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Doação é enganação
PublishNews, Paulo Tedesco, 17/04/2018
Em seu artigo, Paulo Tedesco fala sobre doar livros ou não pagar autores. "Paguem pelos livros e deem cachês decentes aos autores",

A miséria é aquela linha abaixo da pobreza onde a indigência, ou seja, o ato de mendigar e esmolar é espécie de ação maior do miserável. Logo, a melhor maneira de se manter alguém ou algo na miséria é manter a rotina da esmola e do favor. Nunca, portanto, dê condições se quiseres manter alguém escravo.

Reconheçamos que o parágrafo anterior renderia boas e longas discussões políticas e sociológicas, porque não religiosas. Mas a intenção era, e é, de se falar da doação de livros e do não pagamento de cachês para autores.

Que atitude mais infame e desprezível essa da doação e da exploração do escritor. E falo aqui onde o pedinte fica a se humilhar com justificativas ensaiadas para poder ganhar livros ou uma “palestrinha”, tal como se estivesse numa sinaleira engarrafada ao sol de 40 graus torcendo para que não abra e possa terminar sua cantilena sofrida.

Vergonhoso, para dizer o mínimo. E uma das defesas do mendigo de livros, também absurda, que ouvi numa rede social, foi de que aqueles livros doados algum dia foram comprados, ou que nada custa ao autor, afinal estará promovendo sua obra. Mas que asneira! Doar livros ou não pagar autores é ir contra a ideia de se pressionar governos e prefeituras, empresas privadas e fundações, a que invistam adquirindo livros e repassando a quem precisa, ou financiando quem sempre tem algo novo a ser dito e ensinado.

Ora, que se pressione os responsáveis, e não se deixe o professor da escola esmolar por obras muitas vezes mal traduzidas ou de baixa qualidade literária, somente porque foi doado por alguém que desejava limpar seu depósito poeirento. E alguém que não cobre pelo que tem a dizer, depois de algum bom esforço de deslocamento, é sinal de que o que diz possivelmente não tenha muito valor nem qualidade.

Nesses tempos de neoliberalismo golpista, as práticas velhacas de escravizar estudantes, professores e escritores parecem que voltam com força. Muitos governos alegam crises e preferem não cobrar quem lhes deve em impostos, mas suspendem verbas para a educação, cultura e para a compra de livros. Esses governos são os verdadeiros promotores da corrupção e da mendicância.

Como pano de fundo desse horror à brasileira, o que ocorre é um profundo desprezo pelo livro, pelo escritor e por todos que levam o mundo do livro a sério. Não por coincidência que escolas privadas pedem, gratuitamente, um “papo” com autores, ou que entidades de boas receitas façam feiras de livros e querem que o mundo do livro as promova gratuitamente, ou se empenhe na sua realização de forma servil.

Paguem pelos livros e deem cachês decentes aos autores, pressionem a quem tem o dinheiro e o dever que de fato invistam. Está mais do que na hora de um basta à indigência cultural, se não seremos uma nação moradora de viadutos intelectuais, por onde trafega quem faz muito despertou para o investimento no mundo livro como a forma mais segura de se investir também em educação de qualidade.

Paulo Tedesco é escritor e consultor em projetos editoriais. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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