sentido, inclusive suas contradições. Alargava-se o mundo em seus espantos, mas não só. Esse poema sobre a alegria que transcrevo a seguir me ensinou a viver melhor. Aliás, a literatura que sempre tivera para mim esse sentido resplandeceu de razões que passeiam muito além do bom gosto e da beleza.

E tudo me chegou pela coragem de telefonar àquele homem cuja obra monumental (em prosa, poesia, ensaios, crítica de arte, teatro, artes plásticas) havia sido construída por essas premissas. Um personagem de intensidades, radicalidades e contradições. Dele guardo alguns mimos para além de autógrafos: seu comparecimento à festa de um ano da Estação das Letras, ainda uma tímida iniciativa num quase deserto de oficinas de criação literária. Sua disponibilidade e alegria verdadeiras.

Em uma das minhas idas à sua casa, pedi que escrevesse um poema para que eu pudesse emoldurar. Sentou-se, apanhou uma folha branca e caprichosamente pautou-a a lápis para não errar o testemunho/poema daquilo que compreendeu ser seu trabalho. Esse poema ecoa nas paredes da minha casa a certeza de que a arte existe para tornar nossa vida melhor. Em tempos de pandemia, ás vezes me pego pensando o que Gullar pensaria desse momento que vivemos. Teria ele ainda a capacidade de arrumar uma alegria? Certamente que sim.

Em 2016 quando de sua morte, fui vê-lo na Fundação Biblioteca Nacional. Nunca me pareceu tão sereno. Lembrei das palavras finais da sua autobiografia do exílio, Rabo de Foguete: “A vida não é o que deveria ter sido e sim o que foi. Cada um de nós é sua própria história real e imaginária”. Eis.

A Alegria

O sofrimento não tem
nenhum valor
Não acende um halo
Em volta da tua cabeça, não
iIumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria)

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o neocid envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral
a injustiça não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.

Nesse espaço, Suzana Vargas vai apresentar histórias que ela escreveu para lembrar ou lições que aprendeu convivendo com grandes escritores da literatura brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, José J. Veiga, João Antônio, Victor Giudice, Moacyr Scliar e Jorge Amado são alguns dos nomes que atravessaram a vida da escritora, professora, curadora e produtora cultural. A coluna - intitulada Escrever para Lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram - integra as comemorações dos 20 anos do PublishNews, celebrados em 2021. Para conhecer mais da trajetória da titular da coluna, assista à participação da fundadora do Instituto Estação das Letras no PublishNews Entrevista de julho de 2020.

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Escritor itaparicano
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