
Nascida a partir de uma inquietação pessoal de sua fundadora, Sol Itaputyr — indígena do povo Jeripankó, originária do município de Pariconha, no sertão de Alagoas — a Pindorama Comics lançou seu primeiro título em 2026 com uma missão: se destacar dentro do mercado editorial nacional como uma editora indígena de quadrinhos. A publicação pode ser lida gratuitamente pelo link.
O projeto conta também com uma página de apoio no Catarse, e os apoiadores recebem com antecedência e exclusividade os novos episódios do quadrinho, além de artes exclusivas e vídeos do processo criativo e dos bastidores de produção.
Ao PublishNews, Sol diz sentir ainda que essas narrativas têm pouco espaço dentro do universo dos quadrinhos. Próxima do seu aniversário de 40 anos, ela explica que o propósito da casa é publicar livros autorais que valorizem narrativas amazônicas.
Iniciativas como a da Pindorama estiveram em pauta na Feira de Bolonha — um painel discutiu o contexto de renovação do mercado editorial latino-americano, com destaque para a ação de editoras independentes, compostas por novas gerações de autores focados em colocar narrativas indígenas no centro do debate literário. Além disso, no ano passado, a atenção internacional à região Norte, por conta da COP30, projetou iniciativas editoriais que discutem a realidade variada de populações amazônicas.
Em seu texto de análise dos dados do Censo Nacional dos Profissionais de Quadrinhos e Humor Gráfico, a jornalista Sâmela Hidalgo reforçou o potencial da região como epicentro "em ebulição" de narrativas descolonizadas e plurais. "Hoje, esses artistas contam com um ecossistema próprio na região, que inclui eventos, divulgação, premiações, formação, profissionalização, senso de comunidade, estímulo criativo e referências locais", apontou. Um dos eventos é a Semana do Quadrinho Nacional, que teve em 2026 a realização de sua oitava edição entre os dias 27 e 29 de março.
A pesquisa sobre os trabalhadores dos quadrinhos mostrou que 25% dos artistas da região Norte se consideram pessoas indígenas (contra 13% da população total, segundo o Censo de 2022 do IBGE).

O roteirista Emerson Medina, um dos autores por trás do quadrinho de fantasia A Ajuri dos que não morrem (produção do C-4 Studio, viabilizado pela PNAB), afirma que existe um contexto atual de valorização de narrativas nacionais e de reconhecimento de que não é necessário consumir apenas conteúdos estrangeiros para encontrar obras de qualidade: "Temos potencial para realizar obras de entretenimento cultural com a sabedoria local, sem falar na valorização dos artistas daqui também", comenta.
Também autor no projeto, Jucylande Júnior, animador 2D e ilustrador amazonense, explica que o trabalho de adaptação passa pelo conhecimento histórico de povos originários já extintos, e aponta a HQ como uma oportunidade de resgatar a cultura Manao (pronunciada Manáo).
“A ideia original era a de um quadrinho de fantasia no estilo O senhor dos anéis, Sete samurais e de terror. Emerson apostou nessa vertente, mas eu resolvi acrescentar um pouco de ficção científica e lendas de civilizações perdidas. A estética dos personagens foi uma adaptação, pois trabalhamos com povos originários já extintos e não há registros de armas, roupas, etc”, diz o ilustrador.
A ideia por trás da editora de quadrinhos e o primeiro título
"Tudo o que eu encontrava nas prateleiras era colonial, encaixando tudo numa caixinha que não era minha", diz Sol Itaputyr, da Pindorama. O primeiro título, também intitulado Pindorama, apresenta uma narrativa que mistura fantasia com uma "cosmovisão indígena", de acordo com a editora, que também faz o roteiro da obra, em parceria com os artistas Tom Gomes, Zilson Costa e Ronilson Freire. Até agora, a publicação conta com três episódios.

A editora reforça o caráter simbólico da escolha do título, uma vez que Pindorama é o nome como os povos originários se referiam às terras brasileiras antes da colonização. A escolha temática evidencia a linha editorial da casa, focada em olhar para as origens do povo brasileiro e imaginar novos futuros.
"O quadrinho representa exatamente o que queremos construir com a Pindorama Comics, histórias que valorizem perspectivas originárias, misturando memória, identidade e fantasia, mas sem perder o vínculo com nossas raízes", explica Sol. Na plataforma Tapas, Pindorama tem recebido elogios de leitores online, destacando as cores e o roteiro do quadrinho.
Uma das personagens da história é Itaputyr, não por acaso. "A personagem nasce de vivências, reflexões e sentimentos que fazem parte da minha própria trajetória, mas também vai além de mim, se tornando uma representação simbólica de força, memória e identidade."
Como ajudar a iniciativa
Os planos de assinatura do Pindorama Comics começam em R$ 5. Com R$20 por mês, o apoiador receberá o quadrinho em seu e-mail, outros conteúdos exclusivos, além de ser desenhado como um dos personagens da publicação mensal.
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