Os desafios de profissionais LGBTQIAPN+ no mercado editorial indiano
PublishNews, Redação, 23/06/2026
Relatos de profissionais do setor indicam que os avanços observados nos livros nem sempre se refletem nos ambientes de trabalho

© Magnific
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O mercado editorial indiano tem ampliado significativamente a publicação de obras voltadas para a comunidade LGBTQIAPN+ nos últimos anos. Editoras independentes e grandes grupos editoriais vêm investindo em catálogos mais diversos, publicando autores queer, trans e não binários e promovendo iniciativas voltadas à representatividade. No entanto, relatos de profissionais do setor ouvidos por Arpita Das indicam que os avanços observados nos livros nem sempre se refletem nos ambientes de trabalho.

Fundadora da editora indiana New Delhi's Yoda Press e colunista do Publishing Perspectives, Arpita relata que editoras como Westland, que recentemente lançou a coleção Queer Directions, e Zubaan, reconhecida por publicar obras de mulheres trans ao longo da última década, estão entre as empresas que têm contribuído para ampliar a presença de narrativas LGBTQIA+ no mercado. Grandes grupos editoriais também passaram a incluir esse segmento em seus catálogos e campanhas de divulgação.

Para Yana Azaad, fundadora da organização literária Lekha – The Northeast Writing Collective, publicar histórias queer representa uma forma de construir “uma narrativa para um futuro mais livre para todos”. Apesar desse cenário considerado promissor, ela conta que profissionais LGBTQIAPN+ percebem que a diversidade dentro das empresas ainda é limitada.

Segundo os depoimentos reunidos, o setor editorial continua apresentando baixa representatividade em termos de classe social, casta e identidade de gênero. Embora algumas editoras adotem políticas afirmativas em seus processos seletivos, a inclusão ainda depende, em grande parte, da iniciativa individual de determinadas organizações.

Arpita Das conta que um dos principais desafios apontados está a sensação de isolamento vivida por profissionais queer em cargos mais baixos e nos programas de estágio das empresas. Muitos afirmam evitar confrontar comentários preconceituosos por receio de consequências para suas carreiras.

De acordo com os contatos feitos por Arpita Das, os departamentos de vendas, marketing e produção — historicamente compostos majoritariamente por homens — tendem a ser os ambientes mais difíceis para profissionais LGBTQIA+, especialmente aqueles designados homens ao nascer.

Saúde mental em risco e preconceito velado

Um ex-funcionário de uma grande editora acadêmica e colega de Das relatou ter convivido no dia a dia de trabalho com conversas marcadas por comentários misóginos e atitudes associadas a uma cultura de masculinidade tóxica. Para ele, a situação se agravava quando colegas percebiam sua falta de interesse em participar dessas discussões. O profissional citado por Das acabou deixando o setor após enfrentar problemas de saúde mental decorrentes da experiência.

Também foram relatados episódios de discriminação velada como, por exemplo, um jovem profissional queer afirmar ter recebido comentários depreciativos sobre sua aparência e forma de se vestir durante interações de rotina com superiores. Ainda assim, poucos entrevistados disseram recorrer aos departamentos de recursos humanos. A percepção predominante é de que a denúncia poderia gerar consequências negativas para quem reclama, especialmente em um setor onde ainda há poucos líderes assumidamente LGBTQIAPN+.

A situação também afeta profissionais trans. Um estagiário não binário relatou que, embora tenha tido sua identidade respeitada em uma editora comercial, enfrentou dificuldades em uma editora educacional, onde seu nome social e seus pronomes não eram utilizados de forma consistente, mesmo após correções. Segundo o depoimento, a necessidade constante de explicar questões relacionadas à identidade de gênero acabou gerando desgaste emocional.

Outro caso citado foi o de um profissional queer que trabalhou por mais de um ano em uma editora educacional sem se sentir confortável para assumir sua orientação sexual no ambiente de trabalho. Além das limitações para expressar sua identidade por meio da aparência, ele diz ter sido alvo frequente de perguntas pessoais consideradas invasivas, como questionamentos sobre casamento. Em um contexto em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda não é reconhecido legalmente na Índia, situações desse tipo podem gerar constrangimento adicional.

As histórias sugerem que o apoio à comunidade trans dentro do setor editorial ainda encontra resistência, inclusive entre profissionais que se identificam como aliados da causa LGBTQIAPN+. Durante a tramitação de uma proposta legislativa relacionada aos direitos da população transgênero na Índia, uma iniciativa de apoio à comunidade encontrou adesão limitada dentro de um grupo profissional composto majoritariamente por mulheres do mercado editorial, evidenciando divergências internas sobre o tema.

Diversidade no futuro

Apesar das dificuldades, alguns sinais de mudança têm sido observados. Chirag Thakkar, da Bloomsbury India e um dos profissionais LGBTQIAPN+ mais visíveis da indústria editorial indiana, afirma ter conseguido incluir parceiros do mesmo sexo em planos de saúde corporativos em duas empresas diferentes. Ele também afirma ter recebido apoio institucional ao denunciar episódios de assédio e discriminação no ambiente de trabalho.

Profissionais mais jovens apontam que as experiências têm se tornado gradualmente mais positivas. Alguns comentaram nunca terem sentido necessidade de esconder sua identidade LGBTQIA+ durante estágios ou empregos recentes no setor. Para observadores da indústria, a crescente presença de profissionais das gerações millennial e Z no comando das editoras pode contribuir para acelerar a construção de ambientes de trabalho mais diversos e inclusivos nos próximos anos.

De acordo com as histórias de profissionais ouvidos por Arpita Das, o atual desafio para o mercado editorial indiano agora será garantir que a diversidade celebrada nos livros também esteja presente nas equipes responsáveis por produzi-los.

[23/06/2026 10:10:44]