
PARATY (RJ) — Devagar, mas não lentamente, as ruas de Paraty vão se abarrotando de gente. Os encontros, ruidosos e marcados por abraços efusivos, se multiplicam a cada esquina. Vista de longe, a livraria da praça concentra uma pequena multidão por metro quadrado, enquanto pilhas de livros desaparecem num piscar de olhos. Eis a mágica da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que contagiou um país, produzindo tantas outras “Flis” para leitores de todos os sotaques. O primeiro dia de sua 24ª edição, curada pela editora e crítica literária Rita Palmeira, abriu nesta quarta-feira (22) o apetite de um punhado de leitoras e leitores ávidos para conhecer mais.
Às 19h35, sob a escuta atenta da plateia e seguindo a tradição, versos da poeta homenageada ressoaram no Auditório da Matriz e no telão da praça, seguida por uma fala de boas vindas do diretor artístico do evento, Mauro Munhoz. “Ler é um exercício de presença, exige imaginação, escuta e disponibilidade para acompanhar experiências diferentes das nossas”, disse o anfitrião, antes de derreter-se em agradecimentos aos moradores de Paraty e puxar Rita para o centro das atenções.
“É um lugar comum dizer que não se constrói uma curadoria sozinha, mas é a mais cristalina verdade. Vocês vão enjoar de me ver aqui nos próximos dias!', disparou a carioca. Para ela, é certo e, ao mesmo tempo, impreciso afirmar que o curador dá o tom da festa. Afinal, eles (ultimamente, elas) ficam à frente da disputada programação por um, dois anos e, segundo Rita, quem faz a Flip acontecer, os autores e leitores, permanece. E se renova.
A poeta homenageada Orides Fontela (1940-1988) foi citada — “sem o duro labor de muita gente" — quando Rita agradeceu à dedicação de sua equipe e pela acolhida que o evento mais charmoso da literatura brasileira recebeu, mais uma vez e muito bem, dos paratienses. “Todo mundo sabe que festa boa é festa cheia", assinalou, em um texto à altura da sua missão. “Sou grata a quem fez da Flip a Flip", lembrando dessa construção coletiva e anual, feita por gente como os caiçaras e a inglesa Liz Calder, cofundadora da Flip, que este ano não pôde viajar até cidadezinha histórica.

Durante a mesa de abertura — Entra furtivamente a luz, com uma performance inédita da poeta e ensaísta Marília Garcia e um resumo de quem foi Orides sob a ótica do crítico literário Augusto Massi, seu amigo e editor — foi distribuído gratuitamente o livreto Lucidez atroz, escrito pelo professor Davi Arrigucci Jr., conterrâneo e colega de escola de Orides, apenas três anos mais velha que ele. Davi, 83 anos, compareceu por meio de um curto vídeo, que foi exibido no telão. O ensaio que circulou na mesa versa sobre a obra da poeta, um farol para toda a programação oficial.
Marília teceu um longo poema se servindo da poesia de Orides como ponto de observação de tantos pássaros no ar. Entre enigmas e espelhos, e o claro enigma de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), bem-te-vis, araras, pombas, aves de rapina, corujas e antipássaros oridianos, Marília evocou o ar do tempo, as estrelas e flores, uma poesia quase sem sujeito no intuito de criar uma atmosfera em torno da obra da poeta homenageada, feita por “imagens que não entregam de imediato, mas perduram”.
Responsável pela reedição de seus livros pela Hedra, preparados a tempo de conquistar novos leitores nesses dias em que o seu nome está sendo lembrado, Massi contribuiu apresentando um largo panorama da vida e obra de Orides Fontela. Autodidata e criadora de pouco mais de 200 poemas, publicados em cinco clássicos, Orides só foi vista depois de obter o aval do crítico literário Antonio Candido (1918-2017).
Nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, onde havia muitas bibliotecas, Orides foi conterrânea de outras duas mulheres que escreveram os seus nomes à fogo na cultura brasileira, como a pianista Guiomar Novaes (1895-1979) e a escritora e jornalista Pagu (1910-1962). Orides começou a escrever ainda na infância e publicou seus primeiros poemas no jornal da cidade. Foi nesse período que chamou a atenção do então estudante Davi Arrigucci Jr., que apresentou seus textos a professores e intelectuais da Universidade de São Paulo (USP). O reconhecimento abriu caminho para a publicação de Transposição, seu livro de estreia, em 1969.
Na mesa, o editor lembrou que os dois primeiros livros de Orides — Transposição e Helianto, de 1973 — não repercutiram na imprensa da época. Massi discorreu com conhecimento sobre cada livro e estilo, combinando com o momento de vida da poeta. “Os seus livros foram matematicamente planejados. Ela sempre abre com um poema-tema e fecha abordando o silêncio", comentou. Ao longo dos anos, Orides se abriu para novos temas, se transformou e apresentou truques visuais que simbolizam muito a sua criação poética.
“O terceiro livro, Alba, mudou um pouco a sua vida em termos de crítica. Em parte pelo prefácio, escrito por Antonio Candido. A esta altura, ele já estava aposentado e não tinha a obrigação de escrever sobre contemporâneos", recorda Alberto Massi. Segundo ele, esse ensaio fez com que ela ganhasse o Prêmio Jabuti e desencadeou uma chuva de críticas. Finalmente, um ponto de virada na história da poeta, que começa a ter uma cultura crítica em torno de sua poesia.
A certa altura da vida, Orides se embrenhou no budismo e mudou de novo. Surpreendentemente, ela incorporou a temática do oriente em seus versos sem anular os outros assuntos. Orides frequentou um templo no bairro da Liberdade, em São Paulo, e se jogou de corpo e alma na prática budista, chegando a raspar os cabelos e fundar um templo no Espírito Santo. “Era uma pessoa aparentemente solitária que encontrou amigos no zen-budismo", situou Massi.
Alberto e Orides se conheceram em 1986, quando ela publicou Rosácea, o seu quarto livro, tema de uma entrevista feita por ele à Folha de S. Paulo. Dez anos depois, parece que Orides sentiu que a morte se avizinhava e publicou o seu quinto e último livro em vida — uma vida curta, de apenas 58 anos. Teia chegou em 1996 e levou o Prêmio APCA. “Teia é como Orides: Aparentemente frágil, o poema que abre é uma armadilha e, no centro da tela, a aranha espera".
Embora tenha sido reconhecida ainda em vida por parte da crítica, Orides Fontela permanece menos conhecida do grande público do que a importância de sua obra faria supor. Dona de uma poesia de extremo rigor formal, marcada pela concisão e pela recusa aos excessos, construiu uma escrita que transforma poucos versos em reflexões sobre existência, linguagem, silêncio e natureza. A sua obra é considerada uma das renovações mais originais da poesia brasileira da segunda metade do século XX e volta agora, no boca a boca da Flip 2026.






