Morre António Lobo Antunes, autor português vencedor do Camões, aos 83 anos
PublishNews, Redação, 05/03/2026
Cotado diversas vezes para o Prêmio Nobel de Literatura, romancista construiu uma das obras mais influentes da literatura contemporânea e sofreu de demência nos últimos anos

Antònio Lobo Antunes © Nuno Ferreira Santos
Antònio Lobo Antunes © Nuno Ferreira Santos
Morreu o escritor português António Lobo Antunes, aos 83 anos, um dos nomes mais importantes da literatura de língua portuguesa nas últimas décadas, anunciou nesta quinta-feira (5) a sua editora, Grupo Leya. Autor de mais de 30 romances e vencedor do Prêmio Camões em 2007, o mais prestigioso da literatura lusófona, ele foi frequentemente apontado como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura.

Está prevista para abril a publicação de um livro inédito, chamado Poemas, dele, que "sempre lamentou não ter sido poeta", segundo nota da Editora Dom Quixote.

Nascido em Lisboa em 1º de setembro de 1942, Lobo Antunes formou-se em medicina e trabalhou como psiquiatra antes de iniciar a carreira literária. Entre 1971 e 1973 serviu como médico do exército português na guerra colonial em Angola, experiência que marcaria profundamente a sua visão sobre violência, memória e trauma, registrada em seus livros.

A estreia literária veio em 1979, com os romances Memória de elefante e Os cus de Judas, seguidos por Conhecimento do inferno, de 1980. Marcados por forte dimensão autobiográfica, os três livros exploram a experiência da guerra colonial e a vida de um médico psiquiatra que retorna a Portugal profundamente transformado. Com o sucesso da trilogia, o autor abandonou definitivamente a medicina para se dedicar à literatura.

Casado duas vezes e pai de três filhas, Lobo Antunes superou o câncer três vezes, enquanto seguia produzindo. Nos últimos anos, vieram a público informações de que ele enfrentava um quadro de demência desde 2021, o que teria interrompido a sua escrita.

Esse estilo singular tornou sua obra ao mesmo tempo celebrada e considerada desafiadora por muitos leitores. O próprio escritor costumava afirmar que não escrevia para facilitar a leitura. Ainda assim, a sua produção se tornou uma das mais influentes da literatura europeia contemporânea, sendo traduzida para diversas línguas e estudada em universidades ao redor do mundo.

Três grandes fases literárias

Entre 1979 e 2022, Lobo Antunes publicou romances conhecidos pela complexidade formal e pela linguagem fragmentada. Os seus livros raramente seguem estruturas narrativas tradicionais e se destacam pela multiplicidade de vozes, pela sobreposição de memórias e por um fluxo de consciência intenso.

A crítica costuma identificar três momentos principais na trajetória literária do autor. O primeiro ciclo, autobiográfico, reúne seus livros iniciais, centrados na experiência da guerra colonial e nas consequências psicológicas desse período.

Nos anos 1980 e 1990, a sua obra passa a dialogar mais diretamente com a história e a identidade portuguesa. Romances como Fado alexandrino (1983), Manual dos inquisidores (1996) e O esplendor de Portugal (1997) exploram o legado do colonialismo, a memória política do país e as transformações sociais após a Revolução dos Cravos.

Nos últimos anos, a escrita de Lobo Antunes tornou-se ainda mais introspectiva e experimental, com narrativas voltadas para temas como envelhecimento, memória e solidão. Aliás, o seu romance mais recente foi O tamanho do mundo, publicado em Portugal em 2022 e ainda inédito no Brasil. A obra aborda a velhice e a solidão em tom melancólico e reflexivo.

Em 2024, foi lançado também o volume As outras crônicas, reunindo textos do autor publicados ao longo de décadas. Considerado um dos autores mais importantes da literatura portuguesa contemporânea, António Lobo Antunes deixa uma obra vasta, marcada por experimentação formal, densidade psicológica e um olhar crítico sobre a história e a condição humana.

[05/03/2026 11:17:36]