
Entre março e abril deste ano, os cinco livros publicados em vida pela poeta — hoje raridades mesmo em sebos — ganharão novas edições pela Hedra, que também planeja para 2027 um box com a obra completa, incluindo inéditos esparsos. Serão relançados Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996), títulos que lhe renderam prêmios como o Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Organizadas por Ieda Lebensztayn, as edições contarão com textos críticos clássicos — de autores como Antonio Candido, Alcides Villaça, Augusto Massi, Ivan Marques, Marilena Chaui — e textos inéditos, encomendados a pesquisadoras — como Viviana Bosi, Nathaly Ferreira e Patrícia Lavelle, ampliando o panorama crítico sobre a obra. As orelhas serão assinadas por Marilena Chaui, Marília Garcia, Veronica Stigger, Edimilson de Almeida Pereira e Fabio Weintraub.
Na sequência dos relançamentos, a Hedra prevê ainda, entre abril e julho, a publicação de O enigma Orides: uma biografia, de Gustavo de Castro, além de um livro infantil organizado por Augusto Massi, com ilustrações de Cynthia Cruttenden, e uma reunião das entrevistas concedidas pela poeta, acompanhada de um apêndice com depoimentos e textos críticos escritos por ela.
“Raramente um poeta brasileiro contou tanto com o reconhecimento imediato da crítica literária", explica Jorge Sallum, editor da Hedra, em nota. "Mas isso nunca lhe garantiu público ou até mesmo um reconhecimento maior. Coube às editoras por onde passou o cuidado com a persona da poeta, que sempre esteve na iminência de ser reconhecida. E com a Hedra não foi diferente. Mas pelo fato de a mantermos em catálogo por longo tempo e publicarmos também sua biografia, coube a nós, agora, torná-la canônica. Por isso a importância das novas edições, que apresentam não só seus livros, tal qual foram publicados, mas também a fortuna crítica produzida ao longo das últimas décadas”.
Para Rita Palmeira, curadora literária desta edição da Flip, Orides é uma referência incontornável no cenário da poesia brasileira contemporânea. “Dona de uma poesia concisa e despojada de ornamentos, e afeita aos poemas curtos, Orides Fontela recebeu atenção extraordinária da crítica literária, que via nela uma renovadora do Modernismo, e mesmo de poetas consagrados, como Drummond", diz, em nota enviada à imprensa.
Em mensagem ao PublishNews, a curadora acredita que a escolha segue o exemplo de outras Flips, que homenagearam autores menos conhecidos ou com facetas menos celebradas – como Maria Firmina dos Reis, Pagu e João do Rio. "Acho que a ideia da homenagem é mesmo ampliar o círculo de leitores de Orides, uma das poetas brasileiras mais relevantes da segunda metade do século XX. Ainda que pouco conhecida, ela não é exatamente uma outsider, afinal, recebeu prêmios (Jabuti e APCA) e sua obra foi chancelada por críticos de prestígio. Outros autores homenageados eram ou pouco conhecidos (como Maria Firmina dos Reis) ou tinham facetas de sua obra pouco conhecidas (como Pagu ou mesmo João do Rio). A Flip contribuiu para ampliar o conhecimento sobre o trabalho de cada um deles (e de outros também, exemplifico com esses porque são mais recentes). Nesse sentido, a homenagem a Orides de alguma forma dá continuidade ao que já foi feito antes na Flip. O que, de fato, talvez seja uma novidade é a Orides ser publicada por uma casa editorial de pequeno porte – isso, salvo engano, ainda não tinha acontecido e considero um aspecto positivo", disse Palmeira.
Ela conta que Orides teve a obra ofuscada por uma vida tumultuada, de muita dificuldade material e instabilidade emocional. "O vasto anedotário sobre ela comprova isso. A ideia da homenagem é privilegiar sua obra – sofisticada e simples ao mesmo tempo. Por exemplo, sua relação com a natureza (Orides teve uma infância de muito contato com animais e plantas) é algo que pode aproximar leitores de sua obra. A experimentação com a linguagem também. E, claro, espera-se que a homenagem ajude também a recuperar essa obra e ampliar seus leitores", afirma ao PN.
Na poesia de Orides, elementos e seres como pássaros, flores e rios conversam com o cotidiano urbano da poeta na cidade grande. “Para enfrentarmos os desafios da contemporaneidade, temos que entender que cultura e natureza são a mesma coisa, e que nós, humanos, fazemos parte dela. É interessante observar que essa dimensão, que é tão clara hoje, já estava sugerida na obra de Orides Fontela. Este também é o sentido de homenageá-la nesta Flip”, observa Mauro Munhoz, diretor artístico da Festa Literária.
A Flip homenageia um poeta pelo segundo ano consecutivo. Na 23ª edição, realizada em 2025, Paulo Leminski teve vida e obra destacadas no evento. Outros nomes da poesia que já foram homenageados pela Flip incluem Vinícius de Moraes, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Ana Cristina César, Hilda Hilst e Elizabeth Bishop.
Obras de Orides Fontela já publicadas
- Transposição (1969, Instituto de Espanhol da USP);
- Helianto (1973, Livraria e Editora Duas Cidades);
- Alba (1983, Roswitha Kempf);
- Rosácea (1986, Roswitha Kempf);
- Trevo (1988, Livraria e Editora Duas Cidades);
- Teia (1996, Geração Editorial);
- Poesia reunida (2006, Cosac Naify);
- Poesia completa (2015, Hedra).
A obra de Orides Fontela também foi traduzida e publicada internacionalmente a partir do ano de sua morte, em 1998:
França
- Trèfle. Tradução de Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas. L’Harmattan, 1998.
- Rosace. Tradução de Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas. L’Harmattan, 2000
Espanha
- Poesia completa. Tradução de Joan Navarro. Barcelona: Edicions de 1984, 2018.
Estados Unidos
- One Impossible Step: Selected Poems. Tradução de Chris Daniels. Nightboat Books, 2023.
Biografia
Nascida em São João da Boa Vista (SP) em 1940, Orides Fontela mudou-se para a capital em 1967 para cursar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Ali, encontrou apoio decisivo de professores, críticos e editores. Em oposição ao confessionalismo de parte de sua geração, buscou uma escrita de lucidez radical e despojamento, voltada a temas como o ser, o nada, o tempo e o sagrado.
Sua personalidade artística foi frequentemente descrita como a de uma “aristocrata selvagem”, síntese do contraste entre a inteligência refinada e uma existência marcada por precariedade material. Apesar de uma vida árdua, Orides manteve uma postura intransigente em relação ao fazer poético, recusando-se a permitir que sua escrita fosse contaminada por aquilo que chamava de “mesquinharia do cotidiano”.
"Orides é uma poeta cuja biografia deve ser entendida como alegoria de sua obra. Sim, essa poeta que se colocava 'A um passo impossível de Deus/ Atenta ao real: aqui' preferiu construir uma vida de isolamento para falar do ser que paira entre o 'silêncio lúcido' e a 'palavra densa'. E isso não sem dor. É preciso voltarmos à sua poesia e somente à sua poesia, deixando de lado aspectos ilustrativos, como os temas filosóficos, religiosos ou até mesmo biográficos. Ela, como tributária de Fernando Pessoa, sabia que todo poeta é um fingidor, e que, menos óbvio, o fingimento é verdade para a poesia”, completa Sallum.
Orides morreu em 1998, aos 58 anos, vítima de tuberculose, em um sanatório de Campos do Jordão (SP).
"É pena que a Orides não tenha vivido para ver tanto reconhecimento", diz Jorge Sallum ao PublishNews. "Mas como uma mestra da intuição e da sutileza, ela dizia que a poesia era um luxo e uma inexplicável sobrevivência. Por que precisaríamos de poesia hoje em dia? A poesia está aqui para garantir o agora e o futuro, porque precisamos de utopias. É o que ela dizia."






