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Um livro essencial para compreender o Holocausto
PublishNews, Roney Cytrynowicz, 26/04/2016
Roney Cytrynowicz analisa ‘A destruição dos judeus europeus’, de Raul Hilberg, publicado pela Amarilys

publicação em português do monumental A destruição dos judeus europeus, de Raul Hilberg (1926-2007), é um acontecimento editorial no campo das publicações de história do século 20. A edição é da Amarilys / Manole, em dois volumes, com 1.658 páginas.

Em meio a centenas de livros sobre o tema lançados em especial de 1990 em diante, A destruição dos judeus europeus, publicado originalmente em 1961, é, provavelmente, o mais importante livro sobre o genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial. Se isto soar exagerado, pode-se dizer que é o primeiro mais importante livro publicado, sendo que depois dele é difícil individualizar outro livro que tenha causado tanto impacto nos estudos sobre o tema. Talvez Eichman em Jerusalém, de Hannah Arendt, publicado em 1963 e que já teve como referência o livro de Hilberg.

De qualquer forma, Raul Hilberg é considerado o “pai-fundador” dos estudos do Holocausto nos EUA e seu livro é o marco inicial e plenamente atual da historiografia. Publicado em 1961 pela Quadrangle Books, de Chicago (depois reimpresso pela New Viewpoints com um pós-escrito), o livro teve duas reedições ampliadas pelo próprio autor: em 1985, pela Holmes & Meier (em três volumes), e em 2003, pela Yale University Press. Também foi lançada uma Student Edition, resumida. A edição da Amrilys teve o cuidado – e a ousadia editorial – de traduzir a edição completa e definitiva de 2003, incluindo os prefácios às edições de 1961 e 1985, no estilo sintético inconfundível do autor.

Hilberg, cientista político e professor da Universidade de Vermont, instaurou e definiu os parâmetros como compreendemos historicamente o genocídio, sua cronologia, suas etapas, o encadeamento entre elas, seus complexos nexos e causalidades, sua dinâmica, sua mecânica interna, a relação entre antissemitismo, ideologia nazista e a implementação no dia a dia entre 1933 e 1945, o que era determinado em Berlim e o que ficava a cargo de cada área sob domínio nazista com suas especificidades por país, por tipo de ocupação e assim por diante.

O que pode parecer uma linguagem seca, descritiva e direta revela-se, ao contrário, uma contundente narrativa que permitiu entender o que não se havia compreendido antes. Hilberg mostrou em detalhes como o Holocausto foi um processo de extermínio em escala industrial, que envolveu a sociedade civil, a burocracia do Estado, o partido nazista, o exército, a indústria, colaboradores locais, e que exigiu profissionais de todas as áreas e especialidades.

A edição da Amarylis, com um projeto gráfico de ótima legibilidade, tem o cuidado editorial de manter as notas de rodapé na própria página e em corpo maior do que o usual, o que valoriza a pesquisa documental realizada por Hilberg, que é central em sua narrativa. Conforme escreveu ele no prefácio à edição de 1985, os documentos “não são simplesmente relatos de eventos, mas artefatos do próprio maquinário administrativo. O que chamamos de fonte documental foi, outrora, uma ordem, uma carta ou um relatório. Sua data, assinatura e expedição investiam-na de consequências imediatas. A folha de papel nas mãos dos participantes era um instrumento de ação”. Um documento recém-achado (e foram muitos nos arquivos da Europa Oriental e ex-URSS especialmente a partir de 1990) que pudesse informar ou esclarecer uma única informação era incluído por Hilberg nas novas edições.

Capa do primeiro volume da edição brasileira do livro
Capa do primeiro volume da edição brasileira do livro


Uma frase da edição de 1961 define bem o objetivo da obra: “Não é suficiente saber que os judeus foram destruídos; também é preciso compreender como essa ação foi perpetrada. Essa é a história contada nesse livro”. Para o autor, era preciso, portanto, entender “como” um genocídio desta magnitude e extensão aconteceu. Ele estabeleceu, por exemplo, organogramas da burocracia civil, da indústria, das ferrovias e das cadeias de comando em cada área sob ocupação alemã, em cada país, para saber exatamente quem recebia e dava as ordens e como o extermínio era executado em todos os seus detalhes operacionais cotidianos. Estudou também os componentes locais que facilitaram ou dificultaram a operação de extermínio, incluindo a situação das comunidades judaicas e suas reações frente ao nazismo.

Estudar o antissemitismo e o racismo alemão e europeu, suas raízes profundas, e a ideologia nazista não era suficiente para entender “como” o genocídio foi possível, ou seja, era preciso determinar, passo a passo, nome a nome, ordem a ordem, e assim por diante como, por exemplo, o zyklon B (gás letal utilizado nas câmaras de gás) chegava a Auschwitz e quem o fabricava, transportava, operava. O funcionamento dessa estrutura pôde, ao mesmo tempo, revelar com precisão a ação e a responsabilidade de cada órgão, escritório, indivíduo.

A singularidade de Auschwitz e cinco outros campos de extermínio alemães (em território polonês), concebidos para matar civis medindo a economia da morte em termos de custo/benefício, torna difícil conceber o Holocausto como um processo histórico “normal” – por isso a tendência fácil e reconfortante de atribuí-lo à “loucura” de uma nação ou de um líder, à fúria do racismo ou ao caos da guerra e assim por diante. Sem entrar nestas discussões, Hilberg mostrou o genocídio como uma construção passo a passo na qual pessoas normais como quaisquer outras realizaram tarefas corriqueiras cujo resultado final foi um genocídio.

Foram muito poucos os livros publicados no pós-guerra e menos ainda os que davam conta de entender o Holocausto. Um dos poucos exemplos é Breviaire de la haine, do historiador francês Léon Poliakov, de 1954, sem edição em português (dele a editora Perspectiva publicou, em 4 volumes, História do Anti-semitismo, e A Causalidade Diabólica, em 2 vols.).

Um testemunho do momento exato da libertação de um campo pode ser encontrado no recém-lançado A Estrada, de Vassili Grossman. Vale lembrar que o tema não era presente até os anos 1980 e 1990, quando “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, ganhou o Oscar. Mesmo o Diário de Anne Frank não despertou interesse imediato no imediato pós-guerra. Foi publicado em 1947 com uma tiragem de 1,5 mil exemplares e, nos EUA, foi inicialmente rejeitado por quase todas as editoras importantes, que o consideraram pouco atraente.

O mesmo se deu com o hoje clássico É isto um homem?, de Primo Levi. O manuscrito foi recusado em 1946 pela Einaudi e, em 1947, foi lançado com tiragem de 2,5 mil exemplares pela editora Francesco De Silva. Em 1958, a Einaudi reavaliou o livro e decidiu lançar uma tiragem de 2 mil exemplares. Foi com A Trégua e A Tabela Periódica, a partir dos anos 1960, e principalmente nos EUA, que Primo Levi iniciaria sua efetiva trajetória como escritor. A primeira edição de Primo Levi em português é de 1988, com É isto um homem?, pela Rocco. Estes dados dão uma dimensão de como o tema do Holocausto estava longe de ter a difusão atual.

No prefácio à edição de 1961, Hilberg escreveu: “A destruição dos judeus europeus ainda não foi assimilada como evento histórico”. Já na edição de 1985, lembrando os 40 anos de dedicação ao tema, anotou: “A atmosfera em que trabalhei mudou consideravelmente. Nos anos 1940 e 1950, eu copiava documentos a mão, escrevendo o manuscrito em uma mesa improvisada, digitando em uma máquina de escrever manual. Naquele tempo, o mundo acadêmico não dedicava atenção ao assunto e os editores não o recebiam bem. Na verdade, fui muito mais aconselhado a não seguir nesse tópico do que a persistir nele. Muito depois, nos mal iluminados arquivos dos tribunais de Dusseldorf ou Viena, eu ainda copiava testemunhos em um bloco de anotações, mas a sensação de isolamento já não existia. O assunto, do qual não era mais proibido falar, havia mobilizado o público”.

Ao lado de Hilberg, eu incluiria mais dois livros como chaves para compreender o nazismo: Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, que mostrou que tão importante quanto compreender o nazismo por meio de um Mengele, o médico monstro, é preciso olhar para burocratas como Eichmann, para quem receber e dar ordens de executar inocentes era “apenas” parte de uma rotina burocrática em um Estado no qual matar inocentes passou a ser a lei. A possibilidade de matar em escala industrial, sem colocar questões e problemas de consciência, a banalidade do mal, é uma das características do nazismo. O terceiro livro é The nazi doctors. Medical killing and the psychology of the genocide, de Robert Jay Lifton (sem edição em português), que estuda os mecanismos psicológicos coletivos e individuais dos que executaram o extermínio.

Para entender como um genocídio se tornou parte da história contemporânea, A Destruição dos Judeus Europeus é o ponto de partida – recordando que semana passada celebramos duas datas relacionadas: o Levante do gueto de Varsóvia, em 21 de abril (1943), e o dia da memória do genocídio armênio, em 24 de abril (1915). Na edição agora lançada em português, Hilberg incluiu no último capítulo uma referência ao genocídio dos tutsis em Ruanda em 1994 e assim conclui o livro: “A história se repetia”.

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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