Cerca de 30% dos profissionais de HQ não extraem renda da atividade, diz Censo
PublishNews, Guilherme Sobota, 30/01/2026
Realidade dura pode mudar com iniciativas de valorização da profissão; neste dia 30, comemora-se o Dia Nacional dos Quadrinhos no Brasil

Detalhe da capa do e-book do Censo Nacional dos Profissionais de Quadrinhos e Humor Gráfico
Detalhe da capa do e-book do Censo Nacional dos Profissionais de Quadrinhos e Humor Gráfico
"A típica pessoa autora de quadrinhos no Brasil não existe". A frase é do jornalista e tradutor Érico Assis e está no prefácio do novo Censo Nacional dos Profissionais de Quadrinhos e Humor Gráfico, uma iniciativa da Quadrinhopédia em parceria com o Comitê Nacional de Quadrinhos e o coletivo Quadrinistas Uni-Vos. O projeto buscou fazer um mapeamento compreensivo de todas as pessoas que trabalham e atuam com quadrinhos e humor gráfico no Brasil. Os resultados foram divulgados neste mês em um e-book, disponível gratuitamente.

Nesta sexta-feira (30), se comemora no Brasil o Dia do Quadrinho Nacional, em homenagem à primeira HQ publicada no Brasil em 1869, pelo cartunista Angelo Agostini: As aventuras de Nhô-Quim ou impressões de uma viagem à corte, que saiu na revista Vida Fluminense. A data é uma tentativa de propor uma discussão sobre a profissão e valorizá-la. Os dados do Censo, por outro lado, apontam uma realidade complicada: 30% das pessoas que trabalham com quadrinhos (entre autores, editores, ilustradores e outras funções) não extraem nenhuma renda da atividade. Outros 29% ganham até um salário mínimo, e outros 28% têm uma renda entre um e cinco salários mínimos.

Realidade complicada: 30% dos entrevistados não têm nenhuma renda com quadrinhos
Realidade complicada: 30% dos entrevistados não têm nenhuma renda com quadrinhos
Para o editor e fundador da Quadrinhopédia, e um dos líderes da iniciativa do Censo, Lucio Luiz, muitos motivos levam a isso. "Um deles é o pouco reconhecimento profissional (agora que estão ocorrendo alguns debates no MinC sobre a regulamentação das profissões artísticas). Por exemplo, se você olhar a Classificação Brasileira de Ocupações, a única atividade de quadrinistas formalmente descrita como 'de quadrinhos' é a de roteirista de quadrinhos, que é um subtópico dentro de 'Autor-roteirista' e também dentro de 'Escritor de ficção'. As demais funções de um quadrinista (termo que, além de roteirista, engloba também desenhista, arte-finalista, balonista e letrista, entre outras) têm que 'pegar emprestado' termos dos profissionais de artes para se definirem profissionalmente", explica ao PublishNews.

A pesquisa partiu de uma população desconhecida – o modelo do questionário foi aberto à participação –, o que é chamado de uma "amostragem não probabilística". Mas, segundo os organizadores, a participação da comunidade foi tão efetiva que foi atingida a quantidade mínima para que o Censo tivesse uma confiabilidade alta e uma margem de erro que não passasse de 3%. Foram 831 entrevistados.

Além de dados e recortes por região, gênero e orientação sexual, faixas etárias e outras informações, o e-book também traz textos analíticos de diversos especialistas em quadrinhos, inclusive com recortes geográficos. São nomes como Paloma Diniz, Sâmela Hidalgo, Zé Wellington, Nataniel dos Santos Gomes, Guilherme Smee, Dani Marino, Anderson Shon, Amaro Xavier Braga Jr., além de Érico Assis.

Uma das descobertas importantes foi sobre o local de moradia de profissionais. "Havia uma percepção geral de que os artistas precisavam estar em São Paulo para 'acontecerem' nos quadrinhos", comenta Lucio Luiz. "Claro, o Estado de São Paulo concentra aproximadamente um terço dos quadrinistas, mas eu acredito (e falo isso apenas como uma hipótese a partir da análise dos dados) que muito disso vem de quem efetivamente precisava estar em São Paulo no passado (digo isso porque a região Sudeste é a que tem a menor porcentagem de pessoas de 21 a 30 anos entre todas as regiões, o que pode significar que as 'novas gerações' de quadrinistas não se sentem pressionadas a ir necessariamente para São Paulo)".

Recorte geral de idade dos entrevistados, segundo o Censo
Recorte geral de idade dos entrevistados, segundo o Censo

Outro cruzamento de dados interessante é entre idade e gênero. As mulheres até 40 anos são pouco mais de 80% do total de quadrinistas mulheres, enquanto que essa mesma faixa etária corresponde a menos da metade dos quadrinistas homens. A partir dos 41 anos, a proporção entre homens e mulheres é de mais de 90% de homens contra menos de 10% de mulheres – ou seja, as mulheres mais jovens estão mais presentes nos quadrinhos do que nas décadas passadas.

"Por fim, um dado bem positivo foi a confirmação do crescimento das regiões Norte e Nordeste. Embora Sul e Sudeste ainda concentrem por volta de 2/3 do total de quadrinistas, essas regiões vêm crescendo bastante, inclusive com uma grande quantidade de quadrinistas participando de coletivos, o que, a meu ver, é um forte indicativo da importância que se dá à ajuda mútua e à sensação de comunidade", explica o editor.

De acordo com a pesquisa, 29% dos profissionais entrevistados se identificam com a sigla LGBTQIAPN+: uma parcela bem acima da média da população, que fica próxima a 12% a depender do estudo. "Eu acredito (e, novamente, apenas uma hipótese pela convivência com vários profissionais nos grupos de conversa e nos eventos) que essa quantidade é grande exatamente porque essa é uma área artística em que, apesar de obviamente existir preconceito, a quantidade de apoio é muito maior. Fora que cada vez mais temos eventos voltados para a comunidade queer, como a Poc Con, e coletivos voltados a esses grupos. Sem contar que um dos maiores nomes dos quadrinhos brasileiros é a Laerte Coutinho, então tem que ser muito 'sem noção' para um quadrinista ser preconceituoso", explica Lucio Luiz.

Kael Vitorelo é autora premiada de HQs sobre diversidade e direitos humanos | © Arquivo pessoal
Kael Vitorelo é autora premiada de HQs sobre diversidade e direitos humanos | © Arquivo pessoal
Para a quadrinista Kael Vitorelo, autora de Filosofia do mamilo (Veneta, 2024) e Kit Gay (Veneta, 2021), entre outros, vários fatores contribuem para esse resultado. "A minha impressão é a de que autores LGBTI+, justamente pela sua vivência pessoal, percebem a importância de organizar politicamente e tendem a responder mais a censos e pesquisas assim", comenta ao PublishNews. "Acredito sim que exista uma grande quantidade de quadrinistas LGBT, e pesquisas recentes mostram que as gerações mais novas cada vez mais se identificam com a sigla também. Eventos de HQ voltados para esse público, como a Poc Con, ajudam esses autores a ter orgulho de ser quem a gente é. Mas para além de ser um número grande como um todo, acho que é um número principalmente engajado, e é isso o que faz com que ele seja tão expressivo na pesquisa".

Esses são apenas alguns dados da pesquisa – o grupo já pensa na próxima edição, que será realizada em 2030, e em ferramentas para aprimorar ainda mais os dados. Para uma comunidade tão dispersa e diversa, não é preciso nem comentar a importância de iniciativas semelhantes.


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