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O autor e o escritor raiz
PublishNews, Paulo Tedesco, 09/05/2017
Em sua coluna, Paulo Tedesco vai atrás dos conceitos de 'escritor' e 'autor' e conclui: 'para se candidatar a escritor é preciso revisar e burilar o texto ao limite, o que poderá tomar anos'

Entre os mais diversos debates, nessa onda de se autopublicar, ganha cada vez mais relevo o que é ser escritor e sua relação com a autoria. Como há um grande número novos autores atirando seus originais para todas as direções, e todos, quase sem exceção, sonham com a redenção de uma vida de escrita e de direitos autorais, o assunto pede reflexão.

Charles Kiefer, numa tentativa de definir um pouco o assunto, optou por separar autor de escritor. No seu livro Para ser escritor (LeYa), ele define que o autor é nada outro do que o ex-escritor deslumbrado com uma eventual carreira literária. Já o escritor “raiz” é aquele que se volta especificamente para sua criação artística, que não se deixa levar pelo mercado e ousa soluções cada vez mais criativas e não menos arriscadas para seus novos textos.

A opção do mestre Charles, professor e bom escritor, é curiosa, sem dúvida, e, imagino que, entre as dezenas e talvez centenas de obras que abordam o assunto de ser escritor, é provável que existam outras tantas definições também interessante e curiosas.

Mas vou me deter no que nos exige uma resposta cada vez mais eficaz para poder separar os conceitos. É preciso, inicialmente, separar o que é ficção do que não é. Simples. Uma vez separado, o mesmo indivíduo pode vestir diferentes personas, e que, me parece, dentre as mais simplificadas, seria a de seguir o exemplo do Kiefer e separar o autor do escritor, porém dentro de outro critério, o de compromisso com a arte literária, num diálogo profundo com a linguagem e a forma.

Portanto, atribuir-se somente o termo de autor é estar mais preocupado em levar sua mensagem adiante e sem maiores aperfeiçoamentos em forma e estilo do que foi escrito, que é o caso da imensa maioria em seu primeiro livro. Já para se candidatar a escritor é preciso revisar e burilar o texto ao limite, o que poderá tomar anos, talvez uma vida, para se decidir entre uma vírgula ou ponto, ou pela palavra mais ajustada para uma frase qualquer.

Pois é bom observar também o nosso querido e premiado Raduan Nassar de Lavoura arcaica e Um copo de cólera, que ao ter encontrado a fórmula para seus livros, abandonou a escrita após os poucos e excelentes títulos. Pode ser que o Raduan volte a escrever com o mesmo empenho dos livros anteriores, mas esse carinho, essa preocupação com a arte da escrita, está marcada em quem se propõe a escrever por arte, ainda que talvez jamais venha a publicar sua obra. Fora isso, fora dessa preocupação, o que resta é nada outro do que o autor, um comum autor, mas não menos importante.

Claro, não é tão comum assim, afinal seria uma barbaridade colocar Euclides da Cunha, Darcy Ribeiro, Antônio Candido, Alfredo Bosi, Gilberto Freyre e outros bons, numa cova rasa de autor desprovido de uma preocupação formal e artística. Mas é preciso levar em conta, para fins didáticos, aonde, afinal, o livro lançado levará seu autor. E essa preocupação cairá feito luva a tantos que sobem seus textos em livros digitais e se sacrificam em exemplares de baixa tiragem, e se arvoram de escritores, quando, à primeira leitura, percebe-se a fraqueza do texto e a ausência de um trabalho maior e com desconhecimento do gênero a que se dedica. E isso é um crime para com a literatura, com direito a julgamento sumário e sob a pena do mais absoluto esquecimento pelo leitor e o mercado editorial.

Paulo Tedesco é escritor e consultor em projetos editoriais. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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