Karine Pansa está à frente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) desde 2011. Às vésperas de deixar a presidência da entidade -- o pleito que deve eleger seu sucessor acontece na próxima quinta-feira (26) --, Pansa assina o Relatório de Gestão 2011-2014. A publicação sintetiza as principais ações dos últimos quatro anos. Entre as principais conquistas, na opinião de Pansa, estão a consolidação do Congresso Internacional CBL do Livro Digital e a atuação da entidade na internacionalização do mercado editorial brasileiro. Outro ponto de destaque do documento é o protagonismo que a entidade teve nas discussões acerca do Projeto de Lei nº 393/11, que autoriza a publicação de biografias de personalidades públicas sem que seja necessária a autorização prévia do biografado ou de seus herdeiros. Os esforços valeram a aprovação do projeto na Câmara dos Deputados, em maio de 2014 e atualmente, o projeto tramita no Senado Federal. Outro projeto de relevância em que a CBL se envolveu foi no PL 4.534/12, que atualiza a Lei do Livro (Lei nº 10.753). Segundo o relatório, a entidade defende que “o conceito de livro deve ser tratado de maneira ampla, a fim de esclarecer a questão da imunidade constitucional de modo definitivo”. Outra iniciativa que a CBL incluiu no seu relatório foi o apoio na criação e na implementação do Vale-Cultura. “De acordo com as projeções, o impacto do Vale-Cultura no setor promete ser positivo, no médio e longo prazo. Atualmente, 89% dos créditos do Vale-Cultura já em utilização são destinados à compra de livros, revistas e jornais. Levando-se em conta a meta final do programa, que é atender 42 milhões de brasileiros, um livro por mês por trabalhador, significaria 42 milhões de exemplares mensais e 504 milhões por ano. Este volume apresenta 87,66% a mais do que todos os livros vendidos no Brasil em 2012”, ilustra o relatório. Veja abaixo os principais tópicos do relatório.
Internacionalização do mercado editorial brasileiro
Foi no período compreendido pelo relatório que o Brasil foi homenageado em Bogotá (2012), em Frankfurt (2013) e em Bolonha (2014) e também foi sob a gestão de Karine Pansa que se planejou a homenagem que o País receberá em Paris no próximo mês. “Este trabalho vem sendo ampliado de modo consistente pelo projeto setorial Brazilian Publishers (BP), realizado em parceria com a Agência brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), que completou seis anos em 2014”, pontua a dirigente na apresentação do relatório. Resultados dessas iniciativas foram apurados por uma avaliação encabeçada pelo Brazilian Publishers em maio de 2014. A pesquisa apontou que o mercado mexicano é o mais visado pelos editores brasileiros para vendas de direitos e exportação de livros, seguido pelos EUA, França, Angola, Portugal, Colômbia, Alemanha, Chile, Argentina, China, Espanha, Canadá e Coreia do Sul. A pesquisa revelou ainda que há muito por fazer. Ao serem perguntados se a sua empresa já tinha um catálogo próprio de direitos internacionais, 71% das editoras responderam que já possuíam este instrumento. No entanto, o mesmo índice – 71% das casas revelaram não ter um colaborador ou um consultor para área internacional; 79% dos entrevistados não possuem site em outra língua e 64% não possuem e-books em plataformas internacionais, mas 60% das casas já editam diretamente em outras línguas (espanhol e inglês). O relatório reproduz artigo publicado originalmente no PublishNews em que Karine Pansa defende que os editores brasileiros devem aproveitar a onda de homenagens que o Brasil tem recebido mundo afora para absorver tudo o que estas experiências podem trazer. “Certamente, nossa penetração no exterior irá além desses momentos festivos, pois a qualidade de nossa produção editorial encanta os leitores estrangeiros, ávidos por conhecerem nossa cultura, costumes e modo de pensar”, avalia a dirigente.
O mercado editorial em números
O relatório traz ainda os números apurados pela pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, feita anualmente pela Fipe sob encomenda da CBL e pelo Snel. Os dados de 2011 mostraram que o ano foi difícil: o setor tinha movimentado R$ 4,8 bi, o que representa aumento de 0,81% em relação ao ano anterior. A situação ficou menos pior no ano seguinte, quando a Fipe apontou incremento de 3,04%, número bem abaixo da inflação que foi de 5,84%, segundo dados do IPCA. Em 2013, o faturamento apontado pela pesquisa foi de R$ 5,35 bi, crescendo acima da inflação, mas com a ressalva de esse sucesso foi graças às vendas governamentais, que teve crescimento nominal de 12,04% e, uma vez deflacionados os números, de um aumento real de 5,79%, como publicado pelo PublishNews à época. Ou seja, enquanto o governo aumentou as suas compras, as vendas dos editores no mercado privado ficaram praticamente estagnadas.
O livro digital
A evolução do livro digital no Brasil foi acompanhado pelo Congresso CBL do Livro Digital, que, em 2014, chegou à sua quinta edição. Na primeira edição do congresso, o mercado engatinhava nesse assunto. A única empresa a comercializar conteúdos nesse formato tinha surgido no ano anterior. Já na segunda edição, em 2011, o cenário já era outro. Prova disso, foram os 500 participantes que se inscreveram para ver e ouvir palestrantes nacionais e internacionais discutirem o futuro (e o presente) das publicações digitais. Em 2012, o mercado brasileiro presenciou a chegada da Amazon e da Kobo, mas antes disso, o congresso discutia a nova cadeia produtiva do conteúdo – do autor ao leitor e abordou as perspectivas para o mercado, seus modelos de negócios, aspectos tecnológicos, direitos autorais e o comportamento do leitor. Foi em 2013, na quarta edição do congresso, que a CBL realizou a pesquisa Mercado do Livro Digital no Brasil, que revelou que 68% dos editores e livreiros já tinham comercializado livros em formato digital. No entanto, 58% dos entrevistados disseram que a insegurança em relação ao formato técnico foi uma das razões que impediram a entrada no segmento. Na última edição do congresso, realizada ano passado, os participantes puderam comparar os dados de 2012 com 2013 apurados pela pesquisa Fipe/CBL/SNEL e perceberam que o número de títulos lançados em formato digital saltou de 7.470 em 2012 para 26.054 no ano posterior. O aumento nas vendas também foi relevante, saltando de 227.292 unidades em 2012 para 873.973 no ano seguinte.
Bienal
O relatório faz ainda um balanço das duas edições – 2012 e 2014 - da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Comparativamente, o número de visitantes em 2014 minguou em relação à de 2012. Se em 12, 753 mil pessoas passaram pelos corredores, em 14, o número caiu para R$ 720 mil. No entanto, os gastos por pessoa subiu de R$ 95,60, em 2012, para R$ 124,50 em 2014. Descontada a inflação no período (IPCA), isso representa um aumento de 15%. As editoras notaram um aumento de 40% no seu faturamento entre uma edição e outra. No entanto, o relatório demonstra que o aumento foi menor, considerando a relação entre o faturamento de 2010 e de 2012. De 2010 para 2012, os expositores perceberam aumento de 92% em relação à edição anterior.
Aproximação com outras entidades
A união do rebanho obriga o leão a dormir com fome. Partindo dessa máxima e levando em conta a chegada do lobo-mau Amazon ao Brasil, a CBL diz em seu relatório que, nos últimos quatro anos, procurou se aproximar das demais entidades representativas da cadeia produtiva do livro. Assim, participou de encontros mensais com a Associação Nacional das Livrarias (ANL), Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros), Liga Brasileira de Editoras (Libre), Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Nesses encontros foram debatidos temas como a Lei do Preço Fixo, incentivos fiscais, linhas de crédito, barateamento de fretes, entre outros.







