Noite de Paraty sofre com um novo apagão durante a Flip
PublishNews, Guilherme Sobota, 24/07/2026
Falta de energia se repete na cidade três anos depois de acontecer em 2023; programação de casas parceiras foi afetada

Durante o dia, Casa PublishNews teve programação disputada! | © Francio de Holanda / PublishNews
Durante o dia, Casa PublishNews teve programação disputada! | © Francio de Holanda / PublishNews

PARATY (RJ) — Aconteceu de novo: três anos depois do apagão que deixou Paraty às escuras durante a Flip, em 2023, faltou energia elétrica na cidade na noite desta quinta-feira (23), perto das 20h. Enquanto que a programação principal no Auditório da Matriz e no telão da praça seguiu sem alterações, por conta do uso de geradores, algumas casas parceiras viram suas agendas se transformarem em encontros à luz — não de velas — mas de celulares. Ainda na noite de quinta, a Enel Rio informou que havia ocorrido um desarme na linha de distribuição de Mambucaba/Paraty, afetando clientes da região, e que trabalhava de forma emergencial para corrigir a situação. A luz voltou perto da 0h.

Nas ruas do Centro Histórico, a Casa Latina — iniciativa da Lote 42 — recebia talvez seu evento mais importante desta Flip, o lançamento do livro Mareadas na maré: diário íntimo e alucinado de uma revolução feminista (Lote 42), com a presença das autoras argentinas Cecilia Palmeiro e Fernanda Laguna — co-fundadoras do movimento Ni Una Menos — falando sobre o livro e sobre os protestos das ruas e das frentes artísticas que geraram a histórica Maré Verde feminista no país vizinho, com a mediação da escritora Amara Moira. Elas estavam no início da conversa quando a luz caiu.

"O jeito foi seguir com luz de celular", conta o editor e anfitrião João Varella. "Eu, Cecilia Arbolave, Pedro Meira Monteiro, parte do público e a própria Cecilia Palmeiro usando o celular dela para manter de pé a programação. Era um dos momentos mais importantes pra gente e a falta de energia atrapalhou também a festa que iria acontecer logo em seguida. A mesa seria sucedida de uma festa latina, que é uma característica da Casa, que está todas as noites com festa, e não deu certo ontem. É frustrante para quem já vem à Flip há muito tempo, que é o nosso caso. Em 2023, estávamos na Casa Pagã e teve o apagão, no mesmo dia, na mesma quinta-feira, apesar de ser em outra época do ano, que diziam que demandava mais energia e com outras questões climáticas. Dessa vez foi em pleno inverno e teve apagão."

Com luz e sem luz: Casa Latina teve programação afetada pelo apagão | © Lote 42
Com luz e sem luz: Casa Latina teve programação afetada pelo apagão | © Lote 42

Presença na Flip desde 2014, Varella diz perceber que a infraestrutura da cidade não acompanha o crescimento do número de eventos durante a Festa. "As demandas da população são outras hoje em dia. É uma pena que um evento tão legal como a Flip venha com esse lado amargo da coisa. Enfim, espero que a Enel e todos os responsáveis nos dêem condições de fazer uma bonita festa latina e literária nos próximos dias."

Situação parecida ocorreu na Casa Acaso. O escritor português José Luiz Peixoto autografava seus livros após uma fala e teve que continuar às escuras. Em seguida, Dadá Coelho concluiu o sarau Dadaísmos também sem luz. "Em vez de a gente acender velas, o pessoal acendeu os celulares, tinha uma luz de emergência aqui e a coisa rolou", explica Julie Fank, uma das organizadoras da casa. "Mas a gente deu sorte, porque a Dadá Coelho segurou na unha. Mas o apagão desestruturou a nossa comunicação interna. Mas olhando para o lado positivo das coisas, foi bom que o que estava acontecendo era um sarau e a gente conseguiu de alguma maneira manter um grau intimista das coisas ali. Todo mundo entrou no jogo e ficou tranquilo com isso. Até o próprio José Luiz Peixoto acabou participando do sarau depois porque ele estava aqui e deu tudo certo."

Na Casa Estante Virtual, a falta de luz não atrapalhou a programação de conteúdo, mas sim o happy hour programado para a noite. "O apagão coincidiu justamente com o nosso happy hour, que estava planejado para durar cerca de três horas", diz ao PublishNews o CEO da Estante Virtual, André Palme. "Devido à falta de energia, o evento foi consideravelmente reduzido. Chegamos a permanecer no local com a luz apagada, mas a experiência foi bastante atípica, especialmente pela ausência do som e dos recursos que havíamos preparado. Embora isso não tenha comprometido a nossa programação de conteúdo, afetou o momento destinado a receber o mercado e os autores."

Outras casas — como a Casa Sesc, que recebia uma performance poética de Arnaldo Antunes, e a Casa Record, que ouvia Djamila Ribeiro — contavam com geradores, e as programações seguiram normalmente.

Casa PublishNews

A Casa PublishNews recebeu recorde de público com a participação do professor e ex-deputado federal Marcelo Freixo — em Paraty para divulgar o livro Viver é perigoso (Planeta), escrito com Bruno Paes Manso — e do jornalista Jamil Chade, lançando o novo Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana (Nós). A ideia da mesa era discutir a democracia a partir dos livros — o modelo da mesa foi de uma entrevista de mão dupla, em que os dois convidados trocavam perguntas e questões.

Freixo e Jamil Chade cederam seus assentos na Casa para poder entrar mais gente | © Francio de Holanda
Freixo e Jamil Chade cederam seus assentos na Casa para poder entrar mais gente | © Francio de Holanda

"Eu não me sinto no direito de dizer 'deixa a vida me levar', como diz meu amigo Zeca Pagodinho", disse Freixo. "Porque hoje, no Rio de Janeiro, tem pelo menos quatro milhões de pessoas que não vivem sob a Constituição de 1988, por uma razão: a presença e o controle das milícias. Eu fui eleito naquele ano da CPI das Milícias, e o debate sobre o tema ganhou hegemonia absoluta apesar das resistências do processo. Ao mesmo tempo, vemos segmentos inteiros da população abandonados. E 'abandonados' significava realmente abandono — comunidades inteiras sob controle paralelo. E aí a pergunta que eu faço sobre a democracia é essa: como uma sociedade prepara sua própria população para resistir ao desmonte da democracia?"

Para Jamil, não é só a classe média ou grupos específicos que precisam ter a percepção de que a democracia pode ruir. "A infraestrutura da democracia não é uma instituição abstrata: a infraestrutura da democracia somos nós. Nós! Qualquer um de nós, e não apenas um ministro do STF ou um ministro de Estado. Todos nós somos agentes da democracia e temos a obrigação de trabalhar por ela."

Jamil também comentou sobre a "guerra cultural" empreendida pela extrema direita em várias partes do mundo. "Na prática, isso se traduz em atos concretos: nos Estados Unidos, mais de 10.000 livros foram banidos de bibliotecas públicas e escolas. Isso não é um mero detalhe; são parcelas inteiras da cultura sendo apagadas. A grande derrota acontece quando o poder estabelecido deixa de ter limitações. Isso faz parte de um projeto muito bem organizado e com muito dinheiro. Essa disputa passa necessariamente pela cultura. O mundo cultural não é só um espaço de diversão ou de lazer; é um espaço de disputa profunda. Até o WhatsApp ou uma Escola de Samba disputam narrativa diariamente. A desinformação, portanto, não é um mero 'erro jornalístico' — é um ato político deliberado. E temos eleições decisivas acontecendo no mundo todo. O grande desafio da comunicação hoje passa por enfrentar esse projeto de desinformação", concluiu.

Mais cedo, outro painel reuniu produtores de grandes eventos literários com o secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura, Fabiano Piúba. Dante Cid, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), que organiza a Bienal do Livro Rio, disse que é contagiante ver a paixão pela leitura se concretizar em momentos de conversa e no sentimento de pertencimento que o leitor experimenta ao fazer parte de uma comunidade. "Os eventos literários trazem esse ponto presencial insubstituível, permitindo sair do ambiente puramente virtual e encontrar pessoas com interesses comuns. No Sindicato, junto com parceiros da Bienal no Rio de Janeiro, buscamos criar espaços imersivos para que o leitor vivencie a literatura por diversos sentidos. Isso ajuda a aumentar a base de leitores no país — um desafio urgente, já que, segundo pesquisas como a Retratos da Leitura, apenas metade da população brasileira se declara leitora."

Piúba comentou a criação do Mapa de Eventos Literários pelo MinC. "Os dados preliminares apontam para mais de 500 eventos literários cadastrados (são 73 em São Paulo, 71 no Rio Grande do Sul, 68 na Bahia, 58 no Rio de Janeiro...). E esse mapa ainda está em expansão — só no Rio Grande do Sul, por exemplo, sabemos que existem mais de 200 feiras. Existe uma verdadeira 'topografia poética e literária' espalhada pelo Brasil. As feiras começaram lá atrás com a Feira do Livro de Porto Alegre — a "feira-mãe" com mais de 70 anos —, expandiram-se pelas Bienais de São Paulo e Rio, e ganharam um contorno democrático e descentralizado com a Flip e eventos como a Flica em Canudos (Bahia) e as feiras do sertão do Ceará, entre muitas outras."

Mauro Munhoz, cofundador da Flip e diretor da Associação Casa Azul, que organiza a Festa há 24 anos, também mencionou que a palavra é um instrumento de poder e de troca profunda. "A própria etimologia da palavra conversa significa 'dar voltas juntos'. O valor central desses festivais está no encontro presencial de corpos e na troca verdadeira. Quando a Flip nasceu em Paraty, aprendemos muito com a cultura local e suas festas tradicionais. Inspirados pelo conceito das festas populares e conversando com curadores internacionais (como os do Hay Festival), percebemos que o formato não podia ser um festival rígido e frio, mas sim uma Festa Literária integradora — focada no território, na ancestralidade e na valorização dos autores. Em Paraty, por exemplo, o evento é tão integrado ao território que hoje pousadas de cidades vizinhas (como Cunha) ficam lotadas e transportam leitores diariamente. É a exercitação do encontro humano e do interesse genuíno pelo outro através da literatura", comentou.

Para Dante Cid, a pandemia acelerou uma mudança fundamental no mercado editorial: os editores e livreiros perceberam que seu papel vai muito além de imprimir papel ou manter uma loja aberta. "Hoje, as editoras e livrarias precisam ser agentes culturais ativos. Elas devem promover debates, criar clubes de leitura, oferecer programação educativa e engajar o leitor por meio de experiências significativas. Se os eventos literários se limitassem a ser meros "balcões de venda de livros", estariam fadados ao fracasso."

Metadados

No fim do dia, outro painel reuniu especialistas do mercado editorial em metadados e pesquisas para falar sobre o estado atual do formato no Brasil e nos países da América Latina. Para Ricardo Costa, CEO da MVB, a questão principal sobre o assunto não é custo; é a falta de conhecimento e a resistência à mudança. "É um mercado tradicional que operava da mesma forma há 50 anos. Já ouvi em livrarias: 'Não preciso de sistema de metadados, tenho o 'Joãozinho' aqui que digita os livros na mesa dele todo dia'. Existe uma rejeição cultural a tabelas, padrões e gestão de dados."

Marifé Boix-García — vice-presidente da Feira do Livro de Frankfurt para a América Latina e o Sul da Europa — explicou que vem desenvolvendo projetos no México, agora no Chile, no processo do país ser convidado de honra da Feira de Frankfurt. "Os temas que levamos sempre passam por metadados, distribuição e uso estratégico de dados. Na Europa e América do Norte, os metadados estão cerca de 10 anos à nossa frente. Na América Latina, embora as pessoas comecem a entender a importância, falta profissionalização. O preenchimento de metadados muitas vezes fica a cargo de estagiários ou do setor comercial básico, sem que o valor estratégico do metadado para a venda seja realmente compreendido."

Luiz Gaspar, diretor de pesquisas da Nielsen BookData, comentou que a empresa tem um estudo para medir o impacto do preenchimento completo dos campos de metadados nas vendas de livros. No Brasil, títulos com alto nível de preenchimento de metadados (cerca de 18 campos preenchidos) vendem, em média, duas vezes mais do que livros com dados incompletos. No México, as análises cruzadas indicam um impacto de até quatro vezes mais vendas.

A programação da Casa PublishNews continua nesta sexta-feira (24) e no sábado (25)! Confira a agenda completa:

Sexta-feira (24)

10h30 - 11h15: MULHERES EM TRÂNSITO: SOLIDÃO, DESLOCAMENTO E PERTENCIMENTO NA FICÇÃO BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

  • Andressa Tabaczinski, médica psiquiatra, editora e publisher na Oito e Meio
  • Fernanda Hamann, escritora e psicanalista
  • Flávia Iriarte, editora e fundadora do projeto Carreira Literária
  • Mediadora: Isabel Gemaque, bacharel em direito e letras, revisora e escritora

12h - 12h45: CLASSE, RAÇA E MASCULINIDADE EM CRISE NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA

  • Airton Souza, historiador, professor e escritor
  • Mauricio Mendes, médico, escritor e mediador de clubes de leitura
  • Mediadora: Charlene Ximenes Arcanjo, historiadora, professora e editora

13h - 13h45: LITERATURA PELA NEUROCIÊNCIA: QUEM LÊ VIVE MELHOR?

  • Cristiane Morandin, médica e escritora
  • Leandro Teles, neurologista, escritor e consultor
  • Mediador: Bruno Barbosa, médico, doutorando em letras e criador de conteúdo literário

14h-14h45: MARKETING E DADOS: DESAFIOS E NOVAS ESTRATÉGIAS PARA ALCANÇAR NOVOS LEITORES

  • Luiz Gaspar, diretor de pesquisas da Nielsen BookData
  • Lulie Macedo, diretora de marketing da editora Todavia
  • Mariana Kaplan, diretora de marketing da Sextante
  • Sabrina Generali, diretora de marketing da Multiverso das Letras
  • Mediadora: Brisa Espinheira, Gestora comercial do Publishnews

15h - 16h: POR QUE AS RELAÇÕES IMPORTAM (TANTO) NAS EMPRESAS?

  • André Palme, CEO da Estante Virtual
  • Antônio C. Carvalho, economista, palestrante e escritor
  • Carol Romano, psicanalista e especialista em cultura organizacional e liderança
  • Wendel Almeida, head de estratégia na Catavento Distribuidora
  • Mediador: Bruno Mendes, sócio do PublishNews

16h - 16:45h : LITERATURA EM VOZ ALTA: INTERPRETAÇÕES LITERÁRIAS EM ÁUDIO

  • Gustavo Falcão, ator, diretor, produtor e narrador
  • Maria Manoella, atriz
  • Roberto Bürgel, compositor, escritor, ator e narrador
  • Mediadora: Vivian Vergal, produtora de audiolivros na Companhia das Letras

17h - 18h: MEU LIVRO, MEU ESTILO: POR QUE LER ESTÁ EM ALTA

  • Daniel Pinsky, sócio-diretor da Editora Contexto e Editora Labrador
  • Luciana Borges, diretora comercial do Grupo Companhia das Letras
  • Luciano Monteiro, vice-presidente de comunicação da CBL
  • Mediador: Daniel Lameira, diretor criativo na Seiva

Sábado (25)

10h30 - 11h15: BIBLIOTECA SEM FRONTEIRAS

  • Carolina Pavanelli, consultora da plataforma LeiaSP
  • Marcelo Gioia, country manager da Bookwire Brasil
  • Rafael Lunes, presidente do Instituto para a Democratização da Leitura Digital (IDLD)
  • Mediador: Jonatas Eliakim, head de customer experience na Bookwire Brasil

12h - 12h45: ENTREVISTA DE MÃO DUPLA

  • Miriam Leitão, jornalista, escritora e membro da Academia Brasileira de Letras
  • Uirá Machado, editor da CasaFolha e escritor

13h - 13h45: FRONTEIRAS DA INVENÇÃO: ESCRITA E CRIAÇÃO FEMININA

  • Ana Victoria Almeida, roteirista e escritora
  • Letícia Linton, escritora e empresária
  • Sofia Camargo, assistente editorial na Primavera Editorial e Great People Books
  • Mediadora: Mariana Moura, pesquisadora do Grupo de Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (GELBEC)

14h - 15h: POESIA: DESAFIOS DE EDITAR — E VENDER — VERSOS NO BRASIL

  • Alice Sant'anna, poeta e editora na Companhia das Letras
  • Cide Piquet, poeta, tradutor e editor na Editora 34
  • Jorge Sallum, publisher na Editora Hedra
  • Mediadora: Sheyla Miranda, coordenadora editorial da Livraria Megafauna

15h - 16h: O TEMPO INVISÍVEL DAS COISAS: O PASSADO QUE IMPRIME MARCAS NA ESCRITA E NA SOCIEDADE

  • Cornélia Wendel, médica e escritora
  • Daniella O. Franken, escritora
  • Paula Caleffi, doutora em história e geografia da América e escritora
  • Mediadora: Malu Poleti, editora-executiva da Planeta

16h - 16h45: IDENTIDADE E PROTAGONISMO: ESCREVENDO NOSSAS HISTÓRIAS

  • Lucas Barros, criador de conteúdo literário e escritor
  • Kaio Phelipe, escritor e editor
  • Mediadora: Monica Ramalho, editora-assistente do PublishNews

17h - 18h: O OFÍCIO DE INVENTAR MEMÓRIAS: PESQUISA HISTÓRICA E A LIBERDADE DO ROMANCISTA

  • André Caramuru, tradutor, ensaísta, romancista e poeta
  • Jacques Fux, escritor e pesquisador
  • Roberta Nunes, escritora e pesquisadora
  • Mediadora: Luiza Del Monaco, editora e fundadora da Pormenor
[24/07/2026 10:25:59]