
O festival construiu uma Vila Africana, espaço cultural imersivo para recriar a atmosfera de uma vila africana tradicional, e oferecer aos visitantes do festival uma jornada sensorial pelo continente. A edição teve como protagonista a herança cultural de Zanzibár, região culturalmente rica na Tanzânia. A organização afirma que o seu principal objetivo para a edição foi promover a cultura zanzibari e fortalecer a sua presença comunitária nos Emirados Árabes Unidos por meio de um intercâmbio cultural.
Realizando um balanço da edição, Ahmed bin Rakkad Al Ameri, CEO da Autoridade do Livro de Sharjah (SBA), afirmou que a crescente popularidade do festival reflete o apelo cada vez maior das trocas interculturais. “O SFAL criou um espaço querido para o público, escritores, intelectuais, artistas e comunidades criativas experimentarem e compartilharem as ricas tradições da África. A cultura nos define, nos inspira e nos incentiva a aprender uns com os outros”, declarou.
Destaques da edição de 2026 e foco regional

A escritora Scholastique Mukasonga foi o grande destaque do SFAL. Em um bate-papo da programação, a autora relembrou os impactos em sua vida pessoal causados pelo incidente de 1994 em Ruanda, no qual perdeu 37 membros de sua família. A trajédia a levou a escrever seu primeiro romance, Nossa senhora do Nilo (publicado no Brasil pela Nós).
Nascida em Ruanda em 1956, Mukasonga teve uma infância marcada por tensões, que forçaram sua família ao exílio na região de Bugesera. Ela fugiu para o Burundi antes de se estabelecer na França em 1992. Nossa senhora do Nilo conquistou prêmios importantes, incluindo o Renaudot (2012), e foi adaptado para um filme premiado em 2019.
Intitulada com o nome de seu celebrado romance, a palestra destacou como Mukasonga recorreu à escrita como uma forma de preservar a memória do conflito. A obra não é sobre o genocídio em si; sua narrativa se passa em um internato feminino no Ruanda do início dos anos 1970, desenvolvendo-se no contexto das divisões étnicas e explorando temas como educação, feminilidade e o conceito de pertencimento.
A autora contou ao moderador da sessão, Abdul Karim Hanif, que temia perder os detalhes da memória do conflito e precisava de uma válvula de escape para seu trauma. Foi assim que começou a escrever Nossa Senhora do Nilo, mesmo sem qualquer experiência anterior na escrita de romances. Mukasonga relata que sua familiaridade com a tradição oral de contar histórias de seu país natal e aproveitou isso em seu desenvolvimento literário. “Quando era criança, não tive muitas chances de escrever. Mas passei a criar personagens e consegui escrever um romance que foi bem recebido”, disse ela, acrescentando que outros também podem seguir esse caminho, de acordo com um comunicado do festival.
Este ano, o festival concedeu o Prêmio Sharjah por Contribuição à Literatura à destacada romancista e cineasta zimbabuense Tsitsi Dangarembga, por sua contribuição significativa para a literatura africana e mundial. Ela elogiou o SFAL como uma plataforma vital para fomentar o diálogo.
Realizado na University City Hall Square, o SFAL 2026 apresentou culturas e histórias de várias regiões da África, com um foco especial nas experiências literárias de Zanzibar, Etiópia e África do Sul. O evento reuniu 20 escritores africanos e nove autores emiradenses, que discutiram a literatura africana tradicional e contemporânea. A programação abrangeu saraus, 20 oficinas infantis, 10 sessões de culinária ao vivo, sessões de autógrafos, performances artísticas e musicais diárias, exposições de arte e muito mais.






