
Nesta sexta-feira (30), se comemora no Brasil o Dia do Quadrinho Nacional, em homenagem à primeira HQ publicada no Brasil em 1869, pelo cartunista Angelo Agostini: As aventuras de Nhô-Quim ou impressões de uma viagem à corte, que saiu na revista Vida Fluminense. A data é uma tentativa de propor uma discussão sobre a profissão e valorizá-la. Os dados do Censo, por outro lado, apontam uma realidade complicada: 30% das pessoas que trabalham com quadrinhos (entre autores, editores, ilustradores e outras funções) não extraem nenhuma renda da atividade. Outros 29% ganham até um salário mínimo, e outros 28% têm uma renda entre um e cinco salários mínimos.

A pesquisa partiu de uma população desconhecida – o modelo do questionário foi aberto à participação –, o que é chamado de uma "amostragem não probabilística". Mas, segundo os organizadores, a participação da comunidade foi tão efetiva que foi atingida a quantidade mínima para que o Censo tivesse uma confiabilidade alta e uma margem de erro que não passasse de 3%. Foram 831 entrevistados.
Além de dados e recortes por região, gênero e orientação sexual, faixas etárias e outras informações, o e-book também traz textos analíticos de diversos especialistas em quadrinhos, inclusive com recortes geográficos. São nomes como Paloma Diniz, Sâmela Hidalgo, Zé Wellington, Nataniel dos Santos Gomes, Guilherme Smee, Dani Marino, Anderson Shon, Amaro Xavier Braga Jr., além de Érico Assis.
Uma das descobertas importantes foi sobre o local de moradia de profissionais. "Havia uma percepção geral de que os artistas precisavam estar em São Paulo para 'acontecerem' nos quadrinhos", comenta Lucio Luiz. "Claro, o Estado de São Paulo concentra aproximadamente um terço dos quadrinistas, mas eu acredito (e falo isso apenas como uma hipótese a partir da análise dos dados) que muito disso vem de quem efetivamente precisava estar em São Paulo no passado (digo isso porque a região Sudeste é a que tem a menor porcentagem de pessoas de 21 a 30 anos entre todas as regiões, o que pode significar que as 'novas gerações' de quadrinistas não se sentem pressionadas a ir necessariamente para São Paulo)".

Outro cruzamento de dados interessante é entre idade e gênero. As mulheres até 40 anos são pouco mais de 80% do total de quadrinistas mulheres, enquanto que essa mesma faixa etária corresponde a menos da metade dos quadrinistas homens. A partir dos 41 anos, a proporção entre homens e mulheres é de mais de 90% de homens contra menos de 10% de mulheres – ou seja, as mulheres mais jovens estão mais presentes nos quadrinhos do que nas décadas passadas.
"Por fim, um dado bem positivo foi a confirmação do crescimento das regiões Norte e Nordeste. Embora Sul e Sudeste ainda concentrem por volta de 2/3 do total de quadrinistas, essas regiões vêm crescendo bastante, inclusive com uma grande quantidade de quadrinistas participando de coletivos, o que, a meu ver, é um forte indicativo da importância que se dá à ajuda mútua e à sensação de comunidade", explica o editor.
De acordo com a pesquisa, 29% dos profissionais entrevistados se identificam com a sigla LGBTQIAPN+: uma parcela bem acima da média da população, que fica próxima a 12% a depender do estudo. "Eu acredito (e, novamente, apenas uma hipótese pela convivência com vários profissionais nos grupos de conversa e nos eventos) que essa quantidade é grande exatamente porque essa é uma área artística em que, apesar de obviamente existir preconceito, a quantidade de apoio é muito maior. Fora que cada vez mais temos eventos voltados para a comunidade queer, como a Poc Con, e coletivos voltados a esses grupos. Sem contar que um dos maiores nomes dos quadrinhos brasileiros é a Laerte Coutinho, então tem que ser muito 'sem noção' para um quadrinista ser preconceituoso", explica Lucio Luiz.

Esses são apenas alguns dados da pesquisa – o grupo já pensa na próxima edição, que será realizada em 2030, e em ferramentas para aprimorar ainda mais os dados. Para uma comunidade tão dispersa e diversa, não é preciso nem comentar a importância de iniciativas semelhantes.
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