Marcelo Moutinho volta aos contos com 'Gentinha' e aposta na fabulação
PublishNews, Redação, 10/03/2026
Livro reúne 16 narrativas sobre vidas comuns e reafirma o olhar do autor para personagens fora da bolha cultural letrada; obra terá lançamentos no Rio e em São Paulo

Marcelo Moutinho e capa © Leo Aversa
Marcelo Moutinho e capa © Leo Aversa
Depois de seis anos sem publicar contos, o escritor carioca Marcelo Moutinho retorna ao gênero com Gentinha (Record), livro que reúne 16 narrativas marcadas por um olhar atento sobre o cotidiano urbano brasileiro. A obra terá lançamentos no sábado (14), no Rio de Janeiro (RJ), no Alfa Bar e Cultura; no dia 19 de março, em São Paulo (SP), no Mercadinho Simples; e no dia 9 de abril, novamente no Rio, na Janela Livraria do Jardim Botânico.

Em contraste com a presença crescente da autoficção na literatura contemporânea, o autor aposta na invenção de personagens e situações ficcionais para iluminar histórias aparentemente banais, mas carregadas de desejo, nostalgia, conflito e humor.

“Vivemos hoje um tempo de domínio quase absoluto da autoficção. Tenho percebido que o lugar da ficção como espaço de fabulação, em que o escritor imagina mundos e personagens muito distantes da própria vida, ficou um pouco eclipsado. Gentinha vai em outra direção. Não como oposição, mas como possibilidade”, afirma Moutinho, no release feito à imprensa.

Dividido em duas partes — Dentro é um mundo e A verdade não rima —, o livro percorre cenários que vão das periferias urbanas aos ambientes domésticos da classe média, acompanhando personagens que orbitam fora dos circuitos intelectualizados e da bolha cultural letrada.

Conhecido pela proximidade com a crônica — gênero pelo qual conquistou o Prêmio Jabuti de 2022 com A lua na caixa d’água (Malê) —, o autor reafirma no novo livro a sua vocação ficcional. Em 2017, ele recebeu o Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, pelo livro de contos Ferrugem (Record).

Para a escritora Micheliny Verunschk, que assina o texto de orelha da obra, Moutinho leva para os contos o mesmo olhar minucioso que marca sua produção como cronista. “Moutinho, que cultiva uma longa história de amor com a crônica, traz para este conjunto de 16 contos o olhar aguçado do grande cronista que é, atento à amplitude da paisagem, ao assunto, às mínimas granulações que compõem a cena. Uma mirada sensível e feroz”, escreve ela.

Já o escritor Geovani Martins destaca que as histórias revelam, aos poucos, a densidade de seus personagens. “São tramas que na superfície podem parecer banais, mas que aos poucos, à medida que convivemos com seus personagens, suas glórias discretas, seus medos, certezas e vergonhas, revelam retratos às vezes ternos, às vezes incômodos, mas sempre profundamente humanos; nas relações familiares, na confusão das sexualidades, nas memórias nostálgicas ou intrusivas, mas sobretudo no desejo genuíno de abrir uma janela para o que é belo. Moutinho nos provoca a olhar de perto essa gentinha que, no fundo, somos todos nós.”

Entre os contos do livro está Sentimental eu sou, ambientado na Feira de São Cristóvão, em que dois grupos aparentemente desconexos se encontram ao som de clássicos da música brega. Já Mictório constrói uma atmosfera sombria a partir de um encontro trivial em um banheiro público, enquanto Paladar infantil aposta no humor ao imaginar a revolta de um bebê gourmet diante da monotonia da fórmula na mamadeira. Em Conto de Natal, um ladrão vestido de Papai Noel decide cometer um crime movido por boas intenções: presentear o próprio filho.

Das 16 narrativas, apenas Queda para o alto parte de fatos reais relacionados à morte trágica da mãe do autor, atropelada por um ônibus enquanto fazia compras de Natal para os netos, e a uma história familiar marcada por fatalidades — ainda assim atravessada pela imaginação ficcional.

O título do livro ecoa a epígrafe de João Antônio, autor conhecido por retratar trabalhadores e personagens marginalizados das grandes cidades. A música também atravessa várias narrativas da coletânea: versos de canções de artistas como Roberto Carlos, Jorge Ben Jor, Altemar Dutra e Menudos aparecem como pistas afetivas que reforçam o diálogo entre literatura, memória e cultura popular.

[10/03/2026 09:48:32]