Publicidade
Publicidade
Cossaco ou naïf: o que é preciso para ser editor?
PublishNews, Julio Silveira, 08/12/2015
Julio Silveira: 'Acho que o que faz de nós editores é a certeza de seguir, por cima da lógica financeira, por cima da penúria cultural vigente'

“Todo editor é um burguês, já dizia Bourdieu”, declarou o editor francês Gilles Colleu em sua participação na última Primavera dos Livros, que aconteceu no último final de semana no Rio de Janeiro. A frase me bateu em um momento de reflexão pessoal/profissional. Eu andava me questionando o que é ser editor nestes dias sinistros, em termos financeiros e culturais, quando livrarias e editoras vêm fechando as portas. Era uma data redonda, propícia para parar e pensar no caminho até aqui. Quinze anos da Primavera dos Livros Literária. O que éramos há 15 anos? O que queríamos ser?

Na virada do milênio eu estava entre os que conspiravam uma “Liga” de editoras “Independentes”. O que vinha a ser “independente” não estava claro, mas tinha alguma coisa a ver com não estar comprometido com grandes grupos econômicos e, justamente por isso, não conseguir um lugar no mercado. Outra consequência de não estar ligada a grupos econômicos era o permanente aperto no caixa das editoras da Libre, a exceção de uma: Cosac & Naify.

A Cosac foi fundada no mesmo ano em que abrimos a Casa da Palavra, mas dizer que andaram em paralelo é tripudiar da geometria. A Casa da Palavra começou com capital zero, a Cosac Naify tinha pontos-de-equilíbrio (a quantidade de exemplares vendidos que paga os custos) inexpugnáveis. A discrepância não impediu alguns pontos de encontro entre as editoras, incluindo a coedição de Os miseráveis. Nestes quase 20 anos as editoras cresceram e apareceram. Hoje a Casa da Palavra está incorporada no grupo LeYa, e a Cosac Naify acaba de anunciar seu encerramento.

Foi também na virada do milênio que André Schiffrin escreveu O negócio dos livros, publicado mais tarde pela Casa da Palavra (um tanto premonitoriamente). O manifesto alertava para o fim das Editoras “de editor” solapada pelos interesses pecuniários dos grandes grupos de mídia. Incidentalmente, a parte (Michael) Naify da Cosac está ligada a um gigantesco grupo de mídia, mas a empresa sempre foi uma editora “de editor”, nominalmente: Charles Cosac. Foi ele — em concerto com Augusto Massi, Cassiano Elek Machado, Florence Müller, Bernardo Ajzemberg, entre tanta gente brilhante — o esteio da editora que leva seu nome, desdenhando solenemente de toda aquela pressão pelo resultado econômico de que falava Schiffrin. Em uma entrevista impromptu ele culpou a alta do dólar, custos gráficos, prazos de livrarias, baixas vendas. Puro despiste. Não foi o súbito encontro da/do Cosac com o imperativo econômico que fez a editora fechar.

“Ao meu ver, uma editora deve existir exclusivamente para alimentar um projeto cultural e quando eu senti o projeto Cosac Naify ameaçado, eu julguei que seria o momento correto para cessarmos nossas atividades. Como o fiz. Dessa maneira, eu perpetuo um sonho belíssimo do qual tantos participaram e ajudaram a construir.” A carta aos leitores esclarece: o sonho continua, o que acabou foi a realidade.

Charles Cosac desanca Bourdieu: é o editor anti-burguês. Da burguesia seria, se tanto, o épatteur. Sergio Augusto o equipara ao esteta Franco Maria Ricci, que imprime sobre folhas feitas à mão. Eu prefiro compará-lo a outro editor italiano: Giacommo Feltrinelli. Em comum: são muito ricos; mantiveram-se incólumes contra a corrente; e editavam com a vida. Feltrinelli, por sinal, deu a vida pelas ideias, literalmente: morreu em uma ação terrorista — onde era ele o terrorista. Ser milionário e comunista eram dois lados de sua radicalidade.

Nestes tempos de vacas esquálidas e desprezo oficial à cultura e à educação, algumas editoras e editores se reinventam para sobreviver, ou mais simplesmente “cessam as atividades”. As listas de mais vendidos confirmam o apocalipse de Schiffrin: aglomeradas, são cada vez menos editoras, publicando sobre cada vez menos assuntos (e vendendo menos livros). A internet, que prometia dar voz à diversidade, acabou ironicamente ocupando os primeiros lugares, com youtubers que converteram um pequeno porcentual de seus milhões de seguidores em leitores.

“Um editor independente é aquele que concebe sua política editorial com toda a liberdade, de maneira autônoma e soberana: ele não é um porta-voz da expressão de um partido político, de um grupo de comunicação ou de uma empresa” afirma o manifesto dos editores independentes, subscrito pela Libre. Até aí é muito bonito, e fácil. Mas o texto prossegue: “a composição de capital de uma editora e a identidade de seus acionistas informam sobre a independência do editor”. Como ser independente quando sequer se tem um capital composto? Como alguém pode se dar o direito de ser burguês ou artista com contas a pagar? A Cosac & Naify tinha capital (uns R$ 140 milhões, parece), porém o seu “resultado do exercício” era um sonho. O mesmo “sonho” que Charles Cosac quer perpetuar ao fechar sua empresa, e que mantém abertas as editoras da Libre (mesmo porque a maioria não tem capital).

Saí daquele “debate sobre a bibliodiversidade” um tanto atarantado. Para combinar, era noite, chovia…

Mas eu voltei dois dias depois, e o clima era bem melhor. Literal e figurativamente: fazia um sol gentil, e nas alamedas da Primavera Literária me empanturrei de livros. Revi editoras de quem fui companheiro na primeira Primavera, e descobri nova gente, dando nova forma ao sonho de que falava Charles Cosac.

Acho que está aí o que nos faz editores. A certeza de seguir, por cima da lógica financeira, por cima da penúria cultural vigente. Enfrentar e seguir em frente. Com o ímpeto de um cossaco, com a fé de um naïf.

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

Publicidade

BR75

A BR75 desenvolve soluções personalizadas de criação e edição de texto, design gráfico para publicações impressas e em outras mídias e coordena sua produção editorial. Cuidamos de todas as etapas, conforme as necessidades e características de seu projeto, e sua empresa ganha em eficiência e qualidade. Quer saber mais? Fale com a gente ou agende uma visita!

Leia também
Livrarias italianas podem abrir, mas não querem; letãs querem abrir no fim de semana, mas não podem; francesas não podem vender, mas também não deixam a Amazon tomar seu espaço: como o livro europeu se vira com o vírus
Em sua coluna, Julio Silveira relata como Portugal e em especial, editores e livreiros, estão lidando com a pandemia da covid-19
Julio Silveira anda dividindo seu tempo entre o Brasil e Portugal. Da 'Terrinha', resolveu começar uma série de artigos para a sua coluna no PublishNews. Nesse primeiro, conta como é o negócio do livro em terras lusas.
Para Julio Silveira, o primeiro passo para sair da crise é afastar-se do que não funciona
Em sua coluna, Julio Silveira faz sua análise da atual crise do mercado editorial e conclui: 'Se é forte a crise, mais forte é o livro'
Publicidade

Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.

Outras colunas
Em seu artigo, Gustavo Martins de Almeida fala sobre a autorização de uso de obras encontradas na internet
Podcast do PublishNews conversou com Jaime Mendes, historiador que escreveu, recentemente, dois artigos para o PN analisando o mercado editorial brasileiro
Toda semana você confere uma nova tira dos passarinhos Hector e Afonso
Neste episódio especial do PublishNews Entrevista, André Argolo reuniu alguns de seus entrevistados para compartilharem pensamentos sobre o mundo, suas preocupações e sonhos
Podcast do PublishNews conversou com Leonardo Garzaro e Leonardo Pinto Silva, dois dos nomes por trás da editora que pretende trazer títulos inéditos e focar na literatura nórdica
O verdadeiro valor de uma biblioteca está no bibliotecário. O livro não é só uma capa, mas sim um universo.
Marina Colasanti
Escritora brasileira
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Você está buscando um emprego no mercado editorial? O PublishNews oferece um banco de vagas abertas em diversas empresas da cadeia do livro. E se você quiser anunciar uma vaga em sua empresa, entre em contato.

Procurar

Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.

Procurar

O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?

Assinar