Guia estreia com 435 verbetes de autores da literatura brasileira contemporânea
PublishNews, Monica Ramalho, 27/03/2026
O novíssimo Guia da Literatura Brasileira Contemporânea é “um ponto de partida, não um veredito final”, nas palavras de Humberto Conzo Júnior, que mapeou 435 autores e mais de 4 mil livros para estrear na web

Uma bela notícia pipocou essa semana nos perfis sociais de diversos escritores no país: O surgimento do Guia da Literatura Brasileira Contemporânea (GLBC), iniciativa criada e realizada por um homem só, Humberto Conzo Júnior. O escritor e pesquisador deu mais um passo largo numa jornada iniciada há dez anos, ao fundar o canal literário Primeira Prateleira, no YouTube. Dá um pulo aqui para conhecer!

Resultado de um acúmulo de inquietações, o Guia é “um ponto de partida, não um veredito final”, mas palavras dele, que mapeou 435 autores e mais de 4 mil livros para estrear no universo online, nas que poderia ter produzido verbetes de até dois mil autores facilmente. “Quando mostramos isso, provamos que a literatura brasileira não é um deserto; é uma floresta densa", diz, atento à riqueza, diversidade e qualidade da produção literária atual.

Humberto conta que viveu essa década no meio editorial como leitor, produtor de conteúdo e gestor de um clube de assinatura — o Clube de Literatura Brasileira Contemporânea, finalista do Jabuti em 2021 e encerrado em 2023. Foi quando percebeu, de estalo, uma lacuna: Pesquisar obras brasileiras contemporâneas nos sites das livrarias era um feito hercúleo — na maioria dos casos, essa subdivisão simplesmente não existia. Foi quando teve a ideia de fazer um livro com 100 escritores brasileiros vivos e atuantes.

“Iniciei as pesquisas e logo vi que, em uma lista de 100, muitos ficariam de fora, há muita gente boa produzindo. Então continuei listando e logo vi que a única saída seria pensar em um site, algo em constante evolução", rebobina Humberto, um colecionador nato, de selos para cartas até latinhas de cerveja do mundo afora. “Então, é como se eu estivesse colecionando novos escritores, como em um álbum de figurinhas, e muito de descoberta. Gosto de conhecer o novo e gosto mais ainda de apresentar o novo para as pessoas", revela.

Humberto Conzo Jr. © Divulgação
Humberto Conzo Jr. © Divulgação

Ele ganha o dia quando alguém chega perto para agradecer por ter sugerido a leitura de um autor, uma autora que não nunca havia passado pela cabeceira da pessoa, como Itamar Vieira Júnior e Mariana Salomão Carrara. Para ele, o GLBC é um gesto político de insistência. “Em um país onde o público geral muitas vezes não consegue citar cinco escritores vivos, lutar pela visibilidade desses autores é um ato político. Minha briga é para que a literatura brasileira deixe de ser vista como algo estático, de museu ou de vestibular, e passe a ser reconhecida como um organismo vivo, pulsante e indispensável”.

A seleção inicial de nomes reflete a rede que Humberto mantém na vida real. São escritores que leu, conheceu pessoalmente, firmou uma amizade para além das letras; vozes que descobriu em oficinas e muita pesquisa, um dos seus prazeres. Mas avisa que existe um rigor técnico: “O critério fundamental é o agora: o autor deve estar vivo. É uma decisão editorial difícil — tive que deixar de fora perfis prontos de gigantes como Marina Colasanti e Luiz Fernando Veríssimo —, mas necessária para manter o foco na produção pulsante", arremata o pesquisador.

Para ganhar um verbete no Guia, as escritoras e os escritores devem ter publicado nas categorias de romance, contos, crônicas ou poesia — não ficção e infantis não estão contemplados, ao menos por enquanto. Um terceiro critério menos rigoroso foi o de não incluir quem tenha autografado exemplares de um livro só, com raras exceções (quando a obra ganhou um prêmio de peso ou repercutiu em alto e bom som). Humberto buscou a pluralidade e a diversidade, incluindo quem escreve de todas as regiões do país, e destacando autores negros, mulheres, indígenas e lgbtqia+.

Pelo contentamento dos escritores, fica evidente que o mercado carecia dessa organização. “O leitor precisa confiar que, se um autor está no site, é porque há ali uma obra que sustenta sua presença. O desafio não é cristalizar um cânone, mas manter um filtro que separe o ruído da relevância, permitindo que as promessas tenham o mesmo palco que os autores estabelecidos", frisa Humberto, que passou as últimas 48 horas respondendo mensagens com indicações de novos nomes.

“O Guia de Literatura Brasileira Contemporânea revela que estamos vivendo uma era de ouro da escrita brasileira, mas que ainda operamos com ferramentas de divulgação que precisam evoluir". A própria imprensa especializada viu os seus espaços dedicados aos livros encolher nos últimos anos e há muitos jornalistas fechados ao diálogo com os assessores de imprensa das editoras e dos escritores.

Humberto está confiante no impacto do seu projeto. “Espero que um mapeamento como esse abra portas, dê visibilidade e crie um ambiente de igualdade e de troca de experiências em toda a cadeia do livro”. De escritores a revisores, de livreiros a criadores de conteúdo no TikTok, de capistas e podcasts. Afinal, o que mais existe nesse mercado é gente movida à paixão pela literatura.

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[27/03/2026 10:06:28]