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Ficção para a humanidade
PublishNews, Paulo Tedesco, 23/03/2017
Em novo artigo para a sua coluna no PublishNews, Paulo Tedesco declara seu amor à ficção: ‘a boa ficção salva o homem do horror’

É a ficção que sustenta o mundo. A boa ficção é que, a contragosto dos que pregam a não funcionalidade da arte, de qualquer arte, resolve os verdadeiros dilemas da humanidade. É ela que hoje impede que vivamos num mundo somente de radicais, onde qualquer tipo de sectarismo, em qualquer esfera tenha, sempre, quem combata, quem resista às radicalizações e às perigosas generalizações.

Pois o nosso Brasil, a cada dia, dá novos passos a uma ditadura disfarçada, ao que se soma a ascensão impressionante de neofascistas, pentescostais alucinados e todo o tipo de pensamento que nega o valor da ficção, e por consequência da democracia, da tolerância e da empatia para com o próximo.

Machado de Assis, nosso gênio da periferia do mundo ocidental, que o diga. Suas personagens em qualquer de seus gêneros literários, mergulhados na mais sutil das tramas – e aí falo, por exemplo, do conto Uns braços , trazem consigo aquela maravilha da dubiedade e da imprecisão. O que, tenho certeza, é algo incompreensível para os fanáticos e doentes de qualquer causa.

A boa ficção salva o homem do horror em se acreditar em interpretações apressadas e que se apegam, exclusivamente, ao que seus olhos desejosos encontram. Aliás, ela, a ficção verdadeira, anula aquela coisa de duas cores num cenário só. E provoca, sem aviso, a que se pergunte: será que tudo tem mais de duas cores? Será que meu universo, esse pequeno umbigo que me pertence, tem mais sutilezas do que acredito?

Sim, a sociedade é salva da idiotia e da barbárie absoluta quando se lembra d´Os Irmãos Karamázov, Os demônios e muito de Crime e castigo, porque nesses romances incríveis de Dostoiévski – um dos maiores, se não o maior dos ficcionistas da história – nada é absolutamente horrível que não se encontre seu oposto, ou seja, a paz de espírito e a comunhão.

Raskonilkov o algoz em Crime e castigo, quando ajoelha diante de Sonia, e pede perdão pela humanidade a seus pés, e ali instaura sua salvação quando do exílio forçado na Sibéria. Pois que tenhamos, todos, inclusive os radicais, esse momento terno e duro na vida, quando ajoelhados diante da musa percebamos nossa pequenez.

E aí a fascinante beleza da boa ficção, de nos fazer refletir para além das paixões. Onde a beleza é coisa de deus e diabo, mas é do coração que interessa, é do amor, sob qualquer aspecto que precisa prevalecer. E quem acredita que a situação de um livro, de uma carreira literária se resolve somente com passes mágicos e ações espetaculares, automaticamente está a se esquecer do amor à ficção, à verdade e da fantástica ficção.

Paulo Tedesco é escritor e consultor em projetos editoriais. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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