
Para muitos a maior escritora da literatura brasileira, Lygia Fagundes Telles morreu neste domingo (3), aos 98 anos. Estava em sua casa, em São Paulo. Segundo familiares, sua morte ocorreu por causas naturais. Lygia deixa uma produção de romances irretocáveis em sua mistura de uma imersão ímpar no perfil psicológico de seus personagens e uma escrita fluida, elegante, e inquestionavelmente, popular.
Seu talento é precoce. Antecedido por dois livros de contos, o primeiro romance, Ciranda de Pedra, de 1954, é uma obra madura, complexa sem medo de parecer simples. Embora, como toda artista, Lygia apresentasse uma inegável evolução estilística e temática, o romance de estreia entra em qualquer lita de suas grandes obras.
Para aqueles que gostam de associar a grandeza artística a prêmios cobiçados, Lygia Fagundes Telles é imbatível. Vencedora por quatro vezes do Jabuti (1966, 1974, 1996 e 2001), principal reconhecimento na literatura brasileira, ela ganhou em 2005 o Camões, o maior prêmio para escritores de língua portuguesa. Desde 1985 ela ocupava a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras. Em nota enviada à imprensa a Câmara Brasileira do Livro (CBL) lamentou a perda de Lygia e disse que ela " tocou e encantou a vida de milhões leitores ao longo de sua vida, sendo reconhecida como a “grande dama da literatura brasileira"".
A autora nasceu em 1923, em São Paulo, e passou a infância em constantes mudanças da família por cidades do interior do estado. Tinha 21 anos e estudava na faculdade de Direito do Largo São Francisco quando lançou o primeiro livro de contos, Praia viva. Antes, tinha publicado, bancado pelo pai, Portão e sobrado, em 1938, aos 15 anos. Ela sempre rejeitou esse livro em sua lista oficial de obras.
Quatro anos depois, em 1948, lançou o segundo volume de contos, O cacto vermelho. Apesar de elogiado, seu talento iria explodir nos romances. Ciranda de Pedra é dividido em duas partes. A primeira mostra a menina Virigina vivendo com a mãe à beira de um ataque de nervos. Na segunda, Virginia adulta encara uma trama densa, em que homossexualidade feminina e impotência sexual são temas raros nos romances da época, principalmente escritos por uma mulher.
Depois de duas coletâneas de contos, lançou seu segundo romance em 1963, Verão no aquário, com uma protagonista envolvida com um rapaz que quer se tornar padre. Dois anos depois, uma de suas principais obras: O jardim selvagem. São contos de extremo sucesso, como o que dá título ao livro e Antes do baile verde. Em 1970, seu livro de contos de maior repercussão reeditou Antes do baile verde (que dá título ao livro) . São 20 histórias, entre inéditas e já publicadas,
A volta ao romance é com o arrebatador As meninas (1973). Inspirado por um panfleto que a escritora recebeu em casa, relatando torturas do regime militar, ela alterna o romance em quatro narradores: três jovens universitárias, com envolvimentos de diferentes intensidades com a resistência à ditadura, e um narrador em terceira pessoa.
Seminário dos Ratos (1977) traz contos com influência surrealista e muito mistério. No ano seguinte, reuniu contos dispersos em várias publicações na coletânea Filhos pródigos, relançado depois em 1991 com o título A estrutura da bolha de sabão.
Depois Lygia iria misturar biografia e ficção em A disciplina do amor (1980). Ela levaria quase uma década para lançar seu quarto e último romance, As horas nuas. Irônico, chega a flertar com o romance policial. Em 1995, mais um livro de contos, A noite escura e mais eu, que traz o conto mais cultuado por seus admiradores, Anão de jardim, narrado por uma dessa figuras decorativas.
Invenção e memória, de 2000, reúne textos curtos que misturam lances autobiográficos com fantasias delirantes, que incluem um vampiro norueguês apaixonado por uma indígena brasileira. O tom memorialista é total em Durante aquele estranho chá (2002), falando de suas amizades com Hilda Hilst, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Zelia Gattai, Jorge Amado e Jorge Luis Borges.
Seguiu no tom memorialista em Passaporte para a China, relato da viagem que fez em 1960, como integrante da comitiva brasileira convidada para as comemorações dos 11 anos da revolução socialista chinesa. Sua lista de obras se fecha com a coletânea Um coração ardente, em 2012, reunindo contos publicados entre 1958 e 1981.
Lygia se casou em 1947 com um de seus professores de Direito, Goffredo Telles Jr., com quem teve o único filho, Goffredo Telles Neto, cineasta que morreu em 2006. Também foi casada com o cineasta e escritor Paulo Emilio Salles Gomes.






