Uma sátira sobre o poder subversivo dos excluídos
PublishNews, Redação, 15/01/2026
Aminata Sow Fall constrói uma narrativa incisiva, em que o sarcasmo e a ironia abrem espaço para refletir sobre dignidade, solidariedade e o lugar dos marginalizados na vida social

Mour Ndiaye, diretor da Saúde Pública em Dakar, sonha com uma carreira política brilhante. Para conquistar prestígio e se aproximar do poder, decide “higienizar” a cidade, afastando de vista a população de rua, considerada uma mancha na imagem de modernidade que deseja exibir. Diante das medidas de exclusão e bem organizados, os mendigos tomam uma decisão inesperada: declaram uma greve. Essa ausência coletiva logo provoca um efeito em cadeia: sem os pobres para testemunhar sua generosidade, a elite urbana perde a possibilidade de praticar a caridade pública, fundamental para a vida religiosa e para a manutenção de sua imagem e respeitabilidade social. Assim, figuras invisíveis passam a ocupar o centro da cena, revelando como a sobrevivência simbólica e política dos poderosos depende justamente daqueles que eles procuram apagar. Em A greve dos mendigos (Bazar do Tempo, 136 pp, R$ 70 — Trad.: Mirella Botaro), Aminata Sow Fall, escritora em língua francesa no Senegal, constrói uma narrativa incisiva, em que o sarcasmo e a ironia abrem espaço para refletir sobre dignidade, solidariedade e o lugar dos marginalizados na vida social.

[15/01/2026 08:30:16]