
As escolas de samba cariocas já definiram os seus enredos para o Carnaval 2027 e a literatura vai, mais uma vez, cruzar a Sapucaí. Personagens, histórias e ideias que só existem em livros serão transformados em samba no pé, fantasias e alegorias pelas comunidades.
Na Unidos da Tijuca, o enredo será a história mirabolante de A cabeça do santo, da escritora cearense Socorro Acioli. A Unidos de Vila Isabel também vai partir de um romance, Torto arado, fenômeno editorial de Itamar Vieira Jr., baiano radicado no Rio de Janeiro.
Já a Beija-Flor de Nilópolis voltará quase três décadas depois ao universo da escritora e pajé marajoara Zeneida Lima, aos 92 anos, enquanto a União de Maricá, estreante no Grupo Especial, escolheu o legado do antropólogo, educador e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997) para brigar pelo título de campeã.
Socorro Acioli na Tijuca e Itamar Vieira na Vila Isabel
Após homenagear Carolina Maria de Jesus (1914-1977) no Carnaval 2026, a Unidos da Tijuca continua de olho na estante. Desta vez, porém, criará as suas fantasias inspirada no romance A cabeça do santo (Companhia das Letras), publicado em 2014 e um dos romances brasileiros de maior circulação dos últimos anos.
No livro de Socorro Acioli, Samuel chega à pequena cidade cearense de Candeia depois de uma longa viagem para cumprir uma promessa feita à mãe. Sem ter onde ficar, encontra abrigo dentro da cabeça oca e abandonada de uma enorme estátua de Santo Antônio. É ali que descobre uma capacidade insólita: consegue ouvir as preces que mulheres apaixonadas dirigem ao santo casamenteiro.
A história nasceu a partir de uma imagem real, a cabeça de uma gigantesca estátua de Santo Antônio que até hoje permanece separada do corpo em Caridade, no sertão do Ceará. A própria Socorro visitou recentemente o barracão da escola na Cidade do Samba para conhecer alegorias, figurinos e protótipos do desfile, traduzido pelo carnavalesco Lucas Milato.
E se a Tijuca vai ao Ceará, a Unidos de Vila Isabel seguirá rumo à Chapada Diamantina, na Bahia. A escola escolheu para o próximo Carnaval o enredo Torto arado – Sobre a terra há de viver sempre o mais forte, baseado no best-seller de Itamar Vieira Jr., publicado pela Todavia em 2019.
O livro acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores de uma fazenda no sertão baiano, a partir de um acidente ocorrido ainda na infância. Ao contar a trajetória das duas e da comunidade de Água Negra, Itamar constrói uma narrativa inebriante sobre terra, ancestralidade, trabalho e desigualdade, na qual se destaca a presença do Jarê, religião de matriz africana tradicional da região.
É justamente essa dimensão que ganhará protagonismo no Carnaval, desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, com pesquisa de Vinicius Natal, o enredo vai abordar a luta quilombola sob a perspectiva encantada do Jarê, ainda inédito como tema central de um desfile na Marquês de Sapucaí.
Vencedor dos prêmios LeYa, Jabuti e Oceanos, Torto arado tornou-se um fenômeno raro na ficção brasileira contemporânea e ultrapassou a marca de 1 milhão de exemplares vendidos. O romance abriu a chamada Trilogia da Terra, completada por Salvar o fogo (2023) e Coração sem medo (2025).
O reencontro de Zeneida Lima com a Beija-Flor
Na Beija-Flor de Nilópolis, literatura e Carnaval têm um antigo carretel de linha para desenrolar. A escola levará para a Sapucaí o enredo Zeneida: O sopro do pó de louro, homenagem à pajé, escritora, poeta e ambientalista marajoara Zeneida Lima, aos 92 anos.
Será um reencontro quase 30 anos depois de uma primeira parceria que rendeu um troféu à escola de Martinho da Vila. Em 1998, o livro O mundo místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, publicado originalmente em 1992, inspirou o enredo Pará, o Mundo Místico dos Caruanas nas Águas do Patu-Anu. A Beija-Flor foi campeã daquele Carnaval.
Agora, a escola retorna a esse universo colocando a própria autora no centro do desfile. Em vez de apenas buscar nos escritos de Zeneida a matéria para contar os encantamentos do Marajó, a Beija-Flor pretende percorrer sua trajetória e sua atuação na preservação dos saberes ancestrais e em projetos sociais e ambientais da região.
Darcy Ribeiro volta à avenida que ajudou a criar
Em sua estreia no Grupo Especial, a União de Maricá abrirá os desfiles de 2027 com Utopia Brasil: Darcy Ribeiro, homenagem ao antropólogo, educador, escritor e indigenista mineiro. Darcy foi um dos responsáveis pela criação do Sambódromo do Rio, inaugurado em 1984 e cujo nome oficial é Passarela Professor Darcy Ribeiro. Mais de quatro décadas depois e a sua vida e ideias serão transformadas em enredo no palco que ajudou a tirar do papel.
A relação com Maricá também não é casual. Foi na cidade fluminense que Darcy concluiu O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, uma de suas obras fundamentais, publicada em 1995 após décadas de elaboração. No livro, o antropólogo investiga a formação histórica e cultural do país a partir do encontro, dos conflitos e das desigualdades entre as diferentes matrizes que formaram a população brasileira.
Desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira, com pesquisa do enredista Mauro Cordeiro, Utopia Brasil: Darcy Ribeiro vai percorrer as diferentes faces de Darcy e terá como fio condutor uma ideia que atravessou sua produção intelectual e sua atuação pública: a possibilidade de construir um Brasil mais justo, democrático e consciente de sua identidade.
A escola de Maricá será a primeira a entrar na Sapucaí no domingo, 7 de fevereiro. E há uma imagem difícil de resistir: Darcy Ribeiro, que passou boa parte da vida tentando compreender e imaginar o Brasil, voltará simbolicamente à avenida que leva seu nome para ser contado por uma das manifestações culturais que talvez melhor expressem a complexidade desse mesmo país.






