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'Les PUF' em Paris: uma livraria de novo tipo
PublishNews, Felipe Lindoso, 16/06/2016
Felipe Lindoso aponta as vantagens da Expresso Book Machine instalada na importante livraria francesa

A nova livraria da PUF – Presses Universitaires de France, ocupa um espaço de menos de 80m2. Não está longe do local onde existiu entre 1921 e 2006, na Place da la Sorbonne, e que era um ponto de encontro dos estudantes e da intelectualidade francesa. No entanto, a nova livraria disponibiliza aos clientes todos os 5.000 títulos da editora (mais 2.000 títulos anteriormente fora do catálogo nos próximos meses) e três milhões de outros títulos, que incluem os publicados pelas maiores editoras dos EUA, e um crescente número de títulos franceses.

E ainda tem um café, onde os clientes esperam a impressão do livro.

Tudo isso é possível porque a livraria usa a Expresso Book Machine, que imprime e faz o acabamento de um livro a cada cinco minutos, em média. Veja detalhes sobre a inauguração, acontecida no último dia 12 de março aqui e aqui.

Publiquei anteriormente três posts sobre a Expresso Book Machine. O primeiro, em setembro de 2012, contava como a máquina foi desenvolvida a partir de uma ideia de Jason Epstein, lendário editor de Nova York, um dos fundadores da New York Book Review e visionário da indústria editorial. A máquina de livros é fabricada pela On Demand Books.

No meu segundo post sobre a Expresso Book Machine, tratei do avanço na solução de um dos gargalos para o sucesso da máquina, que é a disponibilização, pelas editoras, dos arquivos para que a EBM possa produzir seus livros sob demanda em cada máquina licenciada. Em janeiro de 2013, a Penguin USA (antes da fusão com a Random House), anunciou que faria isso.

Em 2015, quando estive no Salon du Livre de Paris, na edição em que o Brasil foi homenageado, vi pela primeira vez duas dessas máquinas operando, e publiquei mais um post sobre o assunto. Uma no estande da On Demand Books, onde entrevistei Jason Beatty, vice-presidente sênior de vendas e desenvolvimento de negócios, e outra precisamente no estande da PUF. Na ocasião, fiz questão de levar aos dois estandes o então presidente da FBN, Renato Lessa, o presidente da CBL, Luís Antonio Torelli e o então presidente da Editora da Unesp e Secretário Executivo do PNLL, prof. José Castilho.

Minha esperança era que algum deles (ou os três em conjunto) encontrassem um meio de trazer uma dessas máquinas para a Bienal do Livro de São Paulo, este ano. Fiquei na esperança, pelo visto.

Não seria um empreendimento fácil. A máquina custa caro (cerca de cem mil dólares). Segundo Beatty, isso não impede que mais de trezentas já estejam instaladas nos EUA, várias das quais em livrarias independentes. Na Europa, o país que mais as importou é precisamente a França.

Na França, a Espresso Book Machine é explorada por um consórcio constituído pelo IRENÉO, um programa de pesquisas sobre a impressão de livros sob demanda, que faz parte do IDEP (Institut de développement et d’expertise plurimédia) e pela UNIIC (Union nationale des industries de l’impression et de la communication), que seria mais ou menos o equivalente da ABIGRAF brasileira. Esse consórcio adquiriu seis máquinas para uso em escolas e universidades. Uma delas está alugada pela PUF por dois anos, o que reduz substancialmente o investimento fixo inicial. A editora, que é essencialmente uma casa de publicações universitárias (inclusive a famosa coleção “Que sais-je?”), qualificou-se assim para receber uma das máquinas importadas.

Essas informações deixam claro que a implantação desse tipo de máquina exigiria um esforço combinado de entidades públicas e privadas que estivesse voltada para o desenvolvimento da indústria editorial e livreira. Certamente isso se enquadraria em uma política de promoção do livro e da leitura, com os benefícios adicionais de melhorar substancialmente o lado logístico da distribuição de livros no Brasil.

Hélas¸ diriam os franceses, essa é uma tarefa particularmente difícil no Brasil de hoje: crise econômica, políticas de “salve-se quem puder” também na área editorial, e uma crônica incapacidade dos segmentos de editores, livreiros e gráficos para pensar e atuar coordenadamente em benefício comum, tudo se compõe para aumentar as dificuldades.

Certamente a Expresso Book Machine não é uma solução mágica para a indústria editorial e muito menos para as livrarias. Mas certamente é um esforço em busca de construir um conjunto de soluções para os problemas do setor, e que interferem diretamente nos índices de leitura dos brasileiros. As dificuldades de logística, o preço dos livros, a situação vergonhosa dos sistemas de bibliotecas públicas são componentes dos baixos índices de leitura.

Com o abandono muito provável pelos próximos dois anos dos programas de aquisição de livros de literatura para as escolas públicas (e oxalá o do livro didáticos também não seja reduzido), agravando uma situação que já se desenhava como ruim desde o ano passado, pensar na Expresso Book Machine por aqui é, como diria o Millor Fernandes, apenas um exercício de livre pensar. Que é só pensar e como tal não custa nada.

O que ainda dá um sopro de esperança nesse caso é que eu soube da livraria da PUF pela notícia publicada na edição do dia 13 de junho do New York Times. E lembrei da época do Henfil nos EUA, e o bordão que ele usava nos “Diários de um Cucaracha” no Pasquim (depois virou livro, hoje só em sebos, já que não temos uma Expresso Book Machine por aqui...), dizendo que uma coisa só ficava importante quando era publicada no jornalão da Grande Maçã. Como isso aconteceu, quem sabe... (apesar do NYT ser financiado pelo PT, como insinuou o Fiúza, colunista de O Globo).

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blog www.oxisdoproblema.com.br. Em sua coluna, Lindoso traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, ele analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

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