
Gosto, particularmente, de como Ana não precisa recorrer a beletrismos ou metáforas empoladas para, mesmo assim, construir imagens muito sensíveis. Ela transita pelas frestas e entrega uma literatura que, apesar da penumbra do dia, não se furta a uma observação meticulosa e a pequenos suspiros, uma espécie de sorriso melancólico que se vê nos olhos, e não na boca. Nos meus devaneios, quando penso na poesia do livro, termino me deparando com uma sensação indefinível cujo melhor exemplo recente talvez seja a grande conversa entre as duas irmãs do filme Valor sentimental, que levou o Oscar de O agente secreto: existe ali um afeto que não pode ser descrito, por mais que a gente saiba exatamente o que ele é e do que ele é feito.
Penso muito, por exemplo, no final do poema Tratado inexato sobre a reprodução dos pássaros:
É breve a infância dos pássaros.
Primeiro abandonam o ninho,
depois a árvore, depois se perdem
entre outros tantos,
até que não os reconheço.
Olhando o ninho vazio,
me pergunto se existiram,
como quem deixa de crer em milagres,
como quem já foi feliz
e esqueceu,
como quem se vê sozinho
ao fim da festa.
Isso é o que aprendi
em setembro
Ou no poema Contraponto:
Daqui se veem
outras janelas.
Atrás da vidraça,
me espreita uma velha
de cabelos longos,
a quem nunca aceno —
é quase um espelho.
Alguém no escuro
assiste volta e meia ao mesmo filme
dos anos trinta.
Os atores mortos
sapateiam na tela.
Guardada por grades,
uma louca urra
palavras obscenas, perturba
o sossego da rua.
Seu grito: exato
contraponto
ao meu silêncio.
Ela sabe um segredo
que desconheço.
E se eu também gritasse
pela janela?
E o livro segue fazendo essa trança sobre o efêmero, sobre nossa presença quase fantasmagórica no mundo, com versos muito bem calculados que colocam o título em xeque o tempo inteiro: o quão breve um voo breve pode ser? A luz do sol parece conter a resposta: é um sentimento de vida que quer muito existir, mesmo rodeada por tantos símbolos de morte. Talvez esteja aí o ponto de encontro entre o meu trabalho e o de Ana, a conexão que tanto me encanta: é essa vontade de ser e de viver — por mais que, nela, essa vontade seja silenciosa e introspectiva enquanto, em mim, ela seja cem por cento barulhenta e angustiada.
Voo breve sob o sol, no fim, é o tipo de livro que mais gosto de ler, e que às vezes sinto tanta falta de ver nas livrarias: aquele livro “médio”, um compilado que consegue acessar mundos culturais absolutamente díspares, englobando tanto o rigor da alta cultura quanto a beleza da cultura popular. É comunicativo sem ser palavroso, é bonito sem ser arrogante, é delicado sem ser piegas. É uma poesia laboriosa, quase artesanal, mas que soa natural e humana. É um livro muito vivo, e pouco importa se essa vida vai ser breve ou infinita, ela apenas é".
* Davi Boaventura é escritor, tradutor e fotógrafo. Publicou Talvez não tenha criança no céu (Virginae, 2012), Mônica vai jantar (Dublinense, 2019), livro finalista dos prêmios São Paulo, AGES e Minuano e também adaptado ao teatro, e 17 de abril (Dublinense, 2021). Nasceu em Salvador, em 1986, e prefere muito mais viajar de ônibus do que de avião.






