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A liberdade não é vulgar
PublishNews, Paulo Tedesco, 04/10/2017
Em sua coluna, Paulo Tedesco fala sobre a importância da liberdade e sobre como essa palavra se tornou tão popular nos últimos tempos

Precisamos falar de liberdade. Porque de repente liberdade passou a ser a palavra mais repetida no Brasil. No mundo do livro, quando se fala em liberdade, se fala em “leitor sensível”, se fala em pirataria, em livre acesso, também em monopólio de vendas, em restrição a títulos, em cerceamento de leitura por títulos “ofensivos”, e por aí vai.

A cada nova incursão de um fanatismo doentio ou mal-intencionado, a exemplo do que ocorreu com recentes mostras de arte em museus, a saber, Santander Cultural, em Porto Alegre, e MAM, em São Paulo, a questão da liberdade volta com força à cena. E não volta disfarçada, sob a capa de um debate maior. Liberdade está sim no centro da questão brasileira, e porque não mundial.

Gente desinformada, unida à gente doente, insuflada por algum capital das trevas, como o que financia o MBL e provavelmente algum outro grupelho, são os expoentes que ganham manchetes de jornais e editoriais, e feito rastilho de pólvora incendeiam debates e enfrentamentos em redes sociais e mídias digitais, sempre animadas em pós-verdades (nome bonito para os exageros da ignorância). E tudo isso termina em conflito, um conflito inoportuno e totalmente exagerado.

Dizem que dos exageros contemporâneos, a exemplo das décadas das modas exageradas, é que saem os exemplos e a educação final de um povo. Confesso que é um esforço enorme aceitar que somos obrigados a passar por isso, afinal quem enfrentou a ditadura, depois um período de instabilidade econômica pós-ditadura, da qual ainda hoje não nos recuperamos, entender que “faz parte” do jogo as manifestações raivosas contra a liberdade da arte e do pensamento, é um tanto amargo.

Mas a liberdade também está em outras frentes, afinal não dá para ficar nessa de escândalo por conta de meia dúzia de alucinados. Sim, há movimentos sérios e consistentes de restrição de uso da internet, obviamente mascarados por tecnicismos propositadamente elaborados para não entregar o que armam de fato.

Uma das que está a caminho é da prioridade das páginas de web nos servidores, no que se traduz em quem pode mais chorará menos na internet, muito breve. Pois hoje, o blog ou website de qualquer autor e editora, tem o mesmo espaço mínimo num servidor que outros grandes websites, o que foi uma convenção inicial de liberdade na internet, ainda nos seus primeiros passos em busca da popularização.

O avanço de interesses financeiros e políticos, face à proporção da internet, quer mudar e certamente irá mudar esse quadro. Querem, agora, "liberdade" para privilegiar websites maiores em detrimento dos menores. Algo que fará com que a pirâmide que conhecemos na decadente TV aberta se reproduza também no ambiente digital.

Enfim, há muito barulho quando talvez o silêncio fosse o mais recomendável. Pois temos trabalho, muito, pela frente, e defender a liberdade autêntica não é nem nunca foi bem assim. Quem sabe algum tipo produtivo de reza e mandinga nos ajude a afastar golpistas e loucos daquilo nos é tão importante: a liberdade de expressão. Enquanto isso, sigamos sem ceder ao fundamentalismo e em defesa do livro e do conhecimento laico e abertamente democrático.

Paulo Tedesco é escritor e consultor em projetos editoriais. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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