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Das aventuras e fascinações
PublishNews, Paulo Tedesco, 19/10/2017
Em sua coluna, Paulo Tedesco fala da importância dos livros de ficção em sua vida, e sobre como a ficção e não ficção se completam

Uma das fascinações que herdei como leitor é daquelas que somente um livro de aventuras poderia trazer. Lembro com clareza dos primeiros contatos com Os meninos da Ilha Perdida, da Coleção Vagalume, lá nos idos de 1980, e alguns anos depois com O Príncipe Invencível, de Virgínia Lefèbvre, o qual não me recordo da editora mas não consigo esquecer da impressionante capa com Alexandre, o Grande sobre um cavalo lutando com um soldado árabe montado num elefante – a ilustração que tomava conta da capa dura era um indisfarçável convite à aventura do texto.

Acreditava, com os anos, que esse gosto se esgotaria com a vida adulta, afinal de aventura bastaria o nosso dia a dia com filhos e compromissos financeiros, ou seja, a cada mês comemorávamos uma vitória na selva do sistema e isso seria mais do que o suficiente. Porém estava absolutamente errado. O gosto por livros de aventura nunca se esgotou, e agora não mais na mente de um menino, mas na de um homem que precisava da criatividade para sobreviver e fazer melhor para sua vida e a da família.

Tenho amigos que dizem que a literatura de ficção não tem função alguma, e isso tem lá sua verdade, mas, a mim, e acredito que para muitos que como eu leram a Coleção Vagalume nos seus tempos de guri, aquela ficção produziu e ainda produz seus bons resultados.

E assim vi que eu poderia ir além, e das páginas de ficção migrei para as de não ficção, que depois aprendi serem fontes de inspiração para muitas outras ficções. Nessa nova rodada de leituras surgiu Joshua Slocum, Ernest Shackleton, John Krakauer, Airton Ortiz, Amyr Klink, Família Schurmann e por aí vai. E, neles, na Família Schurmann, por exemplo, é que aprendi que o clássico Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, veio de Alexander Selkirk, que ficou por quatro anos solitário numa ilha chilena em pleno Pacífico, e que depois veio a receber justamente o nome de Ilha Robinson Crusoé. Não poderia ser mais maravilhosa a descoberta, a ficção e a não ficção se encostando e se confundindo, assim, tão pertinhas.

Sim, o leitor infantojuvenil se transformou no leitor adulto e nele se recriou o desejo de aventuras sem sair das páginas. Ah, claro, fiz das minhas na juventude, e muitas vezes inspirado pelas confusões dos livros.

O que mais motiva, no entanto, é saber que as leituras de aventura também motivaram outros leitores para outros mundos, como o de literatura fantástica e o de ficção científica. Também os quadrinhos dos super-heróis formaram, além de novos e bons leitores adultos, profissionais de criação gráfica e roteiristas de grande qualidade.

E aqui puxo o fecho do valor dessas nossas fascinações, dessas nossas paixões que nos arrebatam ainda na idade tenra, e de como isso é delicado, incrivelmente delicado. Não restrinjamos, gente, em nenhuma hipótese os sonhos das crianças. Se ela sonha em ser astronauta, deixemos com que vá à lua quantas vezes quiser, se ela quer ser médica, deixamos com que faça quantas cirurgias e exames achar necessário, e se ela insiste em ser escritora ou ilustradora de livros, ora, apesar de tudo, ainda há muito para ser feito e todo novo escritor e bom ilustrador será sempre bem-vindo.

Paulo Tedesco é escritor e consultor em projetos editoriais. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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