Estudo aponta semelhanças e diferenças entre mercados do livro no Brasil e no México
PublishNews, Guilherme Sobota, 27/05/2026
Pela primeira vez, uma comparação dessa natureza foi realizada, entre países da América Latina, pela Nielsen

Se no Brasil a variável chave para o consumo de livros se encontra no gênero dos consumidores — 61% deles são mulheres, número acima da população equivalente —, no México a principal variante é a classe social: mais de 80% dos compradores mexicanos pertencem às classes C, D e E. No Brasil, são 56%. Os números foram apresentados pela Nielsen BookScan no último Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos, organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), no Guarujá (SP). As estatísticas refletem as pesquisas da Nielsen realizadas lá e cá, com pequenas diferenças e particularidades, mas com dados comparáveis — pela primeira vez uma comparação dessa natureza foi realizada entre países da América Latina.

O percentual da população consumidora é similar: 18% no Brasil, 18,5% no México, o que equivale aqui a 28 milhões de pessoas, e lá a 18 milhões. Por aqui, dado corresponde a um faturamento do varejo de US$ 610 milhões; lá, US$ 390 milhões. Embora as metodologias não permitam estabelecer uma comparação direta entre canais de venda preferidos dos leitores, é possível entender que as vendas online no Brasil têm mais força do que no México.

Em relação ao mercado de livros digitais, a preferência apontada pelos brasileiros e mexicanos é bastante similar: na última compra de livros, 20% e 21% escolheram e-books ou audiolivros, respectivamente.

“Chama atenção as semelhanças entre os dois países: a maior parte dos consumidores está concentrada nas classes média e média-baixa", explica a economista Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas econômicas da Nielsen BookData. “A participação do digital é bastante semelhante em ambos países. Em relação à quantidade de livros compradas, embora haja diferenças na distribuição, a maioria das pessoas compra entre um e cinco livros por ano. Além disso, os dois mercados apresentam crescimento em ficção, seguindo uma tendência global, ainda que a não ficção siga sendo o gênero com maior representatividade.”

Por outro lado, as diferenças também são bastante relevantes, aponta a economista. Além das diferenças por gênero e classe social, a leitura aparece como a terceira atividade de lazer mais citada no Brasil; mas ocupa apenas a sexta posição no México. Já assistir televisão ainda tem grande força por lá; no Brasil, perdeu relevância e aparece apenas na sétima posição entre consumidores de livros.

“Outro ponto importante é a força do canal online no Brasil e as motivações de escolha: aqui há diferenças claras entre o online e o offline, o que não se observa da mesma forma no México. Por fim, ainda que possamos considerar o mercado editorial brasileiro concentrado, ele é significativamente menos concentrado do que o mexicano”, comenta Mariana.

Entre os cinco livros mais vendidos, no Brasil, quatro foram livros de colorir, e um foi um devocional. No México, a variedade do top 5 é maior: um livro de atividades, uma ficção juvenil, um livro de Mente, Corpo e Espírito, e um de desenvolvimento pessoal.

"Brasil e México são dois grandes mercados latino-americanos que compartilham características como alta população, forte presença de grandes centros urbanos e desafios educacionais e socioeconômicos semelhantes", comenta Mariana. "Ainda assim, comparar esses contextos exige cuidado. Diferenças culturais, dimensões territoriais e distinções regionais não podem ser ignoradas. Quando bem conduzida, essa análise pode gerar insights valiosos. O fato de estarmos presentes em ambos os países e utilizarmos a mesma metodologia garante maior comparabilidade".

Os dados oferecem possibilidades de como pensar e conectar semelhanças e diferenças entre canais, variáveis demográficas, a importância da leitura nas atividades de lazer, participação do digital, entre outras. "Por exemplo, será que o preço dos dispositivos são um entrave para o desenvolvimento do mercado digital nesses países? Ou como esses dois mercados se encaixam na tendência de crescimento de ficção?", questiona. Análises como essa podem alavancar o mercado, despertar necessidade de um intercâmbio maior entre os dois países — e procurar entender o que deu certo e o que não deu.

[27/05/2026 08:54:29]