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O fascínio de passear na Biblioteca Nacional
PublishNews, 13/01/2012
O fascínio de passear na Biblioteca Nacional

Estava me preparando para escrever sobre as exposições da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, especialmente “Desenhar para sonhar: histórias em quadrinhos brasileiros” e “Bíblias do Mundo – Testemunhos de arte e fé”, organizada a partir do acervo da Divisão de Obras Raras. No caso das bíblias, além da importância histórica das edições que definiram o cânone do texto, inclusive em português, é interessante observar a beleza e a engenhosidade do design (incluindo a tipografia) das páginas que têm a versão do texto em até quatro línguas. Aliás, várias das obras expostas têm soluções editoriais e detalhes gráficos preciosos (informações sobre as exposições no site www.bn.br).

Ao entrar no prédio da Biblioteca fiquei surpreso com o número de turistas que circulavam pelo saguão e pela escadaria principal, e que não estavam lá necessariamente para ver as exposições. Turistas brasileiros e estrangeiros de todas as partes, famílias com jovens e crianças. Espantado e curioso, fiquei observando o movimento e era visível a curiosidade das pessoas que se fotografavam em várias situações e combinações com os ornamentos do prédio. É verdade que a vizinhança do Museu de Belas Artes e do Teatro Municipal, recém-restaurado e com a pintura reluzindo ouro – entre outras infindáveis atrações turísticas do centro Rio –, ajuda, mas logo vi que este turismo destinava-se à própria Biblioteca.

A BN oferece visitas guiadas gratuitas (em janeiro; nos outros meses custa R$ 2,00 por pessoa) para grupos, sempre lotadas nas férias, e havia dezenas de pessoas perguntando e agendando para os próximos dias e semanas. Aproveitando uma desistência, integrei um grupo. O mais interessante, tanto do ponto de vista da BN como do público, que incluía vários jovens (desculpem, é que fui jovem no século passado), é que a curiosidade das pessoas era de fato conhecer a instituição biblioteca “por dentro”, olhar as imensas fileiras de estantes com livros (aliás, que belo espetáculo!), ver de perto os trabalhos realizados, conhecer quem trabalha e pesquisa, entrar nas salas de manuscritos e mapas, de obras raras, de depósito legal e assim por diante. Afinal, para a grande maioria do público, que não frequenta o local como consulente ou pesquisador, o passeio é talvez a única oportunidade de conhecer por dentro a BN.

Não deixa de ser curioso esse lugar de turista em uma biblioteca, olhando turisticamente, por exemplo, as pessoas trabalhando na seção de depósito legal ou, então, os consulentes nas mesas de pesquisa. Mas fiquei um tanto constrangido enquanto o grupo olhava a sala com dezenas de consulentes que, ao mesmo tempo, olhavam para nós, troca de olhares inusitada, turistas curiosos sobre leitores e pesquisadores e estes, por sua vez, talvez curiosos sobre o olhar dos turistas...

Fiquei em dúvida se, além do interesse do público em geral em conhecer a biblioteca “por dentro”, também havia certa ideia de visitar – como em um museu de arqueologia ou história natural – um acervo associado a uma cultura material antiga, milenar, diante do qual cada um pode fantasiar com o que lhe ocorre em imagens livres; eu, por exemplo, voei para a biblioteca medieval de O nome da rosa, para a história da Biblioteca de Alexandria ou para a (existente) biblioteca da Universidade de Bologna. Bibliotecas do porte e beleza da BN certamente evocam imagens e associações culturais fortes.

Mas o que me ocorreu com mais intensidade, ao olhar para cima e ver o espetáculo de vários andares com infinitas estantes cheias de livros arrumados, é que provavelmente nós acreditamos que ali está guardado e concentrado de verdade “todo” (tanto quanto possível) o conhecimento (ou seu registro) acumulado há séculos sobre o mundo. E isto certamente exerce um fascínio e uma atração que vai muito além da nossa esfera racional; emociona quando vislumbramos a biblioteca, material e impressa, da aventura do conhecimento humano na Terra. Arrisco dizer que esse olhar para “cima” (para o cosmos, lembrando o historiador Carlo Guinsburg no ensaio “O alto e o baixo: o tema do conhecimento proibido nos séculos XVI e XVII”, em Mitos, emblemas, sinais) acentua a sensação de desafio, plenitude (perigo, poder...) e vastidão do conhecimento.

Em que outro lugar, instituição ou museu experimentaríamos uma sensação equivalente? Talvez um dia seja possível segurando nas mãos um nanochip, mas hoje nem os jovens digitais do século 21 acham isso; os do grupo em que eu estava ficaram visivelmente admirados ao ver o imponente labirinto de estantes (e uma wikipedia está a anos-luz dessa experiência racional e sensorial). Talvez existam ainda muitas outras motivações e seria produtivo especular sobre elas, também como forma de saber o que o público pensa e imagina sobre uma biblioteca.

É animador saber que a BN faz parte há anos do circuito turístico e que as visitas guiadas são disputadíssimas (elas existem há sete anos, me informaram). A presença de turistas é sempre estimulante para uma cidade, seus habitantes, instituições e ruas, enriquece nossa relação cotidiana e nosso olhar sobre o banal. Quantas vezes paramos, por exemplo, para ver o que um turista está olhando? Em um instante, o banal pode se tornar extraordinário e maravilhoso.

Indagar o que os turistas estão olhando e querem conhecer na Biblioteca Nacional pressupõe, apenas como início de conversa, que os labirintos de livros da BN estão cheios de mistérios, fantasias, imaginações, possibilidades e descobertas que vão além dos usos dos que já a conhecem e frequentam. Passear por esses labirintos, fantasiando abrir infinitas páginas de livros, é arriscar-se em uma aventura cheia de riscos racionais e afetivos, uma desafiadora escalada pela aventura sem limites do conhecimento e da imaginação humana.

(A Biblioteca Nacional fica na Avenida Rio Branco, 219, no centro da cidade do Rio de Janeiro - informações sobre as visitas guiadas em http://www.bn.br)

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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Irineu Franco Perpétuo
Tradutor brasileiro
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