
Antonio Candido escreveu um prefácio ao livro Alba (1983) em que não poupa elogios: "Um poema de Orides Fontela tem o apelo das palavras mágicas que o pós-simbolismo destacou, tem o rigor construtivo dos poetas engenheiros e tem um impacto por assim dizer material de vanguarda recente. Mas não é nenhuma destas coisas, na sua integridade requintada e sobranceira; e sim a solução pessoal que ela encontrou. Parecendo tão inseridos numa certa evolução da poesia moderna, e sendo tão originais como invenção, os seus versos possuem em geral uma carga de significado que não é frequente".
Mais recentemente, em um prefácio do livro O nervo do poema: antologia para Orides Fontela (Relicário), seleção de poemas em homenagem a Orides escritos por poetas contemporâneos, Paulo Henriques Britto e Patrícia Lavelle garantem: "Em sua obra, dois gestos se atravessam e se entrecruzam: a interrogação teórica diante do real e a releitura da tradição não apenas literária, mas também filosófica. Orides lê interrogando e dialogando, transforma o lido ao dar forma ao poema, relê escrevendo. Alguns de seus poemas se apresentam explicitamente como releituras, em outros, as leituras ficam implícitas. Em todo caso, sua experiência poética da leitura é sempre releitura, trabalho de inversão e reinvenção na escrita: metamorfose, ironia e diálogo".
Até a Flip, é provável que diversas leituras da obra de Orides — já presentes em dezenas de trabalhos acadêmicos realizados antes e depois de sua morte, em 1998 — venham à luz e coloquem em evidência os mecanismos particulares e criativos que a poeta empenhou em seu trabalho. A pedido do PublishNews, a editora Hedra nos enviou um poema de cada um de seus livros, reproduzidos abaixo:
Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
[Do livro Transposição]
**
Teia
A teia, não
mágica
mas arma, armadilha
a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente
a teia, não
arte
mas trabalho, tensa
a teia, não
virgem
mas intensamente
prenhe:
no
centro
a aranha espera.
[Do livro Teia]
**
Elegia (I)
Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?
O que era voo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico
o que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um esquema
de distâncias —
mas para que serve o pássaro?
O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.
[Do livro Helianto]
**
Coruja
Voo onde ninguém mais — vivo em luz
mínima
ouço o mínimo arfar — farejo o
sangue
e capturo
a presa
em pleno escuro.
[Do livro Rosácea]
**
Poema
Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.
Saber seu peso
seu signo
— habitar sua estrela
impiedosa.
Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.
Saber de cor o silêncio
— e profaná-lo, dissolvê-lo
em palavras.
[Do livro Alba]






