Rio2C premia duas escritoras em seus pitchings editoriais
PublishNews, Monica Ramalho, 29/05/2026
O troféu de Melhor Pitching foi para Fernanda Vizian e Stefany Borba; a primeira busca editora ao seu true crime e a segunda quer levar o seu thriller ao audiovisual

Fernanda Vizian e Stefany Borba © Divulgação
Fernanda Vizian e Stefany Borba © Divulgação
Um espaço que vem crescendo nos últimos anos para quem sonha em publicar um livro ou conquistar telinhas e telonas são os pitchings editoriais do Rio2C — realizados nesta quinta-feira (28), durante o evento na Cidade das Artes, na capital carioca. Previamente selecionados, os autores têm cinco minutos para convencer editoras, agentes literários e executivos do audiovisual de que as suas histórias merecem chegar às livrarias ou se transformar em minisséries e filmes — e sete preciosos minutos para esclarecer dúvidas da banca avaliadora. Este ano, o troféu foi às mãos de duas autoras: Fernanda Vizian e Stefany Borba.

Embora seja conhecido principalmente pela forte conexão com o audiovisual, o Rio2C vem oferecendo mais espaço à literatura. Além de debates sobre criação, narrativa e propriedade intelectual, o evento convidou escritores, editoras, agentes literários e produtores para compôr o extenso programa de sua oitava edição. Até domingo, 31 de maio, o Rio2C vai ocupar 21 palcos da Cidade das Artes com, aproximadamente, dois mil palestrantes em uma programação focada em negócios e economia criativa.

O prêmio de Melhor Pitching Editorial – Obras Originais para Publicação foi para a jornalista e escritora mineira Fernanda Vizian, autora de Doze Dias – os bastidores de uma fuga que parou o Brasil, escancarou o caos do sistema prisional e revelou os limites da imprensa, ainda inédito. O livro reconstrói a fuga de cinco detentos da Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem (MG), em 1990, episódio que desencadeou uma crise de repercussão nacional e marcou uma geração de mineiros.

"Essa é a segunda vez que tento participar. Dois anos atrás não fui selecionada. Hoje o projeto chega mais maduro porque ganhou também uma frente audiovisual", contou Fernanda ao PublishNews. O documentário baseado na mesma investigação está em fase final de produção após ser contemplado com meio milhão pela Lei Paulo Gustavo.

A jornalista e escritora trabalha no caso há 18 anos. Ao longo da pesquisa, mergulhou nos processos civis e militares do caso, em reportagens da época e realizou dezenas de entrevistas com policiais, jornalistas e personagens diretamente envolvidos na história. "Encontrar fontes foi fáceis. Difícil mesmo foi acessar o Estado", resumiu, na apresentação. O livro se apoia em três eixos principais: direitos humanos, sistema penitenciário e ética jornalística. A rebelião teve origem em denúncias de maus-tratos e tortura dentro da prisão, enquanto a cobertura da imprensa acabou influenciando o desenrolar do caso.

"Costumo brincar que essa história também me escolheu. Por muito tempo ela ficou guardada na gaveta enquanto eu trabalhava e seguia a vida. Mas chegou um momento em que ela estava gritando. Precisava ser contada", disse ao PN.

Fernanda foi aluna da pós-graduação em Edição e Gestão Editorial do Nespe e o professor Leandro Müller estava na plateia. "O Nespe tem muito orgulho de ver seus alunos indo tão longe. A Fernanda sempre foi uma pessoa de muita iniciativa e talento. É gratificante ver o mercado reconhecendo isso!", comentou, ao ver a pupila abraçada ao seu troféu.

A banca responsável pela escolha foi formada por Lívia Vianna (editora da Record), Rebeca Bolite (editora da Intrínseca), André Conti (editor da Todavia), Martha Ribas (sócia-diretora da Janela Livraria e da MapaLab), Alex Couto (agente literário do Birdwatch Literary Office) e Vivelly Ribeiro (marketing da Amazon). Além da vencedora, participaram do pitching os autores Heli Oliveira (Nem puta), Graziella Zafra (Como emitir passagens para o além), Paulo Estevão Biagioni (Você tem medo do quê?), Igor Fonseca (Época de violências) e Juliane Vicente (Adeus, Adélia).

"As apresentações foram excelentes e fiquei muito impressionada com a qualidade. Foi difícil para a gente escolher. Continuem em frente. Vocês têm muita chance de publicar as suas histórias", incentivou Martha Ribas ao final da rodada.

Já no Pitching Editorial – Obras para Adaptação para o Audiovisual, a vencedora foi a escritora paulistana Stefany Borba, autora de Um jardim onde nascem as flores e morrem os segredos (Trend Editora, 2025). A obra acompanha Bel, uma jovem de 20 anos que retorna ao interior de São Paulo para se despedir da avó e acaba envolvida numa investigação familiar após a descoberta de ossadas humanas no jardim da família.

Misturando suspense, relações familiares e questões de gênero, o romance dialoga com o público jovem adulto e aborda a violência contra as mulheres a partir de três gerações de personagens femininas. "Acredito que a ficção pode ser nossa aliada para conversar com os homens sobre esse tema, especialmente em tempos de discurso red pill", destacou a autora, diante dos jurados. O seu livro foi o mais vendido da Trend na Bienal do Livro de Pernambuco e virou um queridinho em clubes de leitura.

O livro nasceu de uma conversa que Stefany teve com a própria avó e consumiu dois anos de pesquisa. Segundo a autora, o troféu representa uma validação importante para uma história profundamente pessoal. "Estou sem acreditar. Treinei muito para essa apresentação e a banca trouxe profissionais que muito admiro. Esse projeto é muito importante para mim porque acredito que as mudanças sociais começam pelo diálogo. E a ficção pode ser nossa amiga nesse diálogo", analisou ela ao PublishNews.

Durante a avaliação, integrantes da banca destacaram a força das personagens femininas e a combinação entre suspense e questões contemporâneas. A produtora Mariza Leão afirmou ter se interessado especialmente pela densidade humana da trama. "Vi uma sabedoria no cerne dos personagens e da história", destacou Mariza, uma das produtoras mais importantes do audiovisual brasileiro, à frente da Morena Filmes desde os anos 1970, com um currículo que traz clássicos como O homem da capa preta — estrelado por José Wilker nos anos 1980 — e Meu nome não é Johnny, com Selton Mello como protagonista, de 2008.

Barbara Teixeira, Ulisses Campbell, Bertha Marchiori, Carolina Iacia, Mariza Leão e Raphaela Leite
Barbara Teixeira, Ulisses Campbell, Bertha Marchiori, Carolina Iacia, Mariza Leão e Raphaela Leite
O júri da categoria foi completado por Barbara Teixeira (CEO da Anonymous Content), Ulisses Campbell (roteirista da Amazon), Bertha Marchiori (produtora da RT Features), Carolina Iacia (head de aquisição da Globo) e Raphaela Leite (consultora de dramaturgia dos Estúdios Globo).

Além da vencedora, participaram da rodada os escritores Léo Farah (com o livro Além da lama, de 2019), Patricia Larini (Os náufragos, da Editora Pautá, vencedor do Prêmio Jabuti de 2024), Wagner William (Com dó, Brasil, no prelo, a ser publicado em dezembro próximo pela Record), Julie Pedrosa (Cruzeiro de mentirosos, lançado pela Flive e finalista do Prêmio Amazon Literatura Jovem 2025) e Daiana de Souza (Amiga com piscina, finalista do Prêmio Kindle Vozes negras 2025).

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