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Almanaque do Pensamento completa 106 anos
PublishNews, Roney Cytrynowicz, 19/01/2018
O que significa, em 2018, manter uma publicação impressa como o Almanaque Pensamento, que tem exatas 200 páginas de previsões astrológicas e outras previsões para todos os dias do ano?

Capa do Almanaque do Pensamento 2018
Capa do Almanaque do Pensamento 2018
Almanaque do Pensamento 2018, o "Mais Completo Guia Astrológico", da Editora Pensamento-Cultrix, é provavelmente o último almanaque ainda vendido nas bancas de jornal. Está em seu 106º ano! Em sua primeira edição, para o ano de 1913, o Almanach D´”O Pensamento” era Scientifico, Astrologico, Philosophico e Literario e “ornado de numerosas gravuras”.

A edição de 2018 anuncia em sua capa Previsões Astrológicas, Horóscopo Chinês e Numerologia e oferece seções tais como: data do começo das estações; data das eclipses; fases da lua mês a mês; tábua solar (posição do sol a cada cinco dias e o signo correspondente); tabela de entrada do sol nos signos do zodíaco; como aproveitar as horas planetárias para sincronizar suas atividades importantes com as horas mais favoráveis de cada planeta, além de tábua de horário da semana de acordo com a regência planetária.

O almanaque apresenta também um guia astral de 2018 para os 365 dias do ano; “tudo o que você precisa saber sobre a lua em 2018”; tabela das luas fora de curso; tábua lunar; signos e casamento; seção “entenda o comportamento do seu chefe com a ajuda da astrologia”; horóscopo chinês; capítulo sobre os signos e a saúde, texto sobre “como os signos reagem diante de uma crise” e o tradicional calendário agrícola.

Capa do primeiro Almanach d´O Pensamento, publicado em 1913
Capa do primeiro Almanach d´O Pensamento, publicado em 1913
O almanaque (almanach ou almanak) constituiu um gênero impresso muito difundido e popular no Brasil e em outros países, atualizando e ao mesmo tempo mantendo uma tradição, um formato editorial e gráfico e uma linguagem próprias. Lançados em geral no final ou no começo do ano, os almanaques sempre apresentaram uma mescla muito peculiar de informações úteis (muito além do atual horóscopo), tais como calendário e feriados nacionais e religiosos, dias dos santos, tarifas do correio, dados agrícolas, fases da lua para o plantio e muitas outras. Os almanaques farmacêuticos apresentavam dicas de saúde e cuidados “científicos” de higiene ao lado de anúncios dos lançamentos de medicamentos. Almanaques conviveram com enciclopédias, encontrando seu espaço e seu público e havia também os almanaques enciclopédicos.

Ao mesmo tempo, os almanaques mesclavam curiosidades e passatempos, entre os quais provérbios, pensamentos, desafios, enigmas, anedotas, receitas, pequenos verbetes biográficos e de história, fábulas, poesias, fatos pitorescos e assim por diante. Era sempre uma combinação de vários níveis de informação, entre a ciência e a magia, a história e as lendas, o saber oficial e os populares. Os almanaques são como um jogo, um movimento que intercala o real e o fabuloso, escreveu Margareth Brandini Park em Histórias e Leituras de Almanaques no Brasil (Ed. Mercado de Letras); há certa verdades e reflexões sobre a atualidade, mas também o gosto do imaginário e das fábulas.

Almanaques também foram veículos de política, como o Almanaque do Socialismo ou o Almanaque do Verdadeiro Republicano. Entre os almanaques farmacêuticos, ficaram célebres o Almanaque do Biotônico Fontoura e o Almanaque Renascim Sadol, que continua sendo editado (desde 1946) pela empresa farmacêutica Catarinense e distribuído em farmácias. O Almanaque Jeca Tatuzinho foi criado por Monteiro Lobato para explicar a ancilostomose e lançar o Biotônico Fontoura. Até há pouco tempo existiam o Almanaque Abril (que falta que ele faz!) e outras edições associadas ao nome e ao conceito de almanaque.

Em muitos lugares e épocas, como nas regiões rurais, os almanaques eram a principal fonte de leitura e informação, propiciando o acesso a este universo de informações por parte de pessoas menos escolarizadas.

Mas o que significa, em 2018, em pleno século 21 (como gostam de dizer aqueles que acreditam que chegamos a um patamar “evoluído de civilização”), manter uma publicação impressa como o Almanaque Pensamento, que tem exatas 200 páginas de previsões astrológicas e outras previsões para todos os dias do ano? Nenhum dia escapa, nenhuma hora, se quisermos aproveitar bem as suas tabelas e possibilidades.

O Almanaque Pensamento oferece um sem número de tabelas, conselhos, conhecimentos para “calcular” o tempo, entender e imprimir alguma “previsibilidade” para estabilizar e acalmar o vulcão de incerteza que somos nós e é o mundo. Projeto conservador, claro, pois se trata de acalmar e enquadrar os conflitos, não de elaborá-los para alguma síntese de mudança pessoal ou transformação social. Trata-se de, individualmente, enfrentar as incertezas e surpresas do amor, do casamento, com os amigos, o trabalho, o chefe, a saúde; as previsões são baseadas nas nossas características, nossas qualidades e fraquezas. O almanaque se torna, assim, uma espécie de “guia da vida individual”.

Mas não é uma tentativa de “controlar” o tempo e, sim de preenchê-lo com menos vazio, dotá-lo de mais sentido, admitir que quase nada controlamos. E que entre razão e emoção, entre o homem e a natureza, entre o saber científico, a magia e os saberes populares, entre o ser humano e o cosmos, entre os gêneros, entre a sociedade e os políticos, o povo e o poder, a justiça e a injustiça, e assim por diante, existe uma margem de incerteza e de indeterminação com a qual temos que lidar. O almanaque imprime sentido a cada dia do ano, que fica sendo “único”.

O que encanta nos almanaques, escreveu Eça de Queiroz, organizador do Almanach Encyclopedico de 1896 e de 1897, é o “incomparável benefício de nos tornar o tempo visível e como palpável. Consideramos que um dia esquecido, não registrado no almanaque, seria absolutamente, como um negro pedaço de não-ser por onde um pedaço de nossa vida se afundaria, se iria em nada. Só o almanaque verdadeiramente nos penetra da realidade de nossa existência, porque a circunscreve, a divide em talhães regulares, curtos, compreensíveis, fáceis de desejar e depois fáceis de recordar por terem nome e quase terem forma, e onde se vão depondo, e onde vão ficando, os factos da nossa infeliz ou desgraçada história. As datas, e só elas, dão verdadeira consistência à vida e à sorte (citado no livro Do Almanaque aos almanaques, de Marlyse Meyer, Ed. Ateliê).

Pode-se pensar os almanaques, escreveu Jerusa Pires Ferreira (no livro organizado por Marlyse Meyer), como um grande fundo mais ou menos estável, ao longo dos séculos e, ao mesmo tempo, uma conexão sempre móvel e atualizável, das épocas e dos saberes que ele contém, mantendo o tradicional e aceitando o novo. Alarga-se, assim, a perspectiva de tempo. Não é apenas o tempo presente de cada leitor, mas uma conexão com outros tempos, outros ciclos, como se a leitura do almanaque inserisse o leitor em tempos muito mais remoto, distantes, criando sentidos mais fortes e duradouros, se conectando com saberes vários que incluem também a ciência. 

Hoje, 19/01/2018, leio na página de agricultura e pecuária do Almanaque Pensamento que os dias 18 e 19 são ótimos para plantar e semear flores ornamentais e comestíveis, como brócolis, couve-flor e abacaxi. Plantar acho difícil, mas vou tentar pelo menos tomar um suco de abacaxi, uma pequena missão para preencher de sentidos um dia da semana, aliás, específica e especialmente esta sexta-feira. Nas previsões do meu signo para esta semana, leio: “A máxima ‘Cada cabeça, uma sentença’ vai estar valendo para que você não se indisponha com ninguém; mantenha a calma!”. Sinceramente, taí um conselho que eu preciso de verdade todos os dias e ainda mais hoje. 

Feliz 2018 a todos!

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

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(1883-1924)
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