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Ler para os filhos: pesquisa nos EUA mostra sua importância
PublishNews, Felipe Lindoso, 29/01/2019
Em sua coluna, Felipe Lindoso analisa a pesquisa 'Kids & Family Reading Report - The Rise of Read-Aloud' feita pela editora americana Scholastic

Ler em voz alta para os filhos é uma tradição notada principalmente em famílias de leitores. Em 2014, a Academia Americana de Pediatras publicou um guia encorajando os pais a lerem para seus filhos, começando no nascimento, afirmando que isso reforça a ligação entre pais e filhos e prepara o cérebro dos bebês para a linguagem e habilidades de leitura e escrita.

Essa percepção vem sendo cada vez mais incluída nas pesquisas sobre hábitos de leitura, geralmente sob a forma de pergunta sobre “quem influencia ou influenciou mais o gosto pela leitura”, com as mães aparecendo geralmente em primeiro lugar. A última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, apresenta os dados relacionados com a amostra brasileira nas páginas 76 e 78 do relatório divulgando pelo Instituto Pró-Livro.

A Scholastic, editora dos EUA especializada e livros para crianças e jovens, divulgou o relatório de sua pesquisa anual (feita desde 2014), Kids & Family Reading Report - The Rise of Read-Aloud (Relatório da Leitura de Crianças e a Família – O Crescimento do Ler em Voz Alta). É a sétima pesquisa desse tipo feita pela editora, que publicou as séries Harry Potter e Capitão Cueca nos EUA, entre muitos outros títulos.

Como indica o título da pesquisa, constatou-se que a leitura em voz alta dos pais vem aumentando de forma consistente, particularmente em relação à precocidade do momento em que isso começa. A pesquisa é por amostragem, considerando a idade das crianças, característica socioculturais e o que aparece com frequência nos estudos desse gênero nos EUA, as características étnicas. Os dados não foram desglosados por níveis de renda, mas o relatório informa que os dados mostram disparidade entre os lares de renda mais alta e mais baixa, sendo que estas leem em voz alta para os filhos com menos frequência. Nas famílias com renda de menos de US$ 35 mil, o índice de leitura em voz alta é de 39%, contra 62% nas famílias com renda acima de US$ 100 mil. As famílias de renda mais baixa também recebem menos informações sobre a importância da leitura em voz alta.

O relatório considerou também o nível educacional dos pais, mas a versão divulgada (certamente mais sintética que a entregue à Scholastic) não menciona essas diferenças. É certo, porém, que lá como cá, as diferenças de renda e de educação têm seu peso nos hábitos de leitura em geral e, no caso, do número de pais que leem para os filhos.

Vejamos alguns dos dados mais interessantes do relatório.

  • A idade do bebê quando os pais começam a ler em voz alta quando o bebê tem menos de três meses está aumentando. Considerando os pais de crianças entre 0 e 5 anos (77% dos pais), a porcentagem dos que começam a ler para os filhos com menos de três meses de idade aumentou de 30% em 2014 para 43% em 2018.
  • O fato dos pais lerem em voz alta na família é vista como altamente positivo. 86% dos pais e 83% das crianças declararam que amaram ou gostaram muito da experiência.
  • A experiência de ler em voz alta configura uma parceria interativa entre pais e filhos. As crianças escolhem livros, pais e filhos fazem perguntas entre si, viram as páginas e pontuam a experiência com efeitos sonoros. Apesar de não revelar uma causalidade, notou-se que as crianças na faixa de 6-11 anos são mais ativas nessa participação. Essa interação começa bem cedo, com as crianças tendo oportunidade de escolher os livros.
  • A experiência de ler em voz alta não se restringe aos pais lerem para os filhos. Principalmente após a alfabetização, depois dos seis anos de idade, é grande o número de crianças que leem em voz alta para a família.
  • A frequência da leitura em voz alta cai abruptamente quando a criança aprende a ler. Nos primeiros cinco anos de vida das crianças, a maioria dos pais que leem para os filhos o faz diariamente, ou pelo menos de forma rotineira. Os momentos da leitura, entretanto, variam mais, embora a hora de dormir ou da sesta sejam as mais frequentes. Mas os pais leem também a pedido dos filhos, ou quando é necessário que fiquem quietos e até nas salas de espera (de médicos, etc.).

O relatório completo, que é propriedade da Scholastic, deve trazer informações muito mais detalhadas. Certamente são aproveitadas pela editora na definição de suas estratégias de publicação e marketing. O relatório publicado, entretanto, já é bastante estimulante.

A pesquisa, financiada pela Scholastic, foi feita pela YouGov, uma empresa internacional de pesquisas de opinião, fundada no Reino Unido, e que faz trabalhos baseados em entrevistas feitas pela Internet. A metodologia é melhor especificada no relatório.

Será que isso tudo tem a ver com o aumento dos audiobooks?

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blog www.oxisdoproblema.com.br. Em sua coluna, Lindoso traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, ele analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

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